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Portugal na Hungria e o nosso lado lunar
Desporto 5 min. 14.06.2021
Euro2020

Portugal na Hungria e o nosso lado lunar

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Portugal na Hungria e o nosso lado lunar

Foto: AFP
Desporto 5 min. 14.06.2021
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Portugal na Hungria e o nosso lado lunar

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Duas derrotas e uma vitória é o balanço negativo da selecção nacional com anfitriões em fases finais do Euro.

Há qualquer coisa com os laterais franceses. No Mundial-98, um golo do croata Suker cala os franceses nas meias-finais no Stade de France. E quem dá a volta? Zidane, Henry, Trezeguet, Dugarry? Non, non, non et non. É Thuram, autor da reviravolta com dois golos sensacionais, o último deles a deixá-lo numa pose filosófica sentado no relvado. Catorze anos antes, um outro lateral francês faria história no futebol francês. Para mal dos nossos pecados

Ambiente indescritível em Marselha, com 50 mil pessoas a encher o Vélodrome a três horas do início da meia-final do Euro-84. De um lado, a selecção anfitriã liderada por um soberbo Platini, até então autor dos sete golos, todos eles, inclusive dois hat-tricks consecutivos! Do outro, o outsider Portugal com muitos bigodes (Bento, Eurico, Álvaro, Frasco e Chalana). Num jogo escaldante, as coisas não nos começam a correr de feição. Aos 24 minutos, o lateral esquerdo Domergue, quiçá o menos mediático jogador de uma França recheada de artistas, surpreende Bento e abre o marcador na transformação de um livre directo superiormente marcado, quando todos julgavam ser apontado pelo maestro Platini. A reacção lusitana é imediata e o empate chega aos 74 minutos, num extraordinário golpe de cabeça de Jordão, a cruzamento da esquerda de Chalana, com o pé esquerdo. Vamos a prolongamento, então. Neste, o avançado do Sporting reincide e coloca Portugal em vantagem, num remate picado após novo centro de Chalana, este da direita, com o pé direito.

Nené, por pouco, não faz o 3-1 só com o guarda-redes Joel Bats pela frente, e a partir daí Portugal limita-se a defender a vantagem. Penosos os últimos minutos, sem conseguirmos segurar a bola e a defendermos cada vez mais atrás. A cinco minutos do fim, outra vez Domergue (só dois golos internacionais na carreira) a bater Bento numa jogada confusa dentro da área, com Platini a ser derrubado antes do 2-2. No último minuto, é a vez de Platini vestir a pele de herói. O autor moral do golo até é Tigana, que finta três portugueses antes de Platini rodopiar sobre si mesmo e evitar o desempate por grandes penalidades. No final do jogo, Platini não só elogia Bento ("nunca vi um guarda-redes defender tanto") como ainda pede licença aos dirigentes da UEFA para falar com o árbitro Paolo Bergamo e oferece-lhe a camisola. 

"Disse-me que muita gente lhe pedia a camisola como souvenir mas que aquela teria muito gosto em oferecer-ma. As suas palavras tiveram um significado imenso para mim. Ainda hoje tenho essa camisola guardada", conta o árbitro. No lado português, o seleccionador Fernando Cabrita é um romântico incurável. "Estou tão cansado e emocionado. Há anos e anos que não via um jogo assim. No fundo, no fundo, ganhou o futebol. Felicito a França por nunca ter abandonado os seus ideais de jogo ofensivo para chegar à final de Paris com justiça."

Nunca mais Portugal joga com anfitriões até se cruzar com a Suíça em Basileia, no Euro-2008. É a terceira jornada da fase de grupos, Portugal acumula seis pontos resultantes de duas vitórias, Suíça cerca de zero. A diferença é grande, insuperável. Vai daí, Scolari mete os pés pelas mãos e entrega o ouro ao bandido. Que é como quem diz, aos suíços. Primeiro, deixa fugir a informação de que já tem contrato assinado com o Chelsea. Depois, muda mais de metade da equipa. Oito anos antes, nas mesmas circunstâncias do já apurado, Portugal de Humberto faz o mesmo e só mantém a dupla de centrais Fernando Couto-Jorge Costa para despachar a campeã em título Alemanha por claro 3:0, na tal noite do banho de bola de Sérgio Conceição em Roterdão. 

Agora tudo é diferente, porque Portugal nem entra muito em jogo. De fora, figuras indiscutíveis como Deco e Ronaldo. O balanço é terrível, porque a Suíça joga com tudo, orgulho incluído. Empurrada pelos seus adeptos, a equipa da casa solta o grito do Ipiranga aos 71 minutos, num belo pontapé de Hakan Yakin. O mesmo jogador fixa o 2:0 de penálti, a castigar falta de Meira sobre Barnetta, aos 85’. A Suíça sai de cena de peito feito, Portugal desaparece do mapa e é eliminado pela Alemanha no jogo seguinte.

Nada de nada em 2012 e eis-nos em 2016. O percurso é o que se sabe: sofrer, sofrer e sofrer até ao empate final. Na fase de grupos, três em três. A eliminar, despacha-se a Croácia no último suspiro do prolongamento, arruma-se a Polónia nos penáltis e elimina-se Gales em tempo útil, por Ronaldo e Nani. Final, aí vamos nós. Que noite, que magia, que encanto. Portugal é campeão da Europa, graças a um golo de Éder, numa noite em que o capitão Ronaldo é substituído aos 28 minutos, por falta imprevidente de Payet. A anfitriã França carrega très bien e até poderia ter evitado o prolongamento, não fosse Patrício com quatro defesas do outro mundo e ainda o poste, num remate de Gignac em cima dos 90'. De suplente para suplente, Éder tem a palavra. 

Um minuto depois de Guerreiro acertar uma bola na trave, de livre directo, o número 9 português domina, afasta Koscielny e atira com o pé direito, bem de longe. Lloris reage tarde, Portugal celebra até às tantas. Que noite, que magia, que encanto. Islândia, Áustria, Hungria, Croácia, Polónia, Gales e França. Nenhuma derrota em sete jogos, três deles com prolongamento e um dos quais resolvido nos penáltis. Eis o meritório percurso da selecção portuguesa, rumo ao inédito título de campeão europeu. Patrício acaba o Europeu sem sofrer qualquer golo nos últimos 328 minutos. À sua frente, o quarteto só se define a partir dos oitavos-de-final com Cédric e Raphaël nas alas mais Fonte e Pepe no meio. À sua frente, William bem ajudado por Adrien, João Mário e Renato. No ataque, Ronaldo defende mais que nunca e Nani faz de 9. Os suplentes Quaresma e Éder saltam do banco para evitar os penáltis vs Croácia e França. A Europa é nossa. Voltará a ser?

O ponto de partida é hoje, em Budapeste, onde Portugal ganha sempre (3:1 em 1998 + 1:0 em 2009 + 1:0 em 2017). Good vibrations.

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