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Estreia de Portugal nos Jogos Olímpicos marcada pela tragédia
Desporto 3 min. 27.06.2021
Estocolmo 1912

Estreia de Portugal nos Jogos Olímpicos marcada pela tragédia

 Francisco Lázaro (atleta)
Estocolmo 1912

Estreia de Portugal nos Jogos Olímpicos marcada pela tragédia

Francisco Lázaro (atleta)
Desporto 3 min. 27.06.2021
Estocolmo 1912

Estreia de Portugal nos Jogos Olímpicos marcada pela tragédia

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
O maratonista Francisco Lázaro foi encontrado sem sentidos ao quilómetro 30. Acabaria por morrer num hospital sueco.

Depois de reunido consenso e selado o acordo entre a maioria das colectividades portuguesas e a Sociedade Promotora de Educação Física Nacional, que consideraram de saudável importância para o desporto da nação estar representado numa competição como os Jogos Olímpicos, com o prestígio de novo intacto graças ao sucesso das Olimpíadas de 1908. Londres está para o olimpismo como um volte-face precedido de "facelifting". Estaria a decisão tomada não fosse a velha maldição nacional: a verba para tornar esta adesão uma realidade era escassa e de meios logísticos também não estávamos propriamente abonados. Não seria por isso que a caravela não chegaria a bom porto. Com mais e menos dificuldades, Portugal foi o 13º país a integrar o Comité Olímpico Internacional, ainda presidido pelo inevitável barão de Coubertin. Tal não era possível sem antes se constituir o respectivo Comité Olímpico Português.

Em 1908, ano do regicídio (1 de Fevereiro) que matou o rei D. Carlos I e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, com estes a monarquia, decidiu-se realizar, com a pompa possível e a circunstância adequada, os Jogos Olímpicos de Portugal. Sem dúvida alguma, um evento com uma certa fragrância republicana, para aquilatar o pulso desportivo da nação. O ecletismo, porém, ficava-se pelas provas de atletismo e de ciclismo, sendo que a modalidade nacional em crescendo era o Tiro. Por ironia do destino, fora o rei D. Carlos I o seu grande impulsionador.

Reconstituir a formação do Comité Olímpico Português é como um puzzle sem muitas peças. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) destruiu a maior parte da informação que existia acerca da criação do COP. Este organismo foi criado em Portugal em 1909, cerca de um ano após os Jogos Olímpicos de Londres. A sua génese é um pouco mais antiga e, "noblesse oblige", aristocrata. Em 1906 o barão de Coubertin, por indicação do próprio rei D. Carlos I, já havia nomeado o duque de Lencastre para integrar o Comité Olímpico Internacional. Em 1909 seriam oficialmente nomeados os primeiros dirigentes do COP. Seriam eles José Capelo Franco Frazão - conde de Penha Garcia -, Jaime Mauperrin dos Santos e João José Pontes de Campos, que viria a ser presidente do COP entre 1924 e 1956. Tudo a postos para a primeira presença portuguesa em Jogos Olímpicos: Estocolmo, 1912.

Se as Olimpíadas de Londres tinham sido as mais longas, em Estocolmo a sua duração foi de 24 dias. Estes JO foram verdadeiramente globais. Pela primeira vez se registou a presença de atletas de todos os continentes, 2054 no total, representando 28 países. Lá fomos, cantando e rindo, para Estocolmo, debutante país republicano, com a bandeira vermelha e verde, a desfilar perante uma das mais antigas monarquias do velho Continente. O próprio Gustavo V doou os terrenos do Zoo Real para que ali se construísse a aldeia olímpica onde o luxo não faltou.

Os organizadores suecos afastaram o rugby, mas incluiram o Pentatlo moderno como modalidade, na qual se destacaria um jovem tenente do exército americano, que mais tarde ficaria na História como general Patton. O grande herói destes JO seria outro americano: Jim Thorpe, índio Sioux, que venceu o Pentatlo e o Decatlo. Sua alteza, o rei Gustavo V, adjectivou-o como o "melhor atleta do mundo". Thorpe seria alvo de uma das maiores injustiças olímpicas. Um ano depois, foi desclassificado, alegadamente por antes ter sido jogador profissional de baseball. A verdade só foi reposta longos anos depois, após a sua morte.

Uma das grandes novidades destas Olimpíadas começava pelo fim: o "photo-finish". Coisa que toda a gente achava ser dispensável para a Maratona, na qual participava a grande esperança olímpica nacional: Francisco Lázaro, do Benfica, carpinteiro de profissão. Era dele o melhor tempo dos fundistas presentes. O nosso atleta não estava à espera que o Verão sueco fosse tão abrasador. Ao contrário da maior parte dos maratonistas dispensou o chapéu. E, para proteger-se do sol, resolveu untar o corpo com sebo. Uma decisão que se revelou fatal. A 10 km´s do fim, foi encontrado por elementos da delegação portuguesa, desmaiado e com sintomas de insolação. Lázaro faleceu um dia depois. Regressaria vestida de luto a comitiva portuguesa

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