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Eusébio. O dia em que o rei faz anos
Desporto 14 min. 25.01.2022
Futebol

Eusébio. O dia em que o rei faz anos

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Eusébio. O dia em que o rei faz anos

Desporto 14 min. 25.01.2022
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Eusébio. O dia em que o rei faz anos

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Faz hoje 80 anos o melhor jogador africano de sempre e o único português a sagrar-se melhor marcador de um Mundial.

Uma força da natureza, capaz de desequilibrar qualquer ecossistema com os seus pontapés e cabeceamentos. Se passarmos a sua carreira a pente fino, encontramos golos em 234 dias do ano. É obra. Em Maio, por exemplo, só falha quatro datas. A 8 Junho, outro exemplo, esmera-se com 11 golos (quatro ao Marinhense, três à CUF, dois à Noruega e mais dois ao Belenenses). O homem comete a proeza de acumular mais golos que jogos na 1.ª divisão nacional (317-301), na Taça de Portugal (97-61) e até no Mundial (9-6). É Rei, só pode. E é mesmo – os golos comprovam-no, os títulos idem idem (11 campeonatos é um recorde em vigor). A tudo isto junta uma simplicidade ímpar. Desde o primeiro até ao último dia em Portugal.

Eusébio aterra em Lisboa a 15 Dezembro 1960 como Rute Malosso para trocar as voltas ao Sporting, já então em guerra aberta com o Benfica pelo concurso do genial interior-direito. À sua espera no aeroporto da Portela, um só jornalista: Cruz dos Santos, d'A Bola. "Foi a saca-rolhas que lhe fiz uma pequena entrevista, em que lhe perguntei se o que se dizia dele era verdade, que era um grande goleador, e ele disse que fazia uns golinhos." Uns golinhos? Essa é boa. Eusébio é uma máquina sem igual. Daí que seja o primeiro Bota de Ouro de sempre, em 1967-68. Daí que seja o único português melhor marcador de um Mundial, em 1966. Daí que seja o primeiro português a ganhar a Bola de Ouro, prémio instituído pelo semanário France Football para o melhor da Europa, em 1965. Eusébio é craque da cabeça aos pés. Quando desce o pano sobre o século XX, a FIFA organiza uma votação à escala planetária sobre os melhores jogadores de sempre e Eusébio acaba em 9.º.

Quero entrevistá-lo em Dezembro 2010 e telefono-lhe. Ao segundo toque, aí está ele ao vivo e a cores. A piada também é essa, o assessor de Eusébio é o próprio Eusébio. Não há obstáculos para chegar à fala com o nono melhor do mundo do século XX. Imaginem se quiséssemos falar com os oito acima dele. Pelé só fala a troco de uma batelada de dólares por cada entrevista, cortesia contratos publicitários com este e mais aquele, Cruijff só fala se o encontrarmos num campo de golfe ou num outro campo de golfe, Beckenbauer só fala com marcação e a sua agenda em Munique está preenchida até Novembro 2011, Di Stéfano é o presidente honorário do Real Madrid e tem mais que fazer do que dar entrevistas, a não ser que seja um evento-homenagem, Maradona só fala através de Fidel, Puskas só está entre nós em pensamento, Platini é o presidente da UEFA e très occupé, Garrincha é de outro mundo (e se não fosse, fintaria os jornalistas cá com uma pinta). A prova dos nove é Eusébio. Que atende ao segundo toque, já tínhamos dito?

Segundo toque? Ao telefone, sim. Em campo, tanto lhe faz. Fosse remates de primeira ou jogadas individuais, Eusébio maravilha o mundo benfiquista, o mundo português e o mundo em si. É um jogador global. Nas 15 épocas de Benfica, marca 638 dos 1620 golos, o que representa 39 por cento. E ainda assiste os companheiros para outros 351 golos. Ou seja, feitas as contas, participa directamente em 61%. É um fenómeno sem igual. Que o diga Manuel José, seu companheiro no Beira-Mar. "Estava eu, o Abel e o Eusébio a dar um passeio e entrámos numa rua meio manhosa. Parámos numa loja de relógios, porque o Eusébio adorava vê-los. Estávamos fora da loja quando o dono se pôs à porta, a olhar fixamente para o Eusébio. Perguntou-lhe se era ele. À resposta positiva, ele sacou de uma máquina fotográfica e chamou a mulher dele para lhe tirar uma fotografia. Depois ofereceu-lhe o relógio, que tinha máquina calculadora e tudo. O Eusébio reconhecido na Venezuela, numa rua daquelas? Quem poderia imaginar? Mesmo eu que já o conhecia, fiquei espantado."

Beira-Mar? Sim senhor, Eusébio fecha a experiência na 1.ª divisão em Aveiro. É lá no Estádio Mário Duarte que marca o seu 320.º e último golo no campeonato, o 28.º ao Sporting. Um golo à Eusébio. Continua Manuel José com a voz afinada. "Já me tinha cruzado com ele no Benfica em 1968, e é claro que oito anos depois havia diferenças físicas, mas ainda era o Eusébio. Empatámos 1-1 com o Sporting e ele marcou a 30 ou 35 metros da baliza. Ele puxou do pé esquerdo e cá vai disto." Pé esquerdo? Ora essa, e o direito? Espante-se, mais uma vez. Eusébio é ambidestro. Conta Nuno Martins, o primeiro treinador de Eusébio no Sporting de Lourenço Marques. "Os primeiros jogos foram verdadeiramente empolgantes. Ele tocava na bola e levava tudo à frente. Era um fenómeno. Marcava golos, assistia os companheiros, fazia todo o tipo de diagonais. Fomos campeões nacionais em 1960. Ele jogava a interior-esquerdo. Sempre. E sempre com o número 10. Tinha cá um pé esquerdo... Mais habilidoso e potente que o direito. Com o passar do tempo, habituou-se a jogar mais com o direito do que com o esquerdo." E de que maneira.

Recuemos um pouco o fio à meada: 28 golos ao Sporting? É um recorde pessoal? Nada disso, a CUF sofre 30. Só que os 28 ao Sporting demonstra toda a raça de Eusébio nos dérbis. Sem nó nem piedade dos guarda-redes, sobretudo de Damas, com 14 golos sofridos à sua conta – Carvalho "só" tem 11. O currículo é deveras impressionante e ainda nem acrescentámos três bis, um hat-trick e um póquer, no célebre 4-1 em Outubro 1972. Antes, pouco antes, em Junho, no Jamor, Eusébio entrega a Taça de Portugal ao Benfica de mão beijada. É o momento Monty Python na centenária história dos dérbis. Eusébio, com 30 anos de idade e seis operações ao mesmo joelho (o esquerdo), aventura-se com um hat-trick no 3-2 após prolongamento. No relvado, o saudoso jornalista Fialho Gouveia chama-o e ele, o King, lá vem de camisola verde e branca vestida. Atira-lhe Fialho com alguma piada...

--- Tenho comigo o Eusébio. Eusébio, tudo bem?

--- [com um sorriso aberto] Tudo, tudo bem.

--- O Eusébio não fez um dos seus grandes jogos, mas, uma vez mais, esteve em foco. E bem, porque foi o autor do três golos. Impressões do jogo?

--- [com um sorriso mais aberto ainda] Jogámos bem [...] e o terceiro golo acabou com o Sporting. Foi um livre em que eu até disse ao Humberto [Coelho] que ia ser golo porque não podíamos vir cá na terça-feira [eventual finalíssima], o dia em que vamos para o Brasil, para a Minicopa.

Muito bem, 28 golos ao Sporting. E ao Porto? O currículo é admirável, entre 31 jogos e 25 golos, 16 na Luz, oito nas Antas e um no Jamor. Quem é o saco de pancada mais usual? Américo, com 18. Pobre Américo. Diz o guarda-redes de sua justiça. "As pessoas falam muito da potência dos seus remates – e eram fortes, lá isso eram – mas o mais terrível era a disponibilidade dele para atirar à baliza. É que ele rematava de qualquer lado e de qualquer jeito. Se a bola viesse torta, ele fazia por endireitá-la a caminho da baliza. Parte da sua genialidade é disso mesmo. Espontaneidade no remate. Aliado à pontaria, pois claro. De nada vale atirar com força e ao lado ou por cima. O Eusébio era diferente. Quanto atirava, era para a baliza e eu que me entendesse com a bola. Outro pormenor delicioso do Eusébio era a lealdade. Fomos sempre amigos e costumava dizer-lhe que nunca me tinha marcado cara a cara."


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Curiosamente, é nas Antas que se regista a única expulsão de Eusébio na 1.ª divisão. Em 1964, antes da invenção dos cartões amarelo e vermelho. Na altura, o árbitro limita-se a apontar para o balneário. Porfírio da Silva assim o faz, ainda na primeira parte. Eusébio já marcara nessa tarde. Óbvio. "Eusébio manifestou-se em desacordo com uma decisão minha. Coloquei a bola no sítio da falta e recomendei-lha que não mexesse nela. Ele mexeu, não me restou outra alternativa senão a expulsão. Isto já depois de lhe ter feito uma advertência." Há um adepto inconformado, nas bancadas. "Eu vim da Régua para ver o Eusébio e acontece-me isto..." E também há um jogador inconformado. "Já estava 1-1, com um golo meu de livre [6’] e outro do Carlos Baptista [26’], quando o árbitro, o já falecido Porfírio da Silva, me mandou para a rua. Estava a ajeitar a bola para outro livre, na mesma posição do 1-0, e o árbitro disse-me para não mexer na bola, mas eu tinha de a colocar a meu gosto, como sempre fazia. O senhor Coluna [capitão] defendeu–me e disse-lhe que era eu quem marcava os livres e os penáltis. De nada valeu. Ele expulsou-me e saí das Antas com o público a bater palmas e o Otto Glória até me cumprimentou." E depois? "Nada, nem apanhei castigo." Pois não, e até marca ao Sporting na jornada seguinte (3-0).

Senhor Coluna. O respeito é muito bonito e Eusébio faz gala disso mesmo junto do seu amigo de sempre. Na final da Taça dos Campeões 1962, em Amesterdão, o Benfica perde 3-2 ao intervalo com o Real Madrid. Na segunda parte, Coluna empata do meio da rua e há um penálti para desempatar, por falta sobre Eusébio. É o próprio quem se apodera da bola e a coloca na marca. Pelo meio, ouve das boas. O histórico defesa Santamaría, autor da falta, passa pelo avançado e chama-lhe maricón. Eusébio não entende e pergunta ao senhor Coluna o que é. "Olha, marca golo e chama-lhe cabrón". Meu dito, meu feito. A parte do golo, pelo menos. Outra com o senhor Coluna é durante um Benfica-Belenenses, em 1964. 

"Houve um lance, na área do Belém e o Manuel Rodrigues desentendeu-se com o Vicente, ambos do Belenenses, chamando-lhe preto de merda. Eu estava por perto, não gostei e defendi o Vicente, que, como é sabido, é uma pessoa muito calada, introvertida. Aí, o Manuel Rodrigues, que era meu amigo e servia comigo na mesma unidade do Exército, decidiu ofender a minha mãe. Fiquei danado com ele e disse-lhe que no dia seguinte íamos acertar contas, no quartel. Logo a seguir, houve um livre à entrada da área do Belenenses e o Simões e o Torres vieram dizer-me que lhe acertasse com a bola. Só o senhor Coluna é que me pediu para esquecer o assunto. Só que estava demasiado enervado. Pela primeira vez, confesso, não apontei à baliza, mas ao Manuel Rodrigues, que era o primeiro homem da barreira. A bola partiu como um bólide e acertou-lhe em cheio na cara. Caiu imediatamente e ficou a estrebuchar no chão, como fazem as galinhas da minha terra quando lhes cortam o pescoço. 'Ai que matei o homem', pensei eu. Saiu de maca e foi transportado para a Clínica de S. Lucas. Fui lá nessa noite, para saber qual o seu estado e ainda estava inconsciente. Só dois dias depois é que consegui vê-lo. E, acredite, quando lhe tiraram a ligadura da cara, o desenho da bola estava lá marcado..."

Fora esse episódio, Eusébio até costuma socializar-se bem com os adversários. Em Fevereiro 1969, o Benfica calha com o União de Almeirim para a Taça de Portugal. Acaba 8-0 na Luz, com hat-trick de Eusébio. Às tantas, há um penálti. Conta Eusébio, feliz da vida. "Fui batê-lo e o guarda-redes disse-me que o pai dele estava no estádio. Eu então disse-lhe que ia atirar a bola para tal lado e ele foi lá buscá-la. No fim do jogo, tirámos os dois uma fotografia e mais uma com o pai. Esse guarda-redes virou herói por uma semana, com reportagens numa série de jornais." Coisa séria, o de defender um penálti de Eusébio. E o de defender um remate à queima-roupa? Em 1968, na final da Taça dos Campeões entre Benfica e Manchester United em Wembley, o guarda-redes Alex Stepney entra para o Guinness. Só pode. "Foi o último minuto do jogo, havia 1-1. Com um passe magnífico, Simões isolou-me. Fiquei na cara de Stepney e tentei fazê-lo cair, para depois encostar a bola, pela certa, para o fundo da baliza. Mas ele, excelente guarda-redes, ficou em pé e então resolvi rematar com força. Só que o Stepney fez uma excelente defesa e acabei a passar por ele para o cumprimentar." Lá está, o gentleman.

A vida de Eusébio está polvilhada de boas acções. Que o diga David Toscana. Quem? Toscana, um escritor mexicano, nascido e criado em Monterrey. É precisamente nessa cidade que Eusébio joga em 1975, convidado pelo amigo e treinador chileno Fernando Riera, o primeiro a passar pelos então quatro grandes do futebol português (Belenenses, Benfica, Porto e Sporting). A primeira medida de Riera é dar a braçadeira de capitão a Eusébio. Logo que ele que nunca fora capitão do Benfica nem da selecção. A título definitivo, queremos dizer. Nos 10 jogos a capitão, o Monterrey nunca perde e Eusébio marca um golo. Dois, se incluirmos a surpreendente história de Toscana. 

"Quando ele chegou a Monterrey, foi o caos, uma explosão de alegria. Ele já tinha 33 anos mas era o Eusébio, com 'o' maiúsculo. E, uma vez, aconteceu-me isto que marcou a minha vida da forma mais simples e original. Como o próprio Eusébio, um homem simples e original. Senão veja lá: em 1975, eu estava a pedir boleia para ir para o centro quando um carro parou, abriu o vidro e era O Eusébio. Perguntou-me se queria boleia para a cidade, que nada tinha a ver com o centro, e eu disse que sim. Ainda hoje não sei porque disse que sim. Afinal, ele ia para um lado e eu para um outro totalmente oposto mas a figura d'O Eusébio levou-me a entrar no carro. A viagem foi rápida, uns sete/oito minutos, e eu é que falei a maior parte do tempo, de tão deslumbrado que estava com aquela atitude da boleia, a presença dele. Lembro-me de lhe ter perguntado sobre os quatro golos à Coreia do Norte nos quartos-de-final do Mundial-66, que é daquelas coisas que marcam qualquer adepto, mesmo que eu não tivesse assistido a esse festival, e de ele ter respondido que nessa altura se sentia em forma e ajudado por uma equipa fora de série, o que ajudou a transformar uma derrota de 3-0 numa vitória de 5-3. A resposta foi a mais humilde possível, sem alaridos. O seu tom de voz não se alterou um segundo e manteve os olhos na estrada. Lembro-me disso porque... sei lá... estava à espera de uma explicação gestual, efusiva, triunfal. Mas não. Ele disse aquilo, dos quatro golos num jogo do Mundial, com uma tranquilidade impossível de imaginar."

Outro golo inimaginável de Eusébio é na final da NASL, em 1976. Estamos a falar do campeonato mais mediático do mundo, o dos EUA, onde o dólar cativa campeões mundiais do calibre de Pelé, Beckenbauer e Moore. Sem esquecer outros ilustres, como Best e Chinaglia. Todos eles em equipas mediáticas, cujos estádios transbordam de adeptos incondicionais, à media de 50 mil espectadores por jogo. Eusébio é um caso à parte. Nem sequer joga por uma equipa dos EUA, e sim do Canadá. Vetados ao esquecimento geral, pela distância e até pela etnia (Toronto Metros-Croatia), o comentador oficial da televisão Jon Miller é aconselhado pela própria NASL a evitar dizer Metros-Croatia. Só Toronto. Pois bem, o Toronto chega à final com 15 golos de Eusébio e quatro assistências (Pelé é mais generoso: 13-18). No inesperado Superbowl vs Minnesota Kicks, o primeiro golo é de Eusébio, aos 40 minutos e 28 segundos (americanices). Um livre directo à sua maneira. Bola ao ângulo e já está. Uma equipa canadiana nos EUA? Só mesmo com Eusébio.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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