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Conta-me como foi da bola: os 30 anos do título de bicampeão mundial
Desporto 5 min. 02.07.2021
Futebol

Conta-me como foi da bola: os 30 anos do título de bicampeão mundial

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Conta-me como foi da bola: os 30 anos do título de bicampeão mundial

Desporto 5 min. 02.07.2021
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Conta-me como foi da bola: os 30 anos do título de bicampeão mundial

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
No dia 30 Junho 1991, num Estádio da Luz à pinha, a selecção portuguesa de Queiroz repete o título de 1989 em Riade numa final vs Brasil resolvida nos penáltis.

Pausa no Euro. Sim, é verdade, o adeus prematuro dos finalistas de 2016 é um pormenor delicioso. Comovente, até. Se a Bélgica disciplina Portugal (1:0), já a Suíça saca uma das melhores exibições da história para arrumar a França num jogo em que se coloca em vantagem, falha um penálti, consente a reviravolta para 3:1 e chega ao empate mesmo no fim. No prolongamento, nada de novo. Nos penáltis, Sommer evita o 5:5 de Mbappé e inicia uma festa colossal. Horas antes, Croácia e Espanha subscrevem espectáculo digno de registo com seis golos em 90 minutos, mais dois nos outros 30.

Pausa no Euro. Só por um dia, o 30 Junho. A razão é simples e tem a ver com Portugal. Há precisamente 30 anos, o Estádio da Luz rebenta como nunca. Mais, muito mais que 120 mil pessoas assistem à final do Mundial sub20 entre Portugal e Brasil. É o primeiro choque Figo vs Roberto Carlos antes dos clássicos Madrid-Barça. Para chegar ali, Portugal acumula cinco vitórias seguidas e 9:1 em golos. Já o Brasil só ganha quatro e empata uma vez, ainda na fase de grupos, vs México – curiosamente, a única selecção a dar trabalho extra a Portugal, com ida a prolongamento nos ¼ final. Em ambos os jogos, o herói mexicano é Pineda. Na altura, o avançado é craque da cabeça aos pés e aterra no Mundial com contrato assinado pelo Milan.

Seja como for, a final apresenta o desejo comum de uma larga comunidade luso-brasileira. João Havelange, presidente da FIFA, nem cabe em si de contente. Seguem-se 120 minutos de futebol cauteloso, pouco emotivos. Como tal, zero golos. Vamos para penáltis e, aí, o sangue frio é português. Quatro remates, quatro golos. Por ordem, Jorge Costa, Figo, Paulo Torres e Rui Costa. O Brasil só tem 50% de eficácia. Ramon dá o mote, Élber acerta na trave, Andrei retoma a boa onda e Brassard adivinha a bola de Marquinhos. Quando Rui Costa engana Roger, explode uma festa inaudita por todo o país. Portugal é bicampeão mundial, por obra e graça da dupla Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Um trabalho hérculeo de anos, anos, anos e anos com mil e um estágios à mistura.

A viagem começa em 1988, com o apuramento para o Euro sub18. Ultrapassada a Itália na fase de grupos, segue-se a fase final. Nos ¼, a anfitriã Hungria é afastada com pinta nos penáltis. Depois é a Espanha (2:1). Na decisão, a URSS de Cherbakov e Kandaurov sai-se melhor nos penáltis. No problemo, Portugal só quer mesmo ser campeão do mundo. A Europa pode esperar. A campanha do Mundial sub20 tem o arranque nas Antas, a 14 Junho, uma sexta-feira. O domínio é avassalador, a Irlanda nem faz cócegas. Marca primeiro o capitão JVP, fixa o 2:0 o suplente Capucho numa sublime jogada individual antes de um toque de desdém em forma de chapéu de aba curta na cara do guarda-redes. Antes do apito, Figo falha um penálti, por cima. O público aplaude e incentiva o número 3. Ya, Figo é o 3. Rui Costa, o 5. Nélson, o lateral-direito, o 10. E por aí fora. É o sorteio a ditar leis.

Segunda-feira, 17 Junho. Segunda jornada da fase de grupos, na Luz. A Argentina quer retificar o golpe do 1:0 da Coreia, só que não tem jogo para tal. Como se isso fosse pouco, acumulam-se as faltas de jeito e as entradas maldosas. O árbitro belga Guy Goethals, filho de Raymond, treinador do Vitória SC em 1984 e campeão europeu pelo Marselha em 1993, mete os pés pelas mãos e expulsa Paris em vez de Loza, aos 41 minutos. Está o caldo entornado. Os argentinos entram de cabeça perdida para a segunda parte. Pellegrino (63’) e Esnaider (89’) também recebem ordem de expulsão. Acto contínuo, a FIFA proíbe a Argentina de participar sequer na qualificação para o Mundial seguinte, em 1993, na Austrália.

(ah é verdade, acaba 3:0 com golos de Gil, Paulo Torres de penálti e Toni)

Última jornada do grupo A, dia 20 Junho, uma quinta-feira. Novamente na Luz. Um erro do guarda-redes Choi na demora em repor a bola é punida com livre indirecto. Diz quem vê, um exagero do árbitro. Paulo Torres nem está aí. Bola cá, bola lá, é o definitivo 1:0. Ao intervalo, sai Choi e entra Kim. O primeiro lugar está mais que assegurado, Portugal continua a jogar na Luz. Venha de lá o México, 2.º do grupo B, o do Brasil.

É um sábado, 22 Junho. Aos três minutos, penálti sobre JVP. Chamado a bater, Paulo Torres acumula o terceiro golo na competição. Na segunda parte, Pineda empata numa altura em que o árbitro polaco Wojcik já cometera um deslize caricato ao perdoar a expulsão de González, o número 14. ‘Quando lhe mostrei o amarelo, que seria o segundo, vi número 4 e não 14. O suor ou a borracha devem ter apagado o 1.’ Siga a marinha, vamos para prolongamento. Aos 101 minutos, a capicua funciona a favor de Portugal com livre de Paulo Torres (sempre ele) e cabeceamento de Toni. Que alegria, que beleza. 

Meia-final, 26 Junho. Já se sabe o primeiro finalista, na sequência de um samba brasileiro á URSS por 3:0 no Municipal de Guimarães. Na Luz, a surpreendente Austrália tapa bem o caminho da bola, ora pelo guarda-redes Bosnich, já o terceiro do Manchester United, ora por Okon, cobiçado pelo FC Brugge e Espinho. Decide um pontapé do outro mundo de Rui Costa, daqueles de fazer vibrar todo um estádio, à imagem do momentâneo 2:1 vs Inglaterra no Euro-2004.

Eis a final mais desejada, Portugal vs Brasil. À hora do pontapé de saída, o termómetro assinala 32 graus. No inferno da Luz, o desejo é ainda mais ardente. Famílias inteiras fazem fila para os bilhetes e aparecem no estádio, felizes da vida. Pela primeira vez, Portugal está unido em torno da selecção. E sai a ganhar, nos penáltis. A taça é nossa, o mundo também.

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