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Eriksen. O susto, a quase tragédia e a triste normalidade
Desporto 3 min. 12.06.2021
Euro2020

Eriksen. O susto, a quase tragédia e a triste normalidade

Euro2020

Eriksen. O susto, a quase tragédia e a triste normalidade

Foto: AFP
Desporto 3 min. 12.06.2021
Euro2020

Eriksen. O susto, a quase tragédia e a triste normalidade

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
UEFA interrompe Dinamarca vs Finlândia em Copenhaga para prestar assistência ao dinamarquês, cuja recuperação no hospital significa o reatar do jogo 90 minutos depois como se nada fosse.

É uma triste realidade, a normalidade. Em 1985, morrem 39 pessoas entre adeptos da Juventus e do Liverpool antes da final da Taça dos Campeões no Estádio Heysel, em Bruxelas, e a UEFA manda seguir as festividades. Ganha 1:0 a Juventus, com um penálti mentiroso por falta sobre Boniek a dois metros da área e transformado pelo capitão Platini. Em 1996, um adepto do Sporting morre com um very light atravessado no peito, atirado do outro lado do Jamor, por um adepto do Benfica, aquando do momentâneo 1:0 de Mauro Airez. A FPF toma conta da ocorrência e nada de travar o espectáculo. Em 2003, o jogador camaronês Marc Vivien-Foé cai sozinho durante a ½ final vs França, em Lyon. O estado é crítico. Os médicos arrastam-nos para fora de campo e é assistido por 345 minutos. Em vão, Foé morre. O que é que não parou durante esse momento conturbado para qualquer pessoa? O jogo. A bola é para rolar sem parar. A vida continua, apressam-se a dizer os mais agarrados aos lugares comuns. Aliás, só o uso de um lugar comum é mais de meio andado para calar a boca e esperar por um pensamento mais sensível, mais nobre, mais condizente com o momento. Não, a vida não continua. Há momentos em que a vida pára. Tem de parar. Senão é uma triste normalidade, a realidade.

Agora, em 2021, em pleno século XXI, em plena pandemia, quando todos os cuidados são poucos, tudo é feito com pinças, o mesmo erro. É a brutalidade do marketing, da publicidade, do dinheiro, do jogo. Explico: Christian Eriksen, 29 anos de idade, 106 internacionalizações pela Dinamarca, cai inanimado no relvado aos 43 minutos vs Finlândia, em Copenhaga, no terceiro jogo do Euro-2021. O seu toque trapalhão na bola, com o joelho, indicia falta de técnica. Impossível, Eriksen é um tecnicista por natureza, um 10 à antiga. Nunca cometeria esse deslize, a não ser que. A não ser que tenha sofrido uma síncope cardíaca. O fotograma seguinte é arrepiante. Mesmo sem som, é audível o transtorno. Os finlandeses afastam-se automaticamente, os dinamarqueses aproximam-se e formam uma barreira à volta de Eriksen para evitar imagens traumáticas. A cara deles é de sofrimento, dor. Há quem tape os olhos, há quem meta as mãos à cabeça, há de tudo. A morte passa-lhes/nos pela cabeça. É uma ideia, só. E ganha força à medida que os segundos passam, sobretudo quando o corpo de Eriksen recebe assistência médica e o seu corpo chocalha no relvado. É uma imagem poderosa, infelizmente. E agora? Os minutos custam a passar, a sua namorada (e mãe dos seus dois filhos) entra em campo e recebe o conforto do capitão Kjäer mais do guarda-redes Schmeichel.

 Ao fim de um tempo, a equipa da Finlândia sai de cena, rumo aos balneários. Segue-se a equipa de arbitragem. Só a Dinamarca se mantém em campo. A câmara faz zoom aos adeptos e é uma série de caras perdidas, desanimadas. Lágrimas voam, o sentimento é de perda. De repente, a Dinamarca sai de campo. Todos os jogadores à volta de Eriksen, envolto num enorme lençol branco. Vê-se ele com uma mão na cabeça, completamente entubado. Há esperança, finalmente. Ligeiramente mais tarde, já no hospital, Eriksen recupera a consciência. Todos respiram de alívio pelo susto. A tragédia faz resvés campo de ourique. Mesmo. E a UEFA, o que faz? Siga a marinha. Recuperam-se os jogadores, os árbitros e os adeptos. E reata-se o jogo. No pasa nada. Money talks. Business is business (e vice-versa).

 Até ao intervalo, nada demais. Só a substituição de Eriksen. Na segunda parte, a estreante Finlândia faz dois-em-um. Isto é, marca um golo e ainda defende um penálti. Vamos por partes, o 1:0 pertence a Joel Pohjanpalo aos 59’. Mais à frente, aos 74’, Poulsen é carregado na área por Arajuuri. Penálti, sô árbitro. Chamado a bater, Höjbjerg atira e Hradecky defende. A Finlândia segura a vantagem até ao fim e entra a ganhar. Quer dizer, ninguém entra a ganhar naquele fim de tarde em Copenhaga. O susto de Eriksen é já o momento tristemente inesquecível deste Euro.

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