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Dinheiro e recordes
Desporto 3 min. 07.07.2021
Tóquio 1964

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Tóquio 1964

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Tóquio 1964

Dinheiro e recordes

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Foram as Olimpíadas mais caras de sempre e uma das mais prolíferas desportivamente. 50 novas marcas olímpicas foram estabelecidas em Tóquio. Os EUA venceram, mas a URSS conquistou mais medalhas. Valeu o ouro.

Em Portugal, sob o longo auspício do Estado Novo, as notícias que chegavam da guerra colonial era sempre as mesmas, cortesia do lápis azul. Em África perderia a vida ou ficaria marcada para sempre uma geração, que em território nacional partia a salto para a diáspora, na grande vaga migrante, reinventado a pobreza, tentando acompanhar as notícias que chegavam do mundo lá fora. Com atraso, lá iam chegando as modas: o Beatles, as socas, as calças à boca de sino, as camisas com golas de asas de avião, uma estética "flower-power", a caminhar para uma revolução sexual de metafísica psicadélica, que do outro lado do Atlântico desabrochava. Na Europa passeava-se dentro de mini ou de um VW carocha, assistindo-se pela TV aos acontecimentos que iam marcando a História: no dia 22 de Novembro de 1963, John Fitzgeral Kennedy, o 35º presidente americano, foi assassinado numa rua de Dallas, nascendo o mito, morrendo com ele uma investigação ainda hoje dúbia. Dois anos antes (1961), a URSS tinha enviado o primeiro homem a viajar no espaço, o astronauta Yuri Gagarin.

Em 1960, a URSS tinha levado a melhor aos EUA nos JO de Roma. E os EUA, mesmo ocupados com o desenlace da sua História, tinham esta derrota atravessada. Só faltava que o COI designasse o palco, o que aconteceu em 1962: Tóquio. Tinha chegado a hora do primeiro evento olímpico em terras asiáticas. E, mais uma vez, a escolha do COI não fora inocente. O Japão, que esteve do lado do inimigo na II Guerra Mundial, tinha pago muito caro o seu envolvimento: Hiroshima e Nagasaki. Feridas atómicas, permanentemente abertas. Por antítese, a economia japonesa respirava saúde.

Em 1964, por altura dos JO de Tóquio, Jean Paul Sartre, que tinha acabado de publicar As Palavras, recusava o Prémio Nobel da Literatura. Por outro lado, o prémio Nobel da Paz foi atribuído e aceite. Martin Luther King marchava para Washington para dizer que tinha um sonho, enquanto Lyndon Johnson, o presidente americano após a morte de JFK, envia as primeiras tropas para o Vietname.

Tóquio estava apostada em tornar as suas Olimpíadas inesquecíveis. O orgulho nacional e a famigerada organização nipónica jamais permitiria mácula. A isto muito ajudava um orçamento inesgotável. Em matéria orçamental, Tóquio ultrapassou todas as outras Olimpíadas: 3,5 mil milhões de dólares, mais coisa, menos coisa, já contando com a poupança de despesas de uma delegação olímpica. A África do Sul, como sinal de repúdio ao "apartheid", ficou de fora destas Olimpíadas, aclamadas pelos presente como uma das melhores da sua História. A organização, que esteve ao melhor nível já visto, só seria superada pelas prestações dos atletas, que foi absolutamente extraordinária. Em Tóquio, onde se acrescentaram as modalidades de voleibol e de judo, estabeleceram-se 50 recordes olímpicos. Na natação, 14 novos recordes do mundo. Nesta torrente, Portugal, que apresentou vinte atletas para competir em sete modalidades, não navegou. Nem a armada da vela, liderada por Duarte Bello, que já ia na quinta olimpíada, conseguiu uma medalha de consolação.

Os olhos do mundo estavam concentrados no grande duelo olímpico: URSS versus EUA, que não tinham em cartaz uma das estrelas que tinham emergido em Roma. Cassius Clay, aliás, Mohamed Ali, recusou-se a incorporar o exército americano na guerra do Vietname, ficando afastado do boxe. Em seu lugar, foi outro peso pesado: Joe Frazier.

Os velocistas e, para supresa de todos, até os meio-fundistas, recuperaram o orgulho olímpico americano, junto com a sua equipa de basquebol, que inaugurou oficialmente o cognome "dream team". Em Tóquio, os EUA (90 medalhas: 36 de ouro, 26 de prata, 28 de bronze), desta vez, levaram a melhor à URSS, longe de se poder afirmar que com isso resgataram a sua hegemonia olímpica. Ganharam porque o ouro reluz mais que as outras medalhas. Na contabilidade final a URSS tinha conquistado mais medalhas: 96, sendo que destas apenas 30 eram de ouro, 31 de prata e 35 de bronze. O Japão, surpreendentemente, conseguiu um honroso terceiro lugar. Mas a honra, na cultura japonesa, tem outra escala. Os atletas nipónicos que competiram nestas Olimpíadas não se perdoaram. Muitos deles, lavaram a desonra cometendo "harakiri".

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