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E o resto desapareceu
Opinião Desporto 4 min. 07.08.2021
Olimpíadas de sofá

E o resto desapareceu

Olimpíadas de sofá

E o resto desapareceu

Foto: Lusa
Opinião Desporto 4 min. 07.08.2021
Olimpíadas de sofá

E o resto desapareceu

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Um susto enorme. Com um pouco mais de meia maratona percorrida, Sara Moreira perdeu os sentidos. Momentos angustiantes, em que JO desapareceram, trazendo à memória um velho fantasma. A atleta portuguesa está bem. Isto, é o que mais interessa.

Na maratona, rainha das provas olímpicas, Portugal tem uma história de antípodas. A primeira participação olímpica nacional, nos JO de Estocolmo, em 1912, seria marcada pela tragédia. Foi portuguesa a primeira morte da longa história das Olimpíadas da era moderna. Sob um imprevisto calor tórrido na capital sueca, Francisco Lázaro, que untou o corpo de sebo para se "proteger" do sol, viria a sucumbir a este à passagem do quilómetro 30 da maratona. Era um atleta extraordinário, do mais puro amadorismo, numa época em que o desporto, nos alvores da I República, era ainda um privilégio ao alcance de poucos. Lázaro foi talvez o primeiro atleta do povo, verdadeiramente idolatrado por este. O maratonista do SLB foi encontrado sem sentidos à beira da estrada, com sintomas claros de insolação. Acabaria por falecer no dia seguinte, num hospital de Estocolmo. Registos médicos indicam que o atleta português teve delírios durante a noite. E que a mecânica do seu corpo se comportava como se ainda estivesse a correr. Até hoje, as causas da sua morte estão envoltas em mistério. Esclarecidas ficaram as dúvidas (se alguém as tivesse) sobre a dureza desta prova. Na maratona se testam à infinitude os limites do corpo humano.

A década de 80 foi de ouro para Portugal. Quem não se lembra de ver Carlos Lopes a irromper pelo estádio olímpico, em Los Angeles (1984), no seu estilo peculiar, peito a direito, para a frente, uma locomotiva com as pernas mais rápidas que a própria sombra. Quem não se lembra de ver uma menina franzina, com jeito de tudo menos de atleta de alta-competição, uma máquina perfeita, humildade em carne e osso, resistência, as forças que ela encontrava numa incrível força de vontade. E, no lugar mais alto do pódium dos JO de Seul, em 1988, o seu sorriso, embrulhado na bandeira nacional, como se usasse um lenço à cabeça, feito do mais profundo tecido de Portugal.

A maratona de hoje, na cidade de Sapporo, onde há escassos meses vigorava o estado de emergência por conta do nosso inimigo público número um, vigorava agora o calor. Razão pela qual se antecipou para as 06h00 (hora local) o tiro de partida para a maratona feminina de Tóquio, 800 quilómetros a sul, onde chovia copiosamente. Antecipando dificuldades, as atletas começaram num ritmo lento, dizem os especialistas. No entanto, rapidamente se posiciou à frente do pelotão um verdadeiro contingente africano, com destaque para as fundistas do Quénia e da Etiópia, o que não era exactamente novidade. As atletas africanas pontuavam o ritmo da corrida, sem evidenciar no rosto grande esforço, tendo atrás uma imensa multinacional de atletas, um exército colorido de pés a partilhar uma estrada que, à passagem do quilómetro sexto, altura em que o pelotão começou a esticar-se, parecia ainda sem fim.

A prova tinha um mini-esquadrão português, constituído por Sara Moreira, Sara Catarina Ribeiro e Carla Salomé Rocha, que nesta corrida depositavam o sonho realista de ficar entre as 15 primeiras, guardando em lugar secreto (todos os atletas o fazem) o esquisso de uma medalha olímpica. Estavam bem posicionadas no pelotão da frente, onde as etíopes e as quenianas começavam a impôr o ritmo. De cada vez que aceleravam, o pelotão perdia peças. A humidade e o calor começavam a fazer-se sentir nas atletas. Verificavam-se as primeiras desistências.

Ao 21º quilómetro da maratona, os JO desapareceram. Lá do fundo chegava a notícia que algo de muito errado se passava com uma atleta portuguesa. Daqueles momentos em que o coração salta do peito e atravessa a televisão. Sara Moreira, que estava a fazer uma prova dentro do seu normal, tinha desmaiado. Em que circunstâncias, não se sabia. Mas era sem dúvida preocupante. Com todas as diferenças possíveis e imaginárias, veio de imediato à memória Francisco Lázaro. Foi um minuto longo e pesado, até se saber que a atleta portuguesa, assistida de pronto, tinha recuperado os sentidos. Aparentemente,

estava bem. Só a partir daí a competição readquiriu algum sentido. Mais tarde, Sara Moreira deu a sua versão dos acontecimentos: "Parei para ir à casa-de-banho. Depois comecei a correr e caí para o lado. Não me lembro de mais nada", disse a atleta de Santo Tirso.

Em Tóquio, sob chuva torrencial, os canoístas Emanuel Silva, João Ribeiro, Messias Baptista e David Varela, lograram chegar à final de K4 500 metros, garantindo desde logo mais um diploma para Portugal, mesmo que na corrida das medalhas chegassem em 8º. O que aconteceu.

O final da maratona, com Carla Rocha num meritório 30º lugar e Sara Ribeiro no longínquo 70º, foi emocionante, com algo de previsível - as quenianas Peres Jepchirchir e Brigid Kosgei ganharam ouro e prata, respectivamente - e, algo que não estava nas previsões de ninguém: uma norte-americana no terceiro lugar do pódium. Molly Seidel, natural de Brookfield (Winsconsin), que fez nestes JO a terceira maratona oficial da sua carreira, foi a sensação da prova, pedindo meças às "máquinas" de correr africanas. Embaladíssima pela emoção de bronze, num momento de grande genuinidade e eloquência desportiva, em lágrimas disse o que lhe ia na alma. Não sabia exactamente quantas litrosas de água bebeu pelo caminho e muito menos as que perdeu, mas sabia exactamente o que ia agora, para acompanhar uma medalha de bronze: "Lá em casa, para os ´folks`que me estão a ver, bebam uma cerveja por mim". Uma cervejola? Temos fundista.

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