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Faz 60 anos que Eusébio vestiu pela primeira vez a camisola das quinas. E foi contra o Luxemburgo
Desporto 5 min. 09.10.2021
Rui Miguel Toval

Faz 60 anos que Eusébio vestiu pela primeira vez a camisola das quinas. E foi contra o Luxemburgo

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Rui Miguel Toval

Faz 60 anos que Eusébio vestiu pela primeira vez a camisola das quinas. E foi contra o Luxemburgo

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Desporto 5 min. 09.10.2021
Rui Miguel Toval

Faz 60 anos que Eusébio vestiu pela primeira vez a camisola das quinas. E foi contra o Luxemburgo

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A propósito do duplo compromisso da seleção portuguesa, vs Qatar e Luxemburgo, eis uma efeméride do best do dia 8 de outubro.

Eusébio nasce em Janeiro 1942. Quando chega a Portugal via Lourenço Marques, em Dezembro 1960, só tem 18 anos. Menos de um ano depois, em Outubro 1961, já é o Pelé branco. À conta dos três golos ao Santos de Pelé em pouco mais de um quarto de hora num torneio internacional em Paris.

Esta pontaria assinalável para um jovem tão inexperiente merece a atenção de todos, sobretudo do seleccionador Fernando Peyroteo, outro fura redes de classe inegável. É convocado para a dupla jornada, vs Luxemburgo e Inglaterra, de qualificação para o Mundial-62. Na antevéspera do primeiro jogo, o estreante Peyroteo abre o livro e dá o onze aos jornalistas, com Costa Pereira, Lino, Morato e Hilário; Pérides e Lúcio; Yaúca, Eusébio. Águas (cap), Coluna e Cavém. Contas feitas, há cinco benfiquistas, cinco sportinguistas e um belenense.

Fernando Peyroteo é o avançado mais eficaz de todos os tempos na relação jogos (197)- golos (330) em campeonatos nacionais, sempre ao serviço do Sporting, entre 1937 e 1949. Aos 31 anos de idade, retira-se dos relvados, mas não do futebol, porque assume a selecção nacional em 1961, durante a tal fase de qualificação. A sua estreia está marcada para o dia 8 de Outubro de 1961, no Grão-Ducado do Luxemburgo. Eles são amadores, nós temos os campeões europeus Costa Pereira, José Águas (capitão), Coluna e Cavém.

Para compor o ramalhete, Peyroteo chama Eusébio. É um jovem de 19 anos, mas já com tantas provas dadas no futebol, entre as quais os nove golos em cinco jogos oficiais pelo Benfica desde 1 Junho 1961, data da sua estreia, mais aquela magnífica exibição no Torneio de Paris, no Verão, em que o avançado entra a pouco mais de 15 minutos do fim e, mesmo assim, marca três golos ao Santos de Pelé.

No dia seguinte, o “L’Équipe” intitula: “Eusébio, 3 – Pelé, 2”. No Luxemburgo, o seleccionador Peyroteo lança Eusébio (e ainda Pérides e Morato, ambos do Sporting), mas sai tudo ao contrário. Quando menos se espera, o escândalo abate-se sobre a selecção portuguesa. Chegada a hora de defrontar os tais amadores, um hat-trick de Schmit (4-2) garante a primeira vitória do Luxemburgo desde 1951 e antecipa o adeus de Portugal às pretensões de chegar ao Mundial do Chile, dada a obrigatoriedade de vencer a Inglaterra em Wembley na última jornada da qualificação.

No Luxemburgo, a única pantera à solta é Adolphe “Ady” Schmit, autor dos três primeiros golos do jogo a Costa Pereira (22’, 53’ e 57’), façanha que lhe permite sair de casa (Fola Esch) e aventurar-se por França (Sochaux). O primeiro é um remate seco, os outros dois partem de erros defensivos, um de Morato e outro de Pérides – só para se ter uma ideia, Schmidt marca tantos golos nessa tarde como nas outras 48 internacionzalições. O 3-1 surge por Eusébio aos 83 minutos num lance individual em que todos os luxemburgueses estão à espera de um passe para José Águas. Mais intuitivo e felino que todos os outros (juntos), Eusébio remata com força e colocação para o golo, como que a querer dar a entender a sua propensão para grande goleador – algo que se estenderia até ao seu adeus à selecção, também em Outubro mas de 1973 com um total de 41.

Três semanas depois, Portugal joga em Wembley com a obrigação de ganhar para chegar ao Mundial-62. É a última vez que se ouve falar de Eusébio. A partir daí, é Pantera Negra. Por culpa de Walter Winterbottom, seleccionador inglês, que gritava a plenos pulmões para o campo. “Flowers, look at the Black Panther.” Flowers é o defesa do Wolves, marcador de Eusébio, campeão mundial em 1966 sem jogar um minuto – só recebe a medalha de campeão em Junho de 2011, por cortesia de Gordon Brown. E Black Panther é o Pantera Negra, ou Eusébio, anteriormente conhecido como Pérola Negra, alcunhado pela imprensa francesa em Junho 1961 (à conta do tal hat-trick com o Santos de Pelé), que cala Wembley duas vezes, com violentos remates ao poste.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Pois bem, o Black Panther, com 19 anos e no primeiro ano de profissional pelo Benfica, ganha quatro contos, qualquer coisa como 1.357 euros. Embasbacados com o talento de Eusébio, os ingleses festejaram a qualificação para o Mundial-62 no Chile, claro, mas preferiram enaltecer as qualidades daquela força da natureza. E o capitão Johnny Haynes estava mais que admirado. Perguntou tudo ao enviado-especial do jornal A Bola e quando soube do salário dele, soltou: “Cinquenta libras? Eu fazia greve”. E ele, Haynes, sabia do que falava.

Mais conhecido como maestro, foi uma espécie de Beckham dos anos 50/60. Pelé diz que ele foi o melhor passador que já viu, e Haynes foi o primeiro jogador a fazer publicidade, para a Brylcreem, um produto masculino para o cabelo. Além disso, Haynes, companheiro de Bobby Robson no Fulham, clube que representou por 18 anos, está na história do futebol inglês por ter sido o primeiro futebolista a ganhar 100 libras por semana, precisamente a partir de Agosto 1961, quando se registou um entendimento entre a Associação de Jogadores e a Federação de Futebol para a abolição do tecto salarial de 20 libras.

Tommy Trinder, folclórico presidente do Fulham, disse logo que Haynes valia o triplo. Errado. Valeu o quíntuplo. De 20 para 100 libras. E Haynes disse não ao Milan, que oferecera 800 mil libras para o Fulham, o que quebraria o recorde de transferência da época (menos de metade naquela época) e faria dele o jogador mais bem pago do mundo. Haynes não quis. Preferiu o Fulham, onde jogou oito épocas na 2.ª divisão, durante as quais, curiosamente, foi o capitão da selecção inglesa. Nessa qualidade, insurgiu-se contra o salário de Eusébio. E foi aí que o Pantera Negra arruinou o ditado “quem não tem dinheiro, não tem vícios”, porque ele continuou a surpreender tudo e todos.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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