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De pequeno se torce o pepino ou de quantas cores se pinta o céu
Opinião Desporto 10 min. 23.06.2021
Euro2020

De pequeno se torce o pepino ou de quantas cores se pinta o céu

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De pequeno se torce o pepino ou de quantas cores se pinta o céu

Foto: AFP
Opinião Desporto 10 min. 23.06.2021
Euro2020

De pequeno se torce o pepino ou de quantas cores se pinta o céu

José REIS DOS SANTOS
José REIS DOS SANTOS
Quis, no entanto, o destino do sorteio que hoje em Budapeste entrem em campo na Puskás Árena duas equipas rainbow, símbolos do pluralismo e diversidade, de escolhas identitárias pessoais diversas, pois estaremos perante as equipas mais multiculturais deste europeu.

Das coisas interessantes de viver em Budapeste, e especialmente no V distrito, é estar envolvido numa comunidade muito internacional, uma vez que a cidade alberga dos maiores números de estrangeiros a viver em urbes europeias, especialmente dos seus distritos mais centrais. 

Fruto desta amalgama, é muito normal que as bölcsőde, ou seja, os infantários, estejam replectos de casos como o do meu piki: filhas e filhos de mães e pais de nacionalidades diferentes. Também normal é que catraios destas tenras idades tenham os seus melhores amigos, e pequenas grupetas, no caso do meu composto por um húngaro filho de nativos e um franco-húngaro com historial mais complexo devido à linhagem materna, daquelas de exilio magiar, e de pai Marselhês de gema. 

Ora este verdadeiro trio Odemira, com identidades cruzadas à nascença, inseparáveis como os Cinco dos livros que levávamos para a praia, recentemente começou a jogar à bola junto do hotel que alberga a selecção nacional, na ilha Margarida. Eu acompanho o meu, como os restantes pais os deles, o que em ambiente de Euro tem trazido as piadinhas e picanços aos nossos sábados de manhã. 

Para mais, logo no primeiro treino o português marcou sete golos, agarrando-se à bola como um Ronaldo entre United e Madrid, relegando o francês quem sabe para interesses mais ovais, onde são fortíssimos, e o húngaro, inato com a genica magiar, a pensar talvez nas suas outras alternativas desportivas, num país onde quem preenche outdoors são nadadores ou a malta do polo aquático. 

Num outro dia jogo infantil, já no regresso a casa, o marselhês esperto como são esses sudacas, ludibriou o meu puto a entonar com o dele e sem complexos um Allez les Bleus sentido, que o fez com a naturalidade com que gritava Benfica quando no telão da Szábadság Tér via a bola girar pelos jogadores da seleção. Tudo normal, e de incentivar, num miúdo de 3 anos num processo de construção de identidade, mista, sem os filtros e talas que muitos mais tarde procuram colocar.

O jogo mais logo será de noite, sendo esta uma oportunidade de ver o Estádio Puskás em ambiente notívago. Já vi sua a luminária topo de gama, pois saí tarde do nosso primeiro encontro, e tem de facto 'boa pinta' e potencial para nos receber condignamente, em ambiente de gala e glamour. 

Mas as cores que hoje lá gostaria de ver, depois das polémicas dos insultos homofóbicos contra Portugal e racistas contra França (que no estádio me passaram ao lado, admito, talvez porque concentrado nos assuntos futebolísticos), seriam as cores do arco-íris que estes dias tem pintalgado a Allianz Arena, representando a energia e beleza da diversidade individual e a dor e luto das lutas pelas quais as comunidades LGBTI tem passado, e ainda passam em tantas geografias e mentes, infelizmente. 

E isto quando ainda há um par de dias o Parlamento Húngaro aprovou uma lei desancando ainda mais nesta já tão batida comunidade, agora proibindo a exposição de menores de 18 anos a quaisquer materiais ou conteúdos considerados LGBTI friendly, ou seja, menores não poderão ver publicidade da Benetton ou de qualquer estilista que se preze, o "Brokeback Mountain", Blue is the warmest color, ou a série "Glee", por exemplo, uma ação que me recordou o ridículo cancelamento do musical Billy Elliot na Ópera, por receio que este pudesse dar um "mau exemplo" aos jovens nas suas futuras escolhas em relação à sua orientação sexual. 

Estive, aliás, no protesto que assinalou a injustiça desta nova lei, como é natural, que ocorreu no dia antes da nossa estreia no europeu, a rever amigos e amigas e confirmar que mesmo com tanta repressão e animosidade da parte do governo central, a cidade tem conseguido manter tanta gente alinhada com os valores da tolerância, liberdade e pluralidade de escolha(s). É desta cepa que Budapeste é também feita.


Penálti de Zidane após a mão de Abel Xavier no jogo com os gauleses no Euro2000.
Portugal vs França, um final à grande e à húngara
Budapeste é o palco do segundo jogo de sempre entre os campeões mundiais e europeus em título num Euro, após o 3-1 da Holanda à Alemanha em 1992

É esta também a cidade natal de Ferenc Puskás, recordem-se, o herói nacional húngaro que dá nome ao estádio que amanhã nos volta a receber e que no início dos anos 50, maravilhou o mundo do futebol liderando a equipa dourada, assim crismada pela medalha recebida do topo do pódio Olímpico de Helsínquia em 1952. Como os nossos putos que hoje na ilha Margarida correm sem tática, Puskás, Kocsis, Hidegkuti ou Bozsik, todos da capital, de catraios se cruzavam descalços pelas ruas de Budapeste nos anos limpos antes da Guerra. 

Czibor, Bozsik ou Grosics juntaram-se mais tarde, recebidos já na cidade devastada, formando assim a espinha dorsal dos mágicos-magiares que no ano seguinte se deslocaram a Wembley para deixar um 6-3 ainda hoje rememorado nas ruas da capital húngara em murais, bares e memorabilia vária. Os ingleses chamaram-lhe "The Match of the Century", até porque simbolizava a primeira derrota caseira para os inventores do jogo contra um adversário estrangeiro, ou pelo menos continental. Na desforra, no ano seguinte, em Budapeste levariam outro cabaz, 7-1, um conjunto de resultados estranhamente simbólicos para adeptos alfacinhas.

Esta equipa húngara viria a perder a final do Mundial de 1954, 90 minutos conhecidos pelo 'Milagre de Berna' devido ao constante massacre magiar (só bolas nos postes foram 3), jogo sim marcante para criação da identidade de uma nova Alemanha, agora apenas ocidental. Curiosamente, hoje ambas as seleções voltam a encontrar-se oficialmente pela primeira vez desde esse dia, no que será a segunda desforra do dia. 

De regresso a Budapeste, e como demonstra muito bem o musical sobre o Puskás que assisti em Csepel recentemente, os jogadores foram acusados de venderem o jogo aos alemães e de desprestigiarem a Pátria. Já sob vigilância apertada, foram violentamente insultados e fisicamente perseguidos pelo sovietizado regime húngaro, habituado que estava a se aproveitar, manipular e manietar a equipa para os seus fins políticos (se positivos). Como resultado de um mero jogo de futebol, e da sua análise política, vários jogadores foram impedidos de jogar (como Hidegkuti), outros presos e torturados (como Czibor, salvo da carcere da ÁVH, a PIDE local, por intervenção directa de Puskás e Kocsis), despedido o treinador, substituído por alguém da confiança extrema do partido. 

Isto em 1954-55, pouco antes da Revolução Húngara de Outubro de 1956 ter dado a machadada final nesta equipa dourada, acrescentado os pertences e famílias destes jovens miúdos às centenas de milhar de húngaros forçados ao exilio depois da invasão soviética de Budapest (Puskás iria para o Real, Kocsis e Czibor para o Barcelona, por exemplo). Por razões puramente político-ideológicas, de fuga de um regime autoritário, dizimou-se uma geração, que rejeitou aqui viver sob um autoritarismo de Estado, sem liberdades ou qualquer tipo de autonomia individual, da mesma forma que também hoje, sem tanques à porta, centenas de milhar se ausentam por aqui não conseguirem viver as vidas como e com quem desejam, porque um Estado lhes diz que não o podem fazer livremente, sejam pessoas académicas, liberais, LGBT ou apenas quem deseje sentir verdadeiramente os ares da liberdade. As mesmas brisas que os putos e os catraios descalços sentem a jogar à bola.


Conheça as noites de Budapeste
Um roteiro imperdível para se perder nos bares da capital húngara na véspera do jogo de estreia da seleção portuguesa. Ou depois do jogo. Uma crónica de José Reis Santos, um português rendido à cidade de Budapeste.

Quis, no entanto, o destino do sorteio que hoje em Budapeste entrem em campo na Puskás Árena duas equipas rainbow, símbolos do pluralismo e diversidade, de escolhas identitárias pessoais diversas, pois estaremos perante as equipas mais multiculturais deste europeu, com gentes de todas as proveniências sentindo em conjunto as cores das camisolas que colam ao peito ao entrar em campo, junto com os seus outros 10 irmãos. 

Na portuguesa temos quem tenha nascido no continente e ilhas, Brasil, crioulos de várias origens, e até criados no país do nosso oponente, imaginem. Do outro lado igual, desçam duas gerações para encontrarem o perfil e mapa da França colonial e o crioulo a competir com o verlan. O desporto como forma de integração, de identidades múltiplas, umas nascidas, criadas, educadas, outras construídas, adquiridas ou escolhidas. Ou mesmo como potencial simbolismo de progresso, dizia-me um outro amigo francês, ao referir-me que o que sentia mais do episódio de 2016 fora que a bola ao poste do Gignac em cima dos 90 lhe retirara a oportunidade de se tornar em herói instantâneo em terras gaulesas; o que sendo ele de origem cigana, e assim demi-citoyen em terra dos direitos humanos, poderia ter feito avançar determinantemente os direitos e visibilidade da sua etnia, como tentara fazer, décadas e décadas antes em território luso um tal de Quaresma, tio-avô deste que ainda anda a espalhar magia.

Voltamos a falar de identidade quando nos lembramos – a minha geração – do Estebes, e do "Bora lá cambada...", do Jordão nos colocar no sonho de uma primeira grande final, findo pelo génio de um garoto de caracóis de nome Michel Platini, em 84. Ou quando novamente nos fomos sentindo adiados, já em plena geração Ronaldo, quando batemos de chofre com estes de bleu naquela altura do campeonato em que dói mesmo fechar a noite: as meias-finais. 

Para perder aqui, mais vale nem lá chegar. Primeiro no Euro 2000, num penalty dourado de cujo qual ainda hoje negamos existência, depois no Mundial de 2006, novamente em tiro da marca dos 11 metros, ambos convertidos por um outro génio da redondinha, já sem caracóis e com outra matriz identitária, de nome Zinedine Zidane. Andámos nisto até Paris ter mudado o nosso fado, e passámos do quase herói cigano para o guineense Éder, esse que obriga ao reflexo pavloviano de imediatamente indicar, a quem se sinta português, onde e com quem estava ao mero suspiro do seu nome. Isto do nosso lado, pois do deles decerto que falar de 2016 é tabu semelhante a 2004. E sabendo que nos podem colocar fora de competição motivo suficiente para hoje virem com tudo, pois a vingança, desportiva entenda-se, vai se servindo nestas oportunidades.

Mesmo tendo sido terça-feira, a noite de Budapeste esteve bonita. Quente como se querem as noites de junho, e pitoresca como são os ambientes das grandes competições. Espera-nos hoje então um jogo quentinho dentro e fora das quatro linhas, pois parece que afinal a UEFA decidiu identificar como "política" a proposta da Allianz Arena se vestir com as cores da diversidade, interessante escolha para quem se bate – e bem – contra o racismo e xenofobismo. 

Mas como jogamos poucos dias depois do solstício de verão e por nestas latitudes anoitecer tarde, a caminho do estádio iremos apanhar aquele lusco-fusco guarnecido pelo prisma de Newton, e assim acompanhados pelas tonalidades garridas da diversidade colorida do arco-íris de fim de tarde, como hoje se exige antes que o esférico comece a rolar. Assim que, Allez les bleus, Les Roma, Les LGBTI und zie Mannschaft. Hajrá Magyarország para quem a vê e a entende em todas as suas cores. E Viva Portugal! "Bora lá cambada, todos à molhada, que isto é futebol total...". Um pouco como os nossos putos na ilha Margarida, os mesmos miúdos que irão querer continuar a ver a selecção no hotel no próximo sábado e quem sabe apanhar o Renato, o Ronaldo ou o Ruben numa varanda a tirarem notas da peladinha anarco-libertária dos catraios, a trocarem sorrisos e histórias entre eles de quando putos. De pequeno que se torce o pepino, é o ponto. 

Seja para jogar a bola ou para formar o conjunto de valores essenciais que registem como primordiais, em todo o nosso ADN mental, o respeito pelo pluralismo de opinião e pelo leque de liberdades individuais, pela multiculturalidade e diversidade humana e social, e pelos distintos momentos de inflexão construtiva das nossas identidades, cruzadas e inter-seccionadas como todas são por natureza; para que Puskás, ou Czibor, pessoas LGBTI, Roma, ou de qualquer outra comunidade ou grupo discriminado não sejam mais impedido de viver onde e com quem queiram, livremente. Como livres jogam os miúdos descalços pelas vielas e becos, pelas praias e relvados por aí. Hoje vamos todas e todos de arco-íris para o estádio. A ver as cores com que se pinta o céu.

(José Reis Santos)

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