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Doze indomáveis patifes
Opinião Desporto 3 min. 20.04.2021

Doze indomáveis patifes

Doze indomáveis patifes

Foto: AFP
Opinião Desporto 3 min. 20.04.2021

Doze indomáveis patifes

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Fiz um esforço sério em procurar aspectos positivos na proposta "superliga exclusiva dos ricos"; como não sou um regime despótico do Médio Oriente, não encontrei nenhum.

Ainda sob o choque da declaração de guerra interposta algumas horas antes por 12 grandes (empresas) clubes de futebol, Aleksander Čeferin, presidente da UEFA, usou de tom altamente irónico na sua reacção pública: "Esses 12 clubes têm uma intenção vergonhosa e egoísta. Não lhes quero chamar uma dúzia batoteira, mas...".  

"The Dirty Dozen" é um duro filme de acção, lançado em 1967, que conta a história de um grupo de soldados que tinham cometido crimes e a quem foi dada uma missão suicida como oportunidade de obter um perdão. A história decorre durante a II guerra e o elenco é constituído por grandes actores (Lee Marvin, Charles Bronson, John Cassavettes, Donald Sutherland...) que, duas décadas antes, tinham mesmo servido no exército dos EUA. Ceferin falou em inglês, e o título da versão em português ainda é mais adequado: Doze indomáveis patifes.

Não está mal, mas há obras que ilustram melhor a ideia bombástica desta superliga. "Sete pecados mortais", o filme de suspense com Brad Pitt e Morgan Freeman, onde o ganancioso advogado morre de forma horrenda; o poema de Dante "Inferno", onde os avarentos são condenados a lutar uns contra os outros enquanto as labaredas os queimam para a eternidade; ou então "Money", dos Pink Floyd, onde eles cantam "I think I’ll buy a football team".

Porque esta é apenas mais uma história de ganância humana. Fiz um esforço sério em procurar aspectos positivos na proposta "superliga exclusiva dos ricos"; como não sou um regime despótico do Médio Oriente, não encontrei nenhum. Os jogadores e treinadores sairão a perder. Os adeptos nem se fala, e como se pode ler nas bancadas de Old Trafford... "O futebol não é nada sem os adeptos".

Os doze clubes europeus que propuseram a criação de uma superliga europeia agitaram nos últimos dias o futebol internacional.
Os doze clubes europeus que propuseram a criação de uma superliga europeia agitaram nos últimos dias o futebol internacional.
Montagem: AFP

Mas não acreditem em tudo o que leem. O presidente da Juventus já esclareceu que o que interessa não são esses "adeptos do passado" (os que sofrem e apoiam a sua equipa no estádio) mas sim captar os clicks dos "adeptos do futuro" (os streamers asiáticos e americanos). Palavras sem sentido que só deixam a nu o que todos descobriram ontem: os donos destas empresas desportivas entendem zero de futebol, conhecem zero da importância do desporto e querem conhecer menos que zero da sua ética; o único que lhes ocupa os pensamentos e lhes orienta as acções é mesmo o vil metal. 

A mentira do capitalismo tardio é apregoar a concorrência quando na verdade nada mais deseja que monopólios e lucros fáceis e garantidos.

Mesmo já sendo eles (de muito longe) os clubes mais ricos, açambarcando jogadores, violando as regras financeiras, sendo ajudados pelos árbitros... não chega. É sempre preciso mais e mais $$, e os lordes não gostam da ínfima possibilidade de serem eliminados por um qualquer plebeu tipo FC Porto, ou de nem sequer se qualificarem. Fica completamente exposta a grande mentira do capitalismo tardio, que finge promover a concorrência quando na verdade nada mais deseja que monopólios e lucros fáceis e garantidos, impondo barreiras à entrada e limites à incerteza.

Um antigo treinador do Liverpool definia o futebol como "mais importante que a vida ou a morte", só que para muitos adeptos enojados com o rumo que este tomou nos últimos (muitos) anos, esta é a proverbial gota de água que os fará fartarem-se de vez, desligarem a paixão e abandonarem o vício. Um momento de alívio, mas sobretudo uma demonstração do efeito arrasador do egoísmo megalómano e desregulado em tudo à nossa volta: da saúde ao ambiente, do emprego à habitação.

Agora que tocaram em algo que importa, talvez as pessoas finalmente comecem a reagir.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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