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Entrevista a Fernando Santos: “Um emigrante vive Portugal de modo mais intenso”
Fernando Santos em entrevista ao Contacto.

Entrevista a Fernando Santos: “Um emigrante vive Portugal de modo mais intenso”

Foto: Maria Conceição Pires
Fernando Santos em entrevista ao Contacto.
Desporto 23 min. 24.01.2018

Entrevista a Fernando Santos: “Um emigrante vive Portugal de modo mais intenso”

Fernando Santos recorda a felicidade após ser campeão europeu, mas fala também dos seus tempos de emigrante e de como o país é vivido nessa condição. Elogia Marcelo, o Papa, Ronaldo e muitos portugueses espalhados pelo mundo. Quanto ao Mundial, mantém o discurso cauteloso e rejeita menosprezar Espanha, Marrocos e Irão, adversários iniciais na fase de grupos.

Fernando Santos recorda a felicidade após ser campeão europeu, mas fala também dos seus tempos de emigrante e de como o país é vivido nessa condição. Elogia Marcelo, o Papa, Ronaldo e muitos portugueses espalhados pelo mundo. Quanto ao Mundial, mantém o discurso cauteloso e rejeita menosprezar Espanha, Marrocos e Irão, adversários iniciais na fase de grupos.

Pouco mais de ano e meio depois do histórico título europeu em França, quais são as imagens que guarda desse acontecimento?

Imagens de felicidade, as principais de 10 e 11 de julho: primeiro, em Saint-Denis, logo depois do jogo, obviamente, uma imagem que ficará para sempre – acho que, quando estiver lá em cima, ainda vou rever as imagens; depois a gratidão, não sei se a palavra certa é esta, mas gratidão também, na forma como fomos recebidos pelo povo português com alegria e entusiasmo por esse momento histórico, não só para o desporto, mas para Portugal. Essas são as recordações que guardo, claramente.

Considera que passou a ser olhado de outra forma, até pelos seus companheiros de profissão?

Em termos pessoais, não. No plano profissional, vencer um Campeonato da Europa marca sempre, os títulos, nesta profissão, marcam sempre e o reconhecimento é maior. Se nunca tivesse participado a este nível, seja na Liga dos Campeões, nos Europeus e Mundiais, a visibilidade seria diferente. Tendo eu trabalhado a esse nível e, principalmente, nos quatro anos como selecionador da Grécia, ao participar na fase final do Europeu e do Mundial, em que a visibilidade é total e abrangente, não se confina a uma região, obviamente passo a ser mais conhecido. Lembro-me de – e nem sou muito dado a estas coisas –, ao ser apresentado no AEK, quando cheguei à Grécia pela primeira vez, em 2001, quem estava a fazer a apresentação disse que eu era o oitavo treinador daquele ranking de estatísticas da IFFHS. Nem eu sabia que fazia parte daquele ranking, mas eles sabiam, porque o mundo de hoje permite isso. Basta ir à Net e descobrem quem és. Se a pergunta for acerca de a visibilidade ser maior, obviamente que é: Portugal é campeão da Europa e o treinador era Fernando Santos!

Como foi a experiência de ganhar o título europeu num espaço tão preenchido por emigrantes portugueses?

É uma experiência rica também, não é? Foi muito rica por terem sido muitos dias e essa experiência tu sentes quando te deslocas com a seleção a qualquer ponto do mundo, pois há inúmeros portugueses com as suas manifestações. Já jogámos em locais com comunidades portuguesas muito vincadas e fortes, como é o caso do Luxemburgo, onde estivemos há cerca de dois anos, por exemplo. Em Marcoussis foi diferente, pois França tem uma marca portuguesa muito clara e depois porque estivemos lá 50 dias e foram 50 dias em crescendo. Lembro-me das primeiras visitas a Marcoussis com os meus adjuntos e funcionários da Federação e a experiência foi de falar com três ou quatro portugueses, porque trabalhavam ali. Quando chegámos, mais tarde, começámos a sentir a presença física dos portugueses e isto foi em crescendo. Costumo contar esta história: quando lá fui da primeira vez, uma senhora das que lá trabalhavam disse-me que viviam ali poucos portugueses, seriam talvez meia dúzia deles; ao princípio pensei que não estava a dizer-me a verdade, mas na realidade, quando voltei, disse que estava a ser muito injusto, porque só vira duas bandeiras portuguesas nas casas daquela vila. Quando de lá saímos, creio que 80% das casas eram portuguesas! Isto é muito marcante. Passas a ter três ou quatro mil pessoas a cantar o hino nacional sistematicamente à porta de um estádio e claro que isto tem um peso muito grande.

Foto: Maria Conceição Pires

Para quem, como o próprio Fernando, foi também emigrante...

De luxo, de luxo...

...com estatuto especial, digamos assim: que características identifica nesse tipo de vida no estrangeiro? Como é vivido o país?

De um modo mais intenso, é evidente. Quando estás fora, saíste daquilo que é o teu habitat natural, deixas para trás a tua família, os teus amigos, a tua casa, sei lá, toda uma infância. Seja a partida mais cedo ou mais tarde, tens sempre esse peso. Um emigrante vive Portugal de um modo mais intenso. Eu era um emigrante de luxo, obviamente, e já saí do país com quase 50 anos, mas, de qualquer maneira, os primeiros meses foram difíceis: pela língua, num país onde a comunicação era muito difícil; pela cultura; e porque há muitos aspetos em que te sentes um pouco só. Depois, é uma questão de adaptação e o português tem essa característica de se adaptar com relativa facilidade, uns mais, outros menos, ao meio onde se insere. Felizmente hoje a emigração não é a dos anos 50 ou 60 e há uma coisa que registo sempre com muito agrado pelo mundo que tenho percorrido: encontrar portugueses muito bem colocados, gente capaz, de grande qualidade, reconhecida e muito qualificada. Isso é uma marca importante.

O que guardou das várias passagens pela Grécia?

São 11 anos, muito tempo, sobretudo a última, que durou sete anos consecutivos. Acabou por ficar a marca que me levou a perceber aquilo que antes, num julgamento mais supérfluo, tinha dificuldade em entender: os casos de emigrantes que partiam e não pensavam voltar à sua terra, isso fazia-me alguma confusão. Depois percebi que a adaptação vai-se fazendo e começamos a sentir o país que nos recebeu um pouco como nosso. Por isso digo muitas vezes: este é o meu país, mas posso dizer, com toda a propriedade, que a Grécia também é um pouco minha.

E, por ter acompanhado de perto a situação na altura da crise económico-financeira, como analisa aquilo que foi e ainda é um pouco a situação da Grécia?

Isso foi um momento de crise mundial, sentiu-se foi com marca mais forte e potente em países como a Grécia e Portugal. Tive, aliás, oportunidade de falar muitas vezes sobre isso. Quando já estás muito integrado e o país é um pouco como teu, as pessoas que lá estão são um pouco como tuas também. Não sentia a questão na totalidade porque não tinha lá a minha família, mas, quando começas a ver que os teus amigos deixaram de ter a vida que tinham, é óbvio que sentes um pouco as dores como se fossem tuas. Mas a Grécia é um país culturalmente diferente do nosso e, por isso, a sua recuperação foi mais difícil, embora agora, espero eu, esteja no caminho certo. No fundo, um pouco ao contrário de Portugal que logo absorveu e resolveu o problema, como está demonstrado. Eles são um povo mais informal, nós somos mais pessimistas e tudo nos marca de modo muito intenso; os gregos sentiam, mas nunca abdicaram da vida social, enquanto nós nos fechámos mais em casa.

Surpreende-o que Portugal tenha conseguido a recuperação?

Não, Portugal já fez isso noutras ocasiões. Tem uma História fantástica, é um dos países mais antigos da Europa e já passou por muitas crises, teríamos de recuar até 1143 para enumerar todas as crises que houve pelo caminho. Mas o país foi sempre ultrapassando e dando a volta a essas crises, pelo que esperava que o povo português fosse encontrar solução para superar também esta última. Agora as coisas estão no bom caminho e espero que não voltemos para trás outra vez.

Nesse sentido, como tem acompanhado o desempenho do Governo?

Não vou por campos políticos. Tenho as minhas opiniões, como é óbvio, mas não faço esse tipo de análise.

Foto: Maria Conceição Pires

Nem em relação ao Presidente da República?

O Presidente é uma pessoa de quem gosto no plano pessoal, sempre gostei e penso que o desempenho está à vista de toda a gente. É uma pessoa que considero muito e creio que está a fazer um bom trabalho.

Há pouco falávamos sobre portugueses em funções relevantes. O que representa a presença de António Guterres como secretário-geral da ONU e a de Mário Centeno como presidente do Eurogrupo?

É muito bom, tem pontos de contacto com o facto de Portugal ser campeão da Europa e a visibilidade que daí resulta para o próprio país. Esse é o reconhecimento – quando o mundo olha e vê um português como secretário-geral da ONU ou na presidência do Eurogrupo ou, ainda, que há outros portugueses em vias de exercer cargos importantes e com interferência na vida das pessoas, isso é o reconhecimento da capacidade e do valor dos portugueses. Isso é muito bom, devemos todos orgulhar-nos disso no sentido deste reconhecimento, porque olham para ti, para Portugal e para os portugueses não como o faziam há muitos anos quando pensavam que éramos uma província de Espanha. Agora muitos mais já sabem que não é isso que somos...

Trump, Putin ou Kim Jong-un deixam-no preocupado?

Aqui estou na qualidade de treinador de futebol... Os meus princípios são cristãos e tudo o que vá além da paz, da solidariedade, da boa relação entre os povos, de menos diferenças entre as pessoas, tudo o que puser em causa os meus princípios enquanto cristão e homem, deixa-me preocupado. Mas foram referidos três nomes e isto não diz respeito a todos ao mesmo tempo, nem serão todos avaliados da mesma forma. Esta análise não tem a ver com qualquer dessas entidades, mas sim de uma forma global, porque para alguns deles não sei se será assim.

Vê falta de solidariedade na União Europeia?

É um espaço difícil. Teria de estar por dentro do assunto na totalidade, porque é uma análise sempre feita com os nossos olhos, que podem não ser claros em relação a tudo. Penso que, há alguns anos, houve um momento em que isso era mais notório... Não sei se era falta de solidariedade ou de compreensão, se era um problema de solidariedade com os outros ou daquilo que é cada um dos países no plano cultural. E isto é uma análise subjetiva no sentido em que, visto por um ângulo, diz-se que é falta de solidariedade, visto por outro haverá quem diga que não é. Penso, isso sim, é que, há sete ou oito anos, houve e a União Europeia continua a ter esta dificuldade de perceber que aqueles que a integram não são todos iguais e repetidos nas suas características culturais, tal como sucede no futebol ou em qualquer outra área da vida.

Se os meus princípios são os da solidariedade e de amor ao próximo, não posso estar mais em desacordo [com o modo como têm sido tratados os refugiados].

A pergunta tem também a ver com a forma como estão a ser tratados os refugiados e com a maior crise desde a II Guerra Mundial...

Em relação a isso não tenho qualquer dúvida. Ora, se os meus princípios são os da solidariedade e de amor ao próximo, isso responde ao que penso sobre essa questão dos refugiados. Não posso estar mais em desacordo, porque vai frontalmente contra aquilo em que acredito!

Falando sobre os seus princípios cristãos, como analisa a intervenção do Papa Francisco?

Penso que tem sido fundamental. Cada Papa, à sua maneira, tem sempre um papel fulcral no mundo, isso é indiscutível. O Papa Francisco, à semelhança de outros, como João Paulo II, e estou a falar apenas dos mais recentes, tem um papel importante naquilo que é o respeito pelos outros. No fundo, conduzem a Igreja e aqueles que são católicos, apostólicos, romanos, mas com grande respeito por aqueles que, tendo outra convicção religiosa, são pessoas como nós – todos filhos do mesmo Deus, conforme pensa 90% do mundo, uma vez que as três grandes religiões são monoteístas e acreditam num único Deus que é o Criador. O Papado Francisco mantém as convicções daquilo que é a moral da fé, mas com enorme abertura de respeito pelo que pensam os outros. E age com grande proximidade, não estando presente só para uns, mas para todos, servindo a Deus através do próximo.

Foto: Maria Conceição Pires

Quais foram os momentos mais significativos da qualificação para o Mundial?

O mais significativo foi a vitória com a Suíça aqui, porque essa deu a qualificação! Mas, a partir do momento em que Portugal perde na Suíça, todos os momentos passam a ser decisivos e depois é difícil dizer qual, porque se pensa que é o jogo logo a seguir, mas foi com Andorra e era algo relativamente “pacífico”. Tínhamos o jogo com as Ilhas Faroé, muito importante porque, não sendo uma questão de quem é melhor, naquele momento estavam à frente de Portugal, jogavam em casa, numa fase de grande euforia e num campo sintético, podia ser complicado. A partir daí, com a Suíça a ganhar sempre, incluindo na Hungria, outro momento importante nesta fase de apuramento, ficou claro para nós que seria difícil cederem pontos, portanto, todos os jogos passaram a ser decisivos. E o de Andorra acabou por ser, se calhar, o mais complicado: porque estamos na reta final, perto do jogo com a Suíça, um campo muito difícil, uma equipa que, em casa, complicava a vida aos adversários – e antes de nós ninguém lá ganhara por mais de um golo de diferença, Portugal venceu por dois – e teve características esquisitas. Em resumo: a dupla jornada final foi decisiva.

Como é que se mantém um grupo que não é um clube, mas uma seleção, ou seja, não está sempre junto, tão concentrado ao longo de uma fase de apuramento?

Mantendo o prazer deles por estarem aqui, essa é a questão central. Claro que há diferença entre o trabalho contínuo no clube e na equipa nacional, os jogadores nos clubes pensam de acordo com os respetivos objetivos e isso desfoca-os da seleção. É preciso que, dentro disso, haja um foco que é o prazer de estar neste grupo. E isso, fruto do trabalho deles, com a nossa participação, conseguimos e vamos conseguir até ao fim. Há um momento que me marcou muito: quando foi a gala da Federação, os jogadores estavam há algum tempo sem vir e, por vezes, em situações deste género, nem sempre estamos muito à vontade, podia haver quem chegasse mesmo em cima da hora. E para mim foi um enorme prazer ver que, uma hora antes, toda a gente já estava no hotel. Isto é um sinal inequívoco de que tu tens um prazer enorme por estar neste grupo.

Espanha, Marrocos e Irão: que desafios representam para Portugal na fase final do Mundial?

Enormes desafios. Quem vê de fora vai olhar para o ranking e o ranking tem isso – umas vezes não serve, outras vale para tudo. Neste apuramento, o nosso era o único grupo que tinha três equipas que, na altura do sorteio, faziam parte do top 10: Portugal, Suíça e Hungria. Mas isso foi logo desvalorizado, porque não contava, era o nome que contava... Quando é ao contrário e o ranking é mais baixo já conta, porque vai ser fácil. E esta é uma análise que ao treinador não pode valer. Sei é que vamos defrontar uma fase de grupos difícil. Quanto à Espanha, toda a gente conhece a valia dos seus jogadores, mas não podemos esquecer os outros. Basta ver os jogadores e ver onde já jogam, não é como há umas décadas quando estavam nos campeonatos dos seus países. E mesmo há mais de 30 anos, no México, com jogadores como Aziz Bouderbala ou Krimau, foi muito complicado para nós. Muitos dos marroquinos jogam em grandes equipas europeias como Benatia na Juventus. Além disso, teve um grupo com seleções da qualidade de Costa do Marfim (presença constante nas fases finais de Mundiais), Gabão (que tem Aubameyang, um dos melhores avançados da atualidade, além de outros jogadores de qualidade) e Mali. Marrocos ganhou o grupo sem qualquer golo sofrido: 11-0. O treinador, Hervé Renard, está há muitos anos a orientar equipas em África, conhece bem a mentalidade, é uma seleção a ter muito em conta.

E o Irão?

O Irão tem um treinador muito experiente, muitas vezes presente em fases finais, mas a própria equipa é perigosa, até porque já esteve no último Mundial e, até à última jornada, discutiu o apuramento. Recordo que, quando chegámos ao Europeu, falavam dos islandeses como se não fossem ninguém, eu deixava alertas e estão lá outra vez, ganharam o grupo deles e agora, se calhar, são respeitados em todo o lado. O Irão, num grupo muito forte, fez só isto: em dez jogos não perdeu um e só sofreu dois golos, no último jogo, com a Síria, quando já estava tudo decidido. Quem conhece o Carlos sabe que arma muito bem as equipas e o Irão, sem ter conquistado um grande título, é uma equipa difícil.

Foto: Maria Conceição Pires

E a jornada de abertura tem logo um Portugal-Espanha...

Pode marcar o grupo porque os favoritos, em teoria, defrontam-se e isso pode ser marcante. Mas a cada equipa compete preparar-se o melhor possível, vamos fazer isso para ter um conhecimento aprofundado dos nossos adversários, estaremos conscientes do que temos de fazer e a melhorar aquilo que são os nossos processos.

O estatuto de campeão europeu dá responsabilidade acrescida?

Não, os estatutos não existem, não me dou muito bem com essa coisa dos estatutos. Ninguém ganha com e por estatuto – ganha-se em campo, sendo melhores do que os adversários e correndo tanto como eles. O mais importante é esquecer o estatuto, é conseguirmos colocar-nos ao nível deles em tudo aquilo que é o trabalho. O estatuto o que faz é que menosprezamos o adversário e pensamos que a qualidade, por si só, pode ganhar o jogo. E não ganha. É preciso equilibrar a balança em todos os outros níveis: concentração, estratégia, organização. Depois, então sim, podemos fazer prevalecer aquilo que é a nossa mais-valia.

Tem dito que não é fácil ganhar a Portugal e, nesse sentido, a equipa é candidata a bons desempenhos. Não espera outra coisa no Mundial?

É evidente, senão não ia e ficava cá...

Portugal é candidato ao título?

A seleção é aquilo que se afirmou já no Campeonato da Europa, as circunstâncias não mudaram, continuo a dizer o que afirmei há três anos: Portugal, ao contrário de outras equipas, não é favorito. Nas casas de apostas, essas equipas vão ter prevalência. Depois, há um conjunto de equipas, entre as quais está Portugal, que têm o desejo natural e a ambição de lutar pela vitória. Para mim é inequívoco que Portugal é candidato a lutar pela vitória e é nessa condição que vou à Rússia. Agora, não sou favorito, nem podem pôr essa responsabilidade em cima da equipa nacional, porque isso não é verdade. Haverá exigências colocadas à equipa nacional? Muito bem, isso é normal.

Cristiano Ronaldo, por aquilo que fez, faz e vai continuar a fazer, desde os 18 anos, só pode ser o melhor do mundo!

Somos todos privilegiados por assistir, nos últimos dez anos, àquilo que têm feito Ronaldo e Messi – pela primeira vez na história do futebol, dois jogadores repartiram a Bola de Ouro por cinco vezes cada nesse período...

Daí a dúvida que se coloca, embora para mim não haja qualquer dúvida... Já o disse muitas vezes: Cristiano Ronaldo, por aquilo que fez, faz e vai continuar a fazer, desde os 18 anos, ou seja, em 14 anos seguidos, só pode ser o melhor do mundo!

Que importância tem Ronaldo, não só pelo jogador que é, mas também enquanto capitão da seleção?

Tem uma importância fundamental. Todos são importantes, mas relativizar a importância dele seria algo ridículo. Sempre teve influência fundamental na seleção e foi refinando isso ao longo do tempo, ou seja, há uma primeira fase em que a influência era mais pelo que produz em campo; depois junta a isso aquilo que é a sua relevância em termos do grupo. Agora é mais maduro, tem uma compreensão diferente, um sentimento fortíssimo e uma enorme paixão pela equipa nacional e pelo país. Por outro lado, aqueles que hoje jogam na equipa nacional tiveram-no como ídolo e ele tem mantido, em termos de grupo e de liderança como capitão, uma atitude fantástica. Mostrou isso, mais uma vez, em Marcoussis e em todo o Europeu e sempre com uma humildade que pouca gente lhe consegue reconhecer. Ainda agora, quando recebeu a Bola de Ouro, reforçou-o várias vezes ao dizer que quem manda não é ele, ele procura cumprir aquilo que quem dirige, ou seja, o treinador, pretende que faça. Ele disse isto várias vezes e não vi reproduzido em lado algum. Cristiano tem essa capacidade de saber que é muito importante, mas acima dele há quem dirija, algo que respeita muito.

Também treinou Quaresma no Sporting, embora durante menos tempo: como o reencontrou na seleção?

No Sporting só estive com ele uma semana, enquanto a Cristiano ainda orientei durante um mês. Conhecia-o menos bem, mas em cada jogador há um homem com características próprias. Quaresma tem sido um grande exemplo do que é o sentimento de grupo desta seleção e em que todos que aqui vêm se sentem parte importante da equipa. Não se é mais importante porque se joga de início, mas por estar na seleção e servir o país. E o Ricardo, nesse sentido, tem sido um verdadeiro gigante.

Foto: Maria Conceição Pires

Quais são as maiores dificuldades que a seleção enfrenta nos próximos tempos, por exemplo, no que diz respeito à escassez de soluções para centrais?

Faz parte do futebol, compete a quem dirige, de um modo muito abrangente, começando pelos clubes e pela sua formação, cuidar disso. O que sentimos na seleção é um reflexo e basta ver as principais equipas portuguesas para perceber que, nesses lugares, por norma estão jogadores estrangeiros. Mas há uns anos falava-se na crise dos médios ou na de guarda-redes, agora é na dos centrais, isto são ciclos. Compete à Federação aproveitar o trabalho dos clubes e potenciar na formação esse trabalho para haver menos problemas na seleção nacional.

Em entrevista ao Expresso, Carlos Queiroz lembrou os tempos em que treinaram juntos no Estoril: recorda-se disso?

Muito bem. O treinador era Mário Wilson, o Carlos estava na equipa técnica e conhecemo-nos desde 1984, somos amigos. De tal forma que, antes das conquistas de 1989 e 1991 com os Sub-20, as últimas equipas que as seleções do Carlos defrontaram defrontaram eram as minhas. Em 83/84, Mário Wilson chegou a meio da época com o Carlos e eu já trabalhava no hotel Palácio, nem sempre podia treinar com o grupo. Chegámos a fazer viagens de comboio para o norte, porque ele era professor na Faculdade e não pudemos seguir logo com a equipa de manhã e isso foi criando uma ligação forte. Sempre gostei muito de futebol e de falar sobre isso, ele também é um apaixonado, ainda por cima vinha da área da Motricidade Humana e claro que criámos vínculos muito interessantes que se têm mantido. Lembro-me bem desses tempos e, em particular, de uma viagem em que íamos jogar a Vila do Conde e fomos o caminho todo a falar de futebol e a trocar ideias.

Como vê o crescimento do futebol feminino em Portugal?

Fico muito contente e tivemos a notícia de que mais um grande clube português [ndr: Benfica] vai apresentar uma equipa. Sigo a seleção há muito tempo, a primeira vez ainda estava na Grécia, e fiquei muito orgulhoso daquilo que vi no último jogo pela evolução da equipa, porque Portugal bateu-se de forma clara com a Itália, sofrendo uma derrota muito injusta. Houve uma aposta enorme da Federação, além de tudo o que é feito nos clubes, e penso que vai dar frutos.

O que lhe deu a sua formação como engenheiro?

Deu-me muito em termos de aprendizagem, mas, mais do que a minha formação, o que me ajudou muito na minha atividade e liderança de hoje, foram os anos em que trabalhei nos hotéis, em especial os primeiros no hotel Palácio. Tinha apenas 25 anos quando me tornei diretor de serviços e mais de 40 homens a trabalhar. Conhecia a parte técnica, mas nada sabia sobre liderança. Todo esse tempo naquele e nos outros hotéis onde trabalhei ajudou muito a criar a minha própria convicção de liderança que vou alterando ao longo do tempo. Não acredito que alguém atinja alguma vez a perfeição, mesmo em termos de liderança. Quando entrei na seleção da Grécia, a minha forma de liderar era ainda a que usava nos clubes e, ao fim do primeiro estágio, olhei para os meus homens e disse que não podia continuar assim porque não funcionava.

Foto: Maria Conceição Pires

Quais são os principais aspetos de uma liderança?

Nunca tive normas específicas sobre isso ou algum Excel. Já me perguntaram se tinha algum mentor ou se seguia alguém – se sigo alguém é Cristo, mas no futebol tem de ser diferente, porque, num jogo, se me marcarem um golo eu tenho de responder com outro ao adversário [risos]. A liderança é sempre exercida de acordo com o nosso contexto e, num grupo de trabalho, é muito importante separar as questões pessoal e profissional. É preciso passar aquilo que quero que a equipa faça, mas sem perder de vista, antes pelo contrário, que ali estão pessoas e devem ser bem tratadas. É preciso fazer entender os jogadores que, deste lado, está alguém que é como eles, mas tem a função de dirigir. Depois, está aqui também alguém que pode ajudá-los, já não como líder e sim como uma espécie de amigo mais velho.

A pior coisa que lhe pode acontecer é perder?

Em termos profissionais, sim; mas, na vida, há coisas muito mais importantes do que perder ou ganhar. O futebol não tem vida ou morte.

Tem contrato até 2020: já pensou no que vai fazer depois disso?

Isso não sei, nem sei o que vou fazer daqui a pouco... Bem, daqui a pouco vou almoçar, mas se me perguntarem amanhã já não sei o que vou fazer [risos]. Já não tenho idade para dizer que vou ou quero fazer isto. Há muito tempo, no princípio da minha passagem de treinador de clube para seleção, nos primeiros cinco ou seis meses na Grécia, respondi que queria voltar a um clube. Vou com quase oito anos como selecionador, essas afirmações já não fariam sentido. O que acontecer vai acontecer. E Deus lá saberá.

Paulo Jorge Pereira

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