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E se não ganharmos que se f***
Opinião Desporto 2 min. 24.11.2022
A fava

E se não ganharmos que se f***

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E se não ganharmos que se f***

Foto: Alex Pantling/EPA
Opinião Desporto 2 min. 24.11.2022
A fava

E se não ganharmos que se f***

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Bem vistas as coisas, são os gestos de coragem que tornam os homens em deuses. Nunca a prudência criou um herói. Nem o recato.

Sete quilómetros separam em linha reta a casa onde Ronaldo cresceu, no bairro de Santo António, o mais pobre do Funchal, do Largo da Achada, na Camacha. Foi ali que se disputou o primeiro jogo de futebol em Portugal. Aconteceu em 1875, 110 anos antes de Cristiano nascer. Nesse verão, Harry Carvelery Hinton decidiu trazer de Inglaterra uma novidade. O rapaz, então com 18 anos, tinha nascido no Funchal mas estudava em Londres. Era herdeiro de uma família que dominava o comércio da banana. O pai enviara-o para a Velha Albion para aprender finanças, mas o que ele trouxe da Grã Bretanha foi uma bola de futebol que duas equipas de 11 rapazes disputavam até conseguirem marcar golo.

Escrevi esta história há quatro anos no Diário de Notícias, nas vésperas do começo do último Mundial. Achei que havia uma certa dose de superstição neste facto: o número que Cristiano Ronaldo usa nas costas é o mesmo dessa distância que existe entre o local de nascimento do futebol português e o local de nascimento do melhor futebolista português de todos os tempos. E dou por mim a pensar na sorte que eu tive em poder ver Ronaldo jogar cinco campeonatos do mundo. Sou um privilegiado, eu e mais uns quantos milhões dos meus compatriotas.

Estou um bocado cansado de ler a palavra “explosiva” quando o assunto é a entrevista que o número 7 deu recentemente a Piers Morgan. Explosivo é o hat-trick que Ronaldo marcou no último campeonato do mundo à Espanha. E irritam-me os treinadores de bancada que andam a dizer que lhe ficava bem mais humildade. Pergunto-me se o miúdo Cristiano ter-se-ia conseguido impor nas fileiras do Manchester United se se tivesse encolhido perante tantos tubarões à sua volta. É claro que a soberba não fica bem a ninguém. Mas, na ascensão ao Olimpo, é natural querer sacudir a mortalidade dos ombros.

O que o capitão da Seleção fez não foi provocar o seu treinador nem o seu clube, longe disso. Ronaldo provocou a única pessoa que lhe interessa provocar, que é a si mesmo. É de se lhe tirar o chapéu: partiu para o Qatar com 37 anos e decidiu partir antes de tudo a loiça e voltar a por-se em cheque. Sabe que vai ouvir críticas se as coisas não lhe correrem de feição. Mas ele insiste em provocar-se, ainda que isso o possa expor ao ridículo. Não tem pingo de arrogância, a atitude do número sete. Bem pelo contrário, é um ato de ousadia reservado a quem pensa com grandiosidade. Bem vistas as coisas, são os gestos de coragem que tornam os homens em deuses. Nunca a prudência criou um herói. Nem o recato.

Temos uma seleção francamente notável a entrar em campo. E acredito nos nossos rapazes, temos massa para o cimento com que se constrói a história. Mas não posso deixar de acreditar nas lendas. Que, uma derradeira vez, um número sete – predestinado desde a nascença a sê-lo – vai propor-se a escrever uma epopeia. E aquilo que eu quero dizer é o mesmo que Cristiano disse a João Moutinho no Euro 2016 que nunca nos sairá da memória. Anda bater, Ronaldo, que tu bates bem. E se não ganharmos, que se f***.

(Grande Repórter)

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