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Entrevista: “Os imigrantes foram muito importantes no desenvolvimento do futebol no Luxemburgo”
Jean Ketter iniciou-se no futebol aos sete anos. Jogou até aos 13 edepois começou apraticar basquetebol. Hoje, odocente do Liceu Técnic odeEttelbruck é jogador da equipa principal do Laroche tte, mas continu a ajogar futebol com os amigos

Entrevista: “Os imigrantes foram muito importantes no desenvolvimento do futebol no Luxemburgo”

Foto: Chris Karaba
Jean Ketter iniciou-se no futebol aos sete anos. Jogou até aos 13 edepois começou apraticar basquetebol. Hoje, odocente do Liceu Técnic odeEttelbruck é jogador da equipa principal do Laroche tte, mas continu a ajogar futebol com os amigos
Desporto 6 min. 22.02.2017

Entrevista: “Os imigrantes foram muito importantes no desenvolvimento do futebol no Luxemburgo”

Jean Ketter foi recentemente distinguido pela Fundação Robert Krieps com o prémio para a melhor tese de mestrado escrita no Grão-Ducado. O jovem luxemburguês, docente no Liceu Técnico de Ettelbruck, recebeu um prémio pecuniário de 2.500 euros pelo trabalho de investigação “Influência do futebol de rua e de clubes sobre a inclusão e a identificação dos imigrantes”, obra que deverá ser editada em setembro.

Jean Ketter foi recentemente distinguido pela Fundação Robert Krieps com o prémio para a melhor tese de mestrado escrita no Grão-Ducado. O jovem luxemburguês, docente no Liceu Técnico de Ettelbruck, recebeu um prémio pecuniário de 2.500 euros pelo trabalho de investigação “Influência do futebol de rua e de clubes sobre a inclusão e a identificação dos imigrantes”, obra que deverá ser editada em setembro.

Imigração e futebol encaixam-se na perfeição no Luxemburgo. O que o levou a escolher este tema para a sua tese de mestrado?

Escolhi este tema para o meu trabalho porque, em algumas das aulas que tive, o tema da imigração portuguesa no país foi tratado sob vários ângulos. Um deles foi a sua ligação ao futebol. Por isso, rapidamente cheguei à conclusão que os exemplos das várias comunidades residentes no Luxemburgo eram um tema ideal a desenvolver para abordar o fenómeno da imigração e do futebol na sua globalidade. O futebol e o desporto em geral são uma paixão e parte integrante da minha vida. A esta paixão juntei os fenómenos da imigração e integração pelos quais sempre me interessei também.

Quanto tempo levou para escrever a sua tese e como a estruturou?

Levei cerca de um ano e meio a escrever o livro e a estrutura foi relativamente fácil. Comecei pelo início da imigração no século XX, que coincide com a vinda massiva dos italianos para o Grão-Ducado. Depois, tratei a chegada dos portugueses, a partir dos anos 1960, seguindo-se a mais recentemente vinda dos imigrantes originários dos países da ex-Jugoslávia. Por fim, debrucei-me sobre a seleção luxemburguesa de futebol que incluiu jogadores como Manuel Cardoni e outros, cujas origens não eram luxemburguesas, fenómeno que nos últimos anos tem aumentado proporcionalmente às vagas de imigração no país.

O que representa para si a atribuíção deste prémio por parte da Fundação Robert Krieps?

Para mim, ainda é um sonho. Nunca pensei que um dia pudesse ganhar este prémio, que também foi atribuído a um dos meus professores. Foi uma bela recompensa pelo meu trabalho e esforço ao longo de muitos meses. Sinto-me bastante feliz e honrado pela distinção.

Foi jogador de futebol?

Sim, iniciei-me aos sete anos de idade e joguei até cerca dos 13, em Perlé (comuna de Rambrouch). Depois, por influência de alguns amigos, comecei a praticar basquetebol, até hoje. Atualmente jogo na equipa principal de Larochette.

Deixou o futebol para trás?

Não, continuo a gostar muito de futebol. Por vezes, ainda jogo com os amigos e sempre que posso assisto aos jogos das principais competições. É um desporto fascinante.

Qual foi a influência dos imigrantes no desenvolvimento do futebol no Grão-Ducado?

Uma influência enorme. Os imigrantes foram muito importantes no desenvolvimento do futebol no Luxemburgo. Na criação de clubes, do jogo em si e também na integração na sociedade. O futebol sempre foi um desporto de rua, com os miúdos a jogar juntos horas a fio. Esse futebol de rua teve também um papel fundamental na integração dos imigrantes na vida social do país. Por exemplo, nas últimas décadas, o ’boom’ do futebol feminino no país deve-se em grande parte às jogadoras portuguesas que impulsionaram de forma significativa a modalidade.

Durante três décadas existiu um campeonato de futebol português (FAPL) paralelo ao luxemburguês. A FLF sempre negou a adesão aos clubes portugueses. Como analisa essa exclusão por parte dos responsáveis do futebol luxemburguês?

Penso que o medo da concorrência foi a principal razão. Várias outras razões foram também alegadas, mas o medo do protagonismo que as equipas portuguesas pudessem vir a ter no campeonato luxemburguês foi a razão principal que impediu a integração dos clubes portugueses nos campeonatos da Federação Luxemburguesa de Futebol (FLF).

Depois aconteceram as fusões entre clubes portugueses e luxemburgueses como o CeBra e o RM Hamm Benfica, por exemplo. Acha que foi a melhor solução para o problema?

É difícil responder, mas é indesmentível que os portugueses tornaram esses clubes mais fortes e competitivos. As fusões funcionaram também como uma medida de integração, mas é difícil dizer se foi a melhor forma.

A comunidade portuguesa é bastante significativa no país, com jogadores em praticamente todas as equipas e faixas etárias das várias seleções. Como encara este facto?

É uma representação da sociedade atual. É o espelho do desenvolvimento e crescimento da comunidade portuguesa na sociedade luxemburguesa, na qual começa a ter cada vez maior relevância e protagonismo. Existe um paralelismo entre a vida social, os clubes de futebol e a própria seleção nacional. O Luxemburgo não seria o mesmo sem os portugueses e os outros imigrantes. Eles foram fundamentais para o desenvolvimento do país. É um facto indesmentível.

Mas ainda há muita gente que discorda dessa opinião...

São pessoas que não conhecem a realidade da sociedade no país. O desenvolvimento e a evolução económica do país devem-se de forma inequívoca ao trabalho das várias gerações de imigrantes ao longo das últimas décadas.

De que forma aborda no seu livro o aspeto da integração dos imigrantes no país através do futebol?

Através de vários pontos de vista que provam que o futebol pode influenciar a inclusão, mas também a exclusão dos imigrantes na sociedade. Como, por exemplo, quando foi negada a participação de clubes portugueses nos campeonatos luxemburgueses. No que respeita à integração dos imigrantes e a sua identificação, os clubes de futebol têm tido um papel bastante importante no estreitamento de laços entre pessoas originárias de vários países devido às amizades que se criam e na aprendizagem na língua luxemburguesa, sobretudo para os mais jovens, embora a linguagem do futebol seja universal.

Falou também da influência dos imigrantes da ex-Jugoslávia e da sua relação com o futebol no Luxemburgo...

O futebol assume um papel extremamente importante para a comunidade orginária desses países. Acredito que para a esmagadora maioria deles o futebol foi o principal fator de integração no país, principalmente na região de Wiltz, no norte do país.

Disse que tratou também as múltiplas origens dos jogadores que integram a seleção de futebol luxemburguesa. Porque razão quis abordar essa temática?

Tive sempre um grande interesse sobre a origem de alguns jogadores que representam a seleção luxemburguesa de futebol. Hoje, constata-se que não só que a equipa A, mas as seleções das várias faixas etárias integram também muitos jogadores oriundos de outras nacionalidades, o que prova de forma bem evidente que o futebol é um fator poderoso de integração.

Hoje, muitos dos jovens nascidos no Luxemburgo mostram um real interesse em representar o país, apesar das suas raízes culturais. E o resultado é que todos ficam a ganhar.

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