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Conta-me como foi da bola. A bronca de Diego em Viseu
Desporto 6 min. 11.06.2021
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Conta-me como foi da bola. A bronca de Diego em Viseu

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Conta-me como foi da bola. A bronca de Diego em Viseu

Foto: dpa
Desporto 6 min. 11.06.2021
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Conta-me como foi da bola. A bronca de Diego em Viseu

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A ruptura de Maradona com o presidente do Barcelona tem muito a ver com a visita do argentino à capital portuguesa das rotundas

Més que un clube. Barcelona, claro. O slogan é original, a ideia de contratar Diego nem por isso. Quando desponta no Argentinos Juniors, o dirigente catalão Joan Gaspart viaja até Buenos Aires para falar com o clube e o jogador. Nada feito, ninguém se quer desfazer do menino de ouro. Porque ainda é cedo para grandes voos. ‘Nem a família o queria ver ainda na Europa.’ Passam-se uns anos e Gaspart repete a visita. Agora com Diego no Boca. Agora é para vale

‘Quando chegámos a Buenos Aires, ninguém deu por nós. À medida que o tempo passa e o negócio ganha contornos mais reais que nunca, foi o fim do mundo. A polícia chegou a informar-nos, a mim e ao presidente Núñez, que tinham medo de um atentado. A verdade é que tivemos de ser escoltados até ao aeroporto dentro um tanque, sim um tanque, daqueles de guerra, no dia em que voltámos a Barcelona. Ao nosso lado, escolta de carros e motos. Deixaram-se à porta do avião, mesmo junto às escadas de embarque. E só saíram do local quando o avião começou a sua marcha. Nunca vi isso nem voltei a ver. Com o contrato assinado e o acordo divulgado, virámos vilões e a ideia generalizada era a de que íamos sacar um tesouro da Argentina.’

 Diego em Barcelona, às ordens de Lattek. Ao seu lado, um craque alemão chamado Schuster. E outro dinamarquês, Simonsen de seu nome. Problema, a Liga espanhola só aceita dois estrangeiros por jogo. Simonsen vê a jogada com um insulto e pede a anulação do contrato. Meu dito, meu feito. Num movimento inesperado, vai jogar para a 2.ª divisão inglesa (Charlton), longe dos holofotes e da pressão. E acaba a carreira onde a começa, no Vejle, clube da sua terra natal. Com Maradona e Schuster, a ilusão do barcelonismo é imensa em recuperar o título de campeão perdido desde 1974, na primeira época de Cruijff.

Diego vai morar em Pedralbes, numa casa com três andares, dez quartos e um campo de ténis. A renda é de 450 contos. O início é inglório. Apanha uma febre alta e falha metade da pré-época, até à final do Teresa Herrera, na Corunha, onde o Dínamo Kiev dá um baile de todo o tamanho ao Barcelona com quatro golos em 38 minutos. Acaba 4-1, o festival. A estreia oficiosa é em Meppen, na Alemanha, a 20 km da fronteira holandesa, a 3 Agosto. O primeiro golo da pré-época é precisamente de Diego, de penálti. O argentino elogia o espírito de grupo. ‘Os marcadores de penáltis são, por norma, Quini e Simonsen. No entanto, eles insistiram para que fosse eu o rematador, uma atitude que me emocionou.’

Três semanas depois, no dia 21, a estreia oficiosa em Espanha. Que não continental, e sim na ilha de Maiorca. Os lugares mais caros estão todos cheios, as clareiras do estádio notam-se é no peão. Diego joga de início e atira ao poste. Só isso. Quatro dias depois, a estreia em Camp Nou, por ocasião do Joan Gamper, então um torneio quadrangular. Na ½ final, 0-0 vs Internacional e desempate por penáltis. Quini falha, Alexanco idem, Diego é o único do Barcelona a enganar o guarda-redes Benítez. Como consolação, o terceiro lugar? Nem isso, outra derrota nos penáltis. Diego volta a acertar o seu remate. Ainda a Liga está por arrancar e já o presidente Núñez desce ao balneário para o tradicional puxão de orelhas. Més que uma confusão. Sobre Diego, chovem críticas. ‘Não vos compreendo, juro; vocês podem criticar-me, porque valho oito milhões de dólares e tenho de fazer mais, muito mais, mas não critiquem constantemente os meus companheiros como se eles fossem os maus da fita’, diz o 10.

Na sua cabeça, os maus da fita nem jogam. Um é o presidente Núñez, ‘um tarado social, que se atira de cabeça para entrar em todas as fotografias e que nos oferece sempre mais dinheiro no intervalo dos jogos como se a vitória ou a derrota dependesse da guita. O outro é o treinador alemão Udo Lattek. O seu registo de treino é monocórdico, quase pré-histórico. A lenga-lenga de sempre, correr à volta do campo e levar bolas medicinais de oito quilos de uma baliza à outra. Uma vez, Diego atira-lhe a bola ao peito e diz-lhe ‘ouça mister, porque não faz isto uma vez para ver como se sente amanhã?’

Arranca a Liga, em Valencia. O Luis Casanova até estala. No meio-campo, Kempes abraça Diego para a fotografia. Aos 20 minutos, Diego marca o primeiro da noite numa jogada bonita de combinação com Marcos pela esquerda. O Valencia dá a volta, 2-1. O Barcelona cai, com estrondo. Diego é apupado por tudo e todos, imprensa incluída. ‘Maradona é um bluff, uma invenção dos argentinos.’ A meio da semana, o Barcelona desloca-se a Florença para ganhar oito milhões de pesetas pela presença de Diego. É o preço da fama, já exercido sobre outras figuras do passado, como Pelé e Eusébio.

Há que esmifrar a galinha dos ovos de ouro. Com Diego, idem idem aspas aspas. Jogam dez suplentes mais Diego, acaba 0-0. No regresso a casa, a delegação do Barcelona passa o dia todo em aeroportos. Organizações limão é o que é. Diego começa a impacientar-se. Tal como Núñez, farto de ouvir falar das noitadas do argentino, ora em discotecas, ora em concertos. Diego nem sequer se esconde. Pregunta-lhe sobre Nuñéz. ‘Não quero saber, ele não pode controlar a minha vida privada’. Numa dessas escapadas, Diego é visto em Viseu. Ya, na capital das rotundas em Portugal. Uauuuuuuu. Nem mais. Repetimo-nos, uauuuuuuu. É a cerimónia da entrega dos prémios Gandula, organizada pelo jornalista Wilson Brasil, radicado em Portugal há anos e jornalista da Gazeta dos Desportos. Há vários convidados de gabarito, como José Maria Pedroto, João Rocha, António Garrido, Fernando Gomes, Octávio Machado, Reinaldo, Mário Jorge e por aí fora. De repente, perto da meia-noite, surge um carro. Abre-se a porta e sai Diego. Insistimos, uauuuuuuuuuu. È seguramente o mais ilustre visitante dessa Feira de São Mateus. Às três da manhã, dá entrada no Hotel Grão-Vasco, onde diz à revista ‘Olá Viseu’

 - O que fez deslocar-se a Viseu quando outros se recusam a vir?

- É meu costume contribuir com a minha presença para o êxito de todas as realizações do género, pois considero que, através dela, posso dar uma achega para a sua continuidade. Espero voltar em breve para conhecer melhor a cidade, porque hoje não deu tempo nenhum.

- Aceitaria um convite para jogar em Portugal?

- Sim, já existem clubes de bom cartel, só que tenho contrato com o Barcelona por seis anos.

- Acredita na Argentina para o próximo Mundial?

- A Argentina tem uma equipa tão boa como as melhores, o que lhe dá as mesmas possibilidades. Acredito que será campeã mundial em 1986.

- É do conhecimento geral que adiou a data do seu casamento pelo facto da imprensa ter tomado conhecimento antecipado da sua realização. É possível saber para que data está marcado?

- Neste momento, ainda não tenho data. Logo que seja acordada com a minha noiva, comunicá-lo-ei à imprensa.

- O que sente quando marca um golo?

- Considero-o como se fosse o melhor de toda a minha carreira. É como se fosse o meu primeiro golo.’

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