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Mourinho. Mil jogos em 21 anos é obra especial
Desporto 10 min. 12.09.2021
Futebol

Mourinho. Mil jogos em 21 anos é obra especial

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Mourinho. Mil jogos em 21 anos é obra especial

Foto: AFP
Desporto 10 min. 12.09.2021
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Mourinho. Mil jogos em 21 anos é obra especial

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Da estreia no Bessa ao número redondo no Olímpico de Roma, o treinador acumula 637 vitórias e 25 títulos.

Mil. O número impõe respeito, seja qual for a circunstância. Junte agora a palavra jogos e o nome José Mourinho. Uauuuuuuuu. É isso mesmo, 12 Setembro 2021 é o dia em que Mourinho celebra o milésimo jogo da carreira (Roma vs Sassuolo), 21 anos depois do arranque por ocasião do Boavista 1:0 Benfica no Bessa, para a 5.ª jornada da 1.ª divisão portuguesa.

Os grandes clubes são feitos da mesma matéria. São instituições com história e currículo. São os mais grandiosos, premiados e, ao mesmo tempo, o alvo a abater. Por isso, incomodam muita gente. É um dado adquirido em qualquer país onde o futebol é o desporto-rei. Com os treinadores, também é um pouco assim. Repare-se no caso extraordinário de Mourinho. No início da carreira, em Setembro 2000, ainda é conotado como o adjunto tradutor de Bobby Robson que arrisca a sorte por sua conta e risco. Passam-se só quatro anos e Mourinho é já um treinador de referência com duas conquistas internacionais em anos seguidos (Taça UEFA 2003, Liga dos Campeões 2004). Só lhe falta uma aventura bem-sucedida lá fora para dar o salto. Uma, só? Ahahah, essa é boa.


Ronaldo. Home sweet home em Old Trafford
Calha bem hoje o Newcastle, único adversário a quem o português marca três golos num jogo da Premier League.

Very well, Mourinho assina pelo Chelsea, clube novo rico por obra e graça do russo Abramovich. Pormenor, o Chelsea não é campeão inglês há 49 anos e, ainda por cima, o seu maior rival (Arsenal) acaba de se sagrar campeão invicto. Se sairmos de Londres, há o Manchester United de Alex Ferguson. Sentem o desafio? Mourinho também. É campeão a três jornadas do fim, em Bolton (3:0), e acumula uma série de recordes da Premier League como mais vitórias fora (15), mais jogos sem golos sofridos (25), menos golos sofridos fora (9), mais vitórias (29) e menos golos sofridos (15). No ano seguinte, revalida o título. O tri nunca chega, há Ferguson com Ronaldo. A meio de 2007-08, sai de cena e passa o resto da época desaparecido em combate.

O regresso é pela porta grande, em Itália. Aliás, Mourinho já havia dado o toque ainda em Londres, no auge da sua movida intensa de títulos. ‘Depois do Chelsea, quero trabalhar em Itália. É um futebol que não está a viver um bom momento, mas para um treinador é fantástico, porque é o futebol táctico na sua mais pura realidade. E gostava de treinar a selecção portuguesa. Para muitos a selecção é um trampolim, porque é a maneira de se dar a conhecer ao mundo. Eu não preciso, porque eu sou um treinador do mundo, mas seria a melhor maneira de encerrar da carreira. Gostava de conseguir para Portugal inteiro o que consegui com o Porto.’

O Inter é o próximo capítulo. Mal chega, as comparações começam. Porque há os homens com H grande e esses não são nada quando comparados àqueles com dois H grandes. Era o caso de Helenio Herrera, ou HH, um dos mais carismáticos treinadores de sempre. À personalidade irreverente, que tanto suscita clamor da multidão pela frontalidade como colecciona inimigos pelo mesmo motivo, junta-se uma carreira de indiscutível sucesso, na qual conquistou 15 títulos, sete dos quais pelo Inter, incluindo duas Taças dos Campeões. A história não se fica por aqui.

Helenio Herrera chega ao Inter aos 44 anos de idade, levado por Moratti (o pai Angelo), que despedira 12 técnicos em cinco anos de mandato. José Mourinho aterra em Milão aos 45 anos de idade, levado por Moratti (o filho Massimo), que já demitira 10 treinadores em 13 anos. As comparações são mais que inevitáveis. E Fiora Gandolfi, companheira italiana de HH por 25 anos, vota na matéria. ‘O meu HH era uma pessoa sincera, directa e orgulhosa, como Mourinho. Ambos se distinguem pela sua vitalidade, uma coisa que falta no nosso futebol e, mais em geral, à própria Itália.’


José Mourinho vai treinar a Roma na próxima época
José Mourinho assinou contrato por dois anos com o clube italiano.

Para Gandolfi, conhecida em Itália como a primeira mulher enviada-especial de um jornal a cobrir o Giro (Volta à Itália em bicicleta), ‘Vejo imagens de Helenio na minha cabeça e comparo com as de Mourinho e são idênticos no discurso e naquela pose de “eu sou o maior”. Mas isto funciona assim: se um treinador não crê em si, como é que o resto da equipa acredita? Ele possuía uma confiança incontrolável em si mesmo, mas também era de uma cultura impressionante pelo facto de ter viajado muitíssimo. E, naqueles tempos, era difícil ser treinador porque os jogadores não eram profissionais. Era um visionário, como Mourinho. Um exemplo bem explícito: quando Helenio impôs regras no Inter, ninguém acreditava que os seus ideais iam ser bem recebidos pelos futebolistas mas foram. Até hoje.’

Se Mourinho é uma espécie de espelho de HH, tudo muda com a conquista da segunda Liga dos Campeões, em 2010. O bis de Milito no 2:0 vs Bayern em Madrid acaba com as comparações para Mourinho. Não há cá Helenio Herrera, nem Alex Ferguson ou seja quem for. Quanto muito, é a era dos novos Mourinhos. Dos treinadores que se parecem com ele. Com o mestre. Com o ídolo da multidão. Nesta abordagem, André Villas-Boas (Porto), Domingos Paciência (Braga), Leonardo Jardim (Beira Mar) e Pedro Caixinha (U. Leiria) entram em cena. Nesta fase comparativa, não está em causa os seus resultados destes quatro novos Mourinhos, mas sim a sua abordagem ao jogo, o seu estilo no banco e a sua forma de comunicação com os jogadores.

Cada qual alcança o seu sucesso, nunca alcança o próprio Mourinho. Nem em títulos, muito menos em rodagem. Mourinho chega aos mil, repetimo-nos. É obra. Ao todo, 637 vitórias, 204 empates e 154 derrotas mais 25 títulos. Ya, vinte e cinco. É obra, repetimo-nos over and over. Desses 25, quatro internacionais entre as já faladas Ligas dos Campeões 2004 (Porto) e 2010 (Inter) mais a Taça UEFA 2003 (Porto) e a Liga Europa 2017 (United). Como se isso fosse pouco, é campeão em quatro países entre Portugal (2003, 2004), Inglaterra (2005, 2006), Itália (2009, 2010) e Espanha (2012). E para rematar, uma série de frases intempestivas, corrosivas, deliciosas, agora escolha.

BENFICA

Não vou para adjunto nem do Toni, nem do Capello, nem de ninguém
Mais que uma chicotada psicológica, esta equipa precisa de uma chicotada metodológica
Não é fácil para um treinador gostar de um jogador (Sabry) que tem uma média absurda de foras-de-jogo, que não sabe que quando a bola está na posse do adversário, ele tem de fechar o espaço interior e não ficar aberto, que não sabe o que é relação posicional e ocupação equilibrada do espaço e que fora de casa quando lhe mostram os dentes foge. Em Paços de Ferreira, jogou pouco tempo porque levou oito minutos a preparar as botas e as caneleiras à minha frente!
Vilarinho não manda nada no Benfica e há um sócio de empresário que está escondido para o grande público com fato de comentador (Fernando Seara) que me critica. Essas críticas estão anexadas a corrupção moral

U. LEIRIA

Com quatro jogadores da União Leiria, era campeão no Benfica.
Tentei alargar um pouco mais os horizontes de um clube regional com impacto a nível nacional
Vou de casa para o estádio e do estádio para casa e as noites são passadas a planificar treinos e novos métodos de trabalho. Sou assim como uma espécie de monge do futebol

FC PORTO

Na próxima época (2002-03), vamos ser, de certeza absoluta, campeões
Não acredito muito nos sistemas de jogo que têm a sua origem no gabinete, na reunião, na conversa com os jogadores. Acredito no treino, na explicação, na repetição sistemática
Fomos educados para ganhar. Se eu um dia dissesse no balneário que íamos jogar para defender, eles expulsavam-me
O Fernando Santos estava à minha espera muito exaltado e eu exaltado fiquei. Disse-lhe coisas na altura de que me arrependi mas hoje, depois de ter lido aquilo que ele declarou ao Conselho de Disciplina, já não me arrependo. Devia ter-lhe dito muito mais e um dia dir-lhe-ei

CHELSEA

Arrogante? Sou campeão da Europa e acho que sou especial
Como dizemos em Portugal, eles (Tottenham) trouxeram o autocarro e estacionaram-no em frente da nossa baliza. Ficaria frustrado se fosse adepto e tivesse pago 50 libras para ver este jogo. Eles caíam como se tivessem morrido aos cinco minutos de cada vez e demoravam mais cinco minutos quando faziam uma substituição
Isto não é nada contra Sir Alex Ferguson: na 4.ª feira, estivemos juntos no meu gabinete a falar e a beber vinho. Infelizmente era uma garrafa de vinho muito mau. Quando for a Old Trafford jogar a segunda mão, no dia do meu aniversário, vou levar uma bela garrafa de vinho português
A história de Frank Rijkaard como jogador não pode ser comparada à minha. A história dele é fantástica, a minha é zero. A minha história como treinador não pode ser comparada à de Frank Rijkaard, porque ele tem zero títulos e eu conquistei uma série deles
Agora, em Portugal, os adeptos do Benfica e do Sporting gostam muito de mim. Sabem porquê? Porque como me fui embora finalmente têm hipótese de ganhar o campeonato
Ele (Ricardo Carvalho) disse que não me compreendia e eu respondi que ele devia ter algum problema e tinha de fazer um teste de QI
Drogba, Ronaldo, Van Persie e Gerrard são os melhores a atirar-se para a piscina

INTER

Estudei cinco horas por dia durante vários meses para poder comunicar-me com os jogadores, os jornalistas e os adeptos. Ranieri esteve cinco anos em Inglaterra e ainda luta para dizer bom dia e boa tarde
A única coisa que posso dizer e fazer é trabalhar mais. De resto, é esperar para ver, não faço milagres. Não sou nenhum Harry Potter
Não conheço a náusea de Ranieri, só a de Jean Paul Sartre, que foi um grande filósofo e um apaixonado pelo futebol
Nos últimos dois dias, só se falou da força de Roma, Milan e Juventus. Todos eles têm grandes jogadores, verdadeiros campeões desejados por todo o mundo. E ninguém falou do Inter, campeão em toda a linha. Os outros não têm nada, zero tituli

REAL MADRID

Pep Guardiola é um grande treinador mas ganhou uma Liga dos Campeões que me envergonha
Não sei se é o patrocínio da Unicef ou o Villar na UEFA, mas ninguém rouba a bola ao Barça
Falam de Pedro León como se estivessem a falar de Zidane ou Maradona. Ainda há dois dias ele andava a jogar no Getafe
Se não tens um cão (Benzema), caças com gato (Higuaín). Sozinho é que não podes ir
Se nem controlo a minha casa, aí manda a minha mulher, como é que podia mandar num clube como o Real Madrid?
Gostem ou não de mim, sou o único a ter sido campeão nacional nos três campeonatos mais difíceis: Espanha, Itália e Inglaterra. Por isso, em vez de Especial, talvez devessem passar a chamar-me Único

 UNITED

O meu estilo de liderança na equipa é diferente do de Van Gaal. Não se pode tratar um jogador com tanto rigor como ele trata 
Como treinador, sou uma pessoa que pensa pela sua cabeça. Não me deixo atemorizar com a pressão e, nesse sentido, talvez possa transparecer alguma arrogância 
Há muita gente com inveja do meu sucesso

TOTTENHAM

Não acredito na palestra clássica, em que o treinador debita informação. Acho que ao fim de cinco minutos, já não ouvem. Gosto de estar e ver um determinado vídeo, parar e perguntar como vamos resolver este problema
Se calhar, já tive uma declaração menos correcta, porque não sou perfeito
Quem me conhece bem gosta de mim. Quem me conhece mal, tem uma ideia errada a meu respeito. Sou uma pessoa especial

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