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Eriksen, o herói do Euro itinerante
Desporto 9 min. 18.06.2021
Euro 2022

Eriksen, o herói do Euro itinerante

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Eriksen, o herói do Euro itinerante

AFP
Desporto 9 min. 18.06.2021
Euro 2022

Eriksen, o herói do Euro itinerante

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Eriksen, Eriksen, Eriksen. É o nome mais falado de sábado, dia 12. No domingo, a conversa é outra. A vida não pára, a UEFA também não

E que tal? E que tal recuarmos no tempo só para contextualizar a cena? E, já agora, para recordar o momento mais glorioso de Portugal. Ya, boa ideia. Paris, Stade de France, 10 Julho 2016. Já sem o capitão Ronaldo, lesionado por Payet antes do intervalo, a selecção portuguesa defende o 0:0 com a garra que se lhe reconhece. Patrício está a fazer um dos jogos da sua vida, com defesas memoráveis. Griezmann, neto de um português jogador da bola em Paços de Ferreira, até vai aos arames com a elasticidade do Keeper. 

Aos 78 minutos, a chave da final do Euro. No lado francês, entra Gignac. No português, Éder substitui Renato Sanches. A partir desse momento, o jogo nunca mais vai ser o mesmo. No instante seguinte, Portugal assusta Lloris. O cruzamento de Nani é, afinal, um remate envenenado. O capitão francês dá uma sapatada na bola e Quaresma aproveita para brilhar com um pontapé de bicicleta para outra intervenção aparatosa de Lloris. Em cima dos 90’, o árbitro dá três minutos de descontos. Aguenta coração. Perto do soar do gongo, a bola ronda a baliza portuguesa. De repente, Gignac dá um nó cego em Pepe e atira rasteiro. A bola, caprichosa, bate no poste e continua em campo. Portugal respira de alívio, a França desespera. Acto contínuo, peeep peeep peeeeeeeep. É o final do jogo, vamos para prolongamento.

Na primeira parte, só um remate enquadrado com a baliza e é de Éder à figura de Lloris, após canto de Quaresma. Na segunda parte, há 200 segundos verdadeiramente deliciosos. Aos 107’, Éder mete mão à bola numa jogada confusa perto da área francesa e o árbitro interpreta falta de Koscielny. Até lhe mostra o cartão amarelo e tudo. Na marcação do livre, o lateral-esquerdo Raphaël Guerreiro atira à trave. É agora, é o momento do tudo ou nada. Sente-se. A bola é lançada para o meio-campo e Moutinho recupera-a (com falta sobre Griezmann, pé em riste). João Mário estica o jogo para Éder e o avançado começa a correr para a baliza. Às tantas, despede um remate do além. Lloris estica-se. Em vão. É o 1:0. Está bom assim, não mexe mais.

Pela quarta vez na história entre Mundiais e Europeus, o anfitrião perde uma final. E a língua portuguesa está sempre envolvida. Em 1950, o Brasil sofre com o Uruguai em pleno Maracanã (2:1 de virada). Em 1958, o Brasil vinga-se em cima da Suécia (5:2). Já no século XXI, em 2004, a Grécia silencia a Luz (1:0) e agora isto. O isto é tão-só o golo mais importante da história de Portugal, e marcado por um suplente. Éder é um case-study. Nascido em Bissau, aterra em Portugal aos três anos e os pais entregam-no a uma instituição chamada Lar do Girassol, ali para os lados de Coimbra. Até aos 18, é lá que Éder passa a vida. A partir daí, ganha asas no futebol e faz um percurso pouco comum até chegar aos 23 convocados de Santos. Para começar, uma só internacionalização nos escalões jovens (sub-21). Depois, a falta de golo nos primeiros 17 jogos implica a falta de empatia dos adeptos. No Euro-2016, joga 13 minutos nos dois primeiros jogos, seis vs Islândia mais sete vs Áustria. Desaparece de cena. E só volta a reaparecer na final de Saint-Denis, onde se torna o autor do golo mais importante de sempre da selecção. O um-zero à França é a consagração do avançado do Lille. Sim, ele joga em França. Mon Dieu, ele há coincidências.

Passa-se um ano. Dois. Três. Quatro. Aí vamos nós, Euro-2020. Ups, afinal ainda não é a hora. A pandemia toma conta da actualidade mundial e adia tudo. Portugal segura o título por mais um ano. Ao todo, 1828 dias com o caneco até à final do Euro-2020-que-é-em-2021, no dia 11 Julho, em Wembley. E aí, quem sabe se Portugal não imita a Espanha, a única selecção até agora a reter a taça. Vamos com calma, muita calma. Até porque este Euro é especial. Joga-se em 11 cidades de 11 países. No início do plano, arquitectado pelo então presidente uefeiro Michel Platini, até se contabilizam 13. Só que Bruxelas não acaba o estádio a tempo e Dublin não está para receber adeptos com medo do corona vírus. Onze, como um jogo de futebol. Ele há coincidências (parte ii). 

O arranque é em Roma. A Itália, com 10 vitórias em 10 jogos na fase de qualificação, mantém o ritmo vertiginoso e dá um amasso à pobre Turquia, cujos números mostram uma fragilidade impensável, sobretudo até ao intervalo: zero remates à baliza, zero remates desenquadrados, zero remates bloqueados, zero foras-de-jogo, zero contra-ataques, zero cantos. Zero, bem redondo. A Itália primeiro estranha (0:0 ao intervalo), depois entranha (3:0). O primeiro golo é na própria baliza, da autoria de Demiral. Por incrível que pareça, a Juventus vai anotar outro golo assim, agora pertença do guarda-redes polaco Szczesny num 2:1 a favor da Eslováquia daí a três dias. 

Nesse parêntesis de tempo, o Euro conhece o herói mais heróico dos super-heróis. Pleonasmo atrás de pleonasmo, Eriksen merece. No jogo mais nórdico possível, vs Finlândia, em Copenhaga, o número 10 da Dinamarca cai sozinho perto da linha lateral. O pânico é visível no rosto de todos, sejam jogadores, treinadores, árbitros, adeptos. Há lágrimas a rodos, espera-se o pior. A intervenção médica é eficaz, através de dois velozes socorristas a atravessar o relvado de uma ponta à outra. Quando Eriksen sai de maca, ao fim de uns angustiantes e intermináveis minutos, a incerteza é ilimitada. O homem está no fio da navalha.

No quadradinho seguinte, Eriksen recupera a consciência e já fala por telemóvel. Pede aos companheiros para continuar o jogo. A Finlândia aceita. Baaah, seja como for, o futebol nunca mais será o mesmo. Ninguém é capaz de viver aquele suplício e voltar a jogar como se nada fosse 90 minutos depois. Nem no dia seguinte, quanto mais. Seja feita a vossa vontade (a de Eriksen). As três equipas reentram em campo, os adeptos idem idem. E a bola, aspas aspas? Só para a Finlândia. Completamente de cabeça à banda, a Dinamarca só está ali, a fazer figura de corpo presente. Vai daí, perde 1:0 e até falha um penálti. O remate sai denunciado como quem está ali a fazer um frete.

Nessa noite, a Bélgica atira-se à Rússia sem dó nem piedade. O factor casa em São Petersburgo é um pormenor irrelevante. A Bélgica, 100% vitoriosa na qualificação, como a Itália, ganha 3:0, como a Itália. A figura é Lukaku, o avançado mais eficaz dos últimos cinco anos à conta dos 45 jogos em 43 internacionalizações. Na base deste registo, a entrada do seleccionador Roberto Martínez, um espanhol com jeito para a coisa, coadjuvado pelo francês Thierry Henry. Antes dele, Lukaku marcara 17 em 51 jogos. Dá que pensar. No jogo e na sala de imprensa, Lukaku fala de Eriksen pelos cotovelos. Porque sim, porque sim, outra vez, e porque é seu companheiro no Inter. Juntos, sagram-se campeões italianos.

 Eriksen, Eriksen, Eriksen. É o nome mais falado de sábado, dia 12. No domingo, a conversa é outra. A vida não pára, a UEFA também não. À hora do almoço, 1:0 da Inglaterra vs Croácia em Wembley. Acredite, é a primeira vitória inglesa no jogo de abertura de um Euro em dez participações. Bem lhe disse, acredite. Ao fim de cinco empates e quatro derrotas, o 1:0 de Sturridge é uma boa notícia. Como se isso fosse pouco, Southgate lança o mais jovem de sempre em Europeus. Chama-se Jude Bellingham e é o primeiro menor em acção, graças aos seus imberbes 17 anos e 349 dias (bate o recorde do holandês Jetro Willems, com 18 anos e 71 dias).

 

Passa-se uma horita e cai outro recorde, agora o do titular mais velho de sempre em Europeus. Com 37 anos e 321 dias, Pandev exibe-se com a braçadeira de capitão e o número 10 da estreante Macedónia do Norte. Para comemorar o feito, toma lá um golo. É o momentâneo 1:1. A Áustria é que lhe fura os planos de uma alegria completa e ganha 3:1 com golos dos suplentes Gregoritsch e Arnautovic – uma vez, em 2004, Portugal também faz a dobradinha no banco, com Postiga e Rui Costa vs Inglaterra, na Luz.

 

Passa-se outra hora e eis o jogo do torneio. As duas equipas mais novas oferecem um espectáculo digno de registo em Amesterdão e acumulam cinco golos na segunda parte, algo só visto em 2012 entre a Alemanha de Joachim Löw e a Grécia de Fernando Santos – curiosamente, reencontram-se este sábado em Munique. A Holanda não joga um torneio desde o 3:0 vs Brasil para o apuramento do 3.º e 4.º lugares do Mundial-2014 e abre uma vantagem de dois golos, ambos marcados pela letra W (Wijnaldum e Weghorst). Pois bem, a Ucrânia responde à letra com Y (Yarmolenko e Yaremchuk). Decide um cabeceamento de Dumfries a cinco minutos do fim.

 

À hora desse 3:2, chega Diogo Dalot a Budapeste. De férias? Isso é no Dubai, em Budapeste é para trabalhar no duro. As voltas que a vida dá. O capitão dos sub21 é chamado para o lugar de João Cancelo, afastado à última hora por acusar positivo de covid. Portugal tem um case study com os laterais, chi-ça: em 1986, Bandeirinha substitui Veloso; em 2002, Kenedy vai ao ar: agora é Cancelo. Que saga.

 A Espanha queixa-se do mesmo, por força da ausência do capitão Busquets, e, uma semana depois do 0:0 vs Portugal em Madrid, volta a deixar-se anular, vs Suécia em Sevilha. Disso se aproveita a Eslováquia para dormir em primeiro lugar (o tal 2:1 à Polónia de Paulo Sousa). A vizinha República Checa é também dona da liderança no grupo D, graças ao 2:0 vs Escócia em Glasgow. Isto de jogar em casa nem sempre traz benefícios e Portugal dirá de sua justiça este sábado em Munique, vs Alemanha. Quem faz de Éder?

 

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