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De religião laica do proletariado a negócio dos super-ricos
Opinião Desporto 6 min. 30.04.2021

De religião laica do proletariado a negócio dos super-ricos

De religião laica do proletariado a negócio dos super-ricos

Foto: AFP
Opinião Desporto 6 min. 30.04.2021

De religião laica do proletariado a negócio dos super-ricos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Não é a primeira vez que são 12 que pretendem decidir o destino do futebol, e também não é novidade que os poderosos queiram extinguir a ligação do povo a este jogo.

Foram 12 os clubes que pretendiam lançar a Superliga de Futebol, uma competição em que só entravam as agremiações mais ricas da Europa, que convidavam anualmente outros poucos participantes de sua escolha para comer algumas migalhas na sua farta mesa.

A iniciativa durou poucos dias, dada a reação dos adeptos, da UEFA e da FIFA. As duas entidades responsáveis pelo futebol europeu e mundial reagiram com muita violência verbal, como só acontece quando se rouba o pão da boca a alguém.

Os adeptos há muito que contestam a transformação do futebol popular num mero negócio. Já as instituições que controlam este desporto a nível europeu e mundial nada têm contra o negócio, desde que não lhes escape o poder e o dinheiro.

Não é a primeira vez que são 12 que pretendem decidir o destino do futebol, e também não é novidade que os poderosos queiram extinguir a ligação do povo a este jogo.

As regras do futebol, ditas modernas, foram estabelecidas também por 12 clubes, desta feita só ingleses, numa taberna em 1863. Neste regado acordo, os subscritores adotaram as normas estabelecidas pela Universidade de Cambridge 17 anos antes, que separavam o futebol do rugby, que proibiam pegar a bola com as mãos e chutar nos adversários: “os pontapés só devem ser dirigidos à bola”, aconselhavam. Mas nem sempre as coisas foram potencialmente tão pouco sangrentas.

Em 1314, o rei Eduardo II da Inglaterra afirmou num édito contra este jogo plebeu da populaça que alvoroçava o reino. “Estas escaramuças ao redor das bolas de grande tamanho, de que resultam muitos males que Deus não permita”.

O futebol já se chamava “futebol”, mas era na altura, para além da bola, bastante diferente: jogava-se com um número ilimitado de pessoas, por um tempo indeterminado. Aldeias inteiras batiam-se contra as gentes das suas vizinhanças com o objetivo de levar a bola a atravessar uma linha. Destes autênticos combates resultavam não poucos mortos. Em 1349, Eduardo III, declarou o futebol “um jogo estúpido e sem nenhuma utilidade”. Os seus sucessores Henrique IV, em 1410, e Henrique VI, em 1547, tentaram em vão proibir esses jogos de bola, mas quanto mais tentavam, mais eles se difundiam e espalhavam pelo povo.

Na sua “Comédia dos Erros”, datada de 1592, Shakespeare usa o futebol para sublinhar as queixas de um personagem. “Tomai-me por uma bola de futebol? Vós me chutais para lá, ele chuta-me para cá. Se devo permanecer neste serviço, deveis forrar-me de couro”.

Anos depois, no “Rei Lear”, o conde de Kent lançava o pesado insulto da época: “Tu, desprezível jogador de futebol”.

Mas o suposto mal tinha há muito passado o canal. Em França, o jogo está interdito desde o início do século XIV; e em 1440, o bispo de Tréguier, na Bretanha, baniu os jogadores de futebol da sua diocese. “Tomamos conhecimento por homens dignos de fé que em algumas paróquias e outros lugares submetidos à nossa jurisdição se livram, em dias de festa e em dias não feriados, depois de bastante tempo mesmo, a um certo jogo muito pernicioso e perigoso, com uma bola grande, redonda e potente […]. É por isso que interditamos este jogo perigoso e escandaloso, e declaramos passíveis de excomunhão e de uma multa de 100 soldos todos os nossos diocesanos, independentemente da sua posição e estatuto social, que tenham a pretensão ou audácia de praticar o jogo mencionado”.

O velho futebol sem regras vai desaparecer com a expropriação das terras comunais e livres dos camponeses, a sua sobrevivência em terrenos delimitados, os futuros estádios, corresponde à apropriação pelas elites aristocráticas e burguesas. As 17 regras de Cambridge vão extirpar-lhe a violência e também o predomínio popular, mas foi uma privatização de pouca dura. Aos poucos e poucos, os povos foram novamente apropriando-se do seu jogo.

“Foi um processo irreversível. Como o tango, o futebol cresceu a partir dos subúrbios. Era um desporto que não exigia dinheiro e que podia ser jogado sem nada além da pura vontade. Nos baldios, nos becos e nas praias, os rapazes nativos e os jovens imigrantes improvisavam partidas com bolas feitas de trapos ou de papel e um par de pedras para simular a baliza. Graças à linguagem do futebol, que começava a tornar-se universal, os trabalhadores expulsos do campo entendiam-se muito bem com os trabalhadores expulsos da Europa. O esperanto da bola unia os nativos pobres com os peões que tinham atravessado o mar vindos de Vigo, Lisboa, Nápoles, Beirute ou a Bessarábia”, escreve Eduardo Galeano, no seu livro sobre o jogo - “Futebol, ao Sol e à Sombra”.

Este processo não se verificou apenas com a exportação do jogo para as antigas colónias. No Reino Unido esta apropriação do jogo pelas classes populares também se deu. Para o historiador Eric Hobsbawm, o futebol incarnou, a partir dos anos 1880, uma “religião laica do proletariado britânico”.

O futebol tinha começado como um passatempo de jovens ricos, ia ficando desqualificado para as classes poderosas. Em 1915, a revista “Sport”, do Rio de Janeiro, soltava um lamento de classe: “De modo que nós que frequentamos uma Academia temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval, jantamos na Rotisserie, frequentamos conferências literárias, vamos ao five o´clock..., somos obrigados a jogar com operários, limadores, torneiros mecânicos, motoristas e outras profissões que absolutamente não estão em relação com o meio em que vivemos. Nesse caso, a prática do desporto tonar-se um suplício, um sacrifício, mas nunca uma diversão”, citou Galeano.

Um processo de popularização, que um século depois o chamado futebol espetáculo tratou de pôr cobro. Entre 1990 e 2011, o preços dos bilhetes mais baratos no estádio do Liverpool, principal clube da famosa cidade operária do norte de Inglaterra, aumentaram 1.108%.

Um processo que transformou os clubes desportivos em empresas que vendem conteúdos para o mercado de entretenimento global, como elogia convictamente um dirigente do Barcelona, num artigo do jornal desportivo francês L'Equipe, enquanto compara o clube catalão à companhia Walt Disney: “Eles têm o Mickey Mouse, nós temos o Leonel Messi. Eles têm a Disneylandia? Nós temos o Camp Nou [estádio do Barça]. Eles fazem filmes, nós produzimos conteúdos”.

Este episódio da Superliga Europeia, por enquanto falhado, é apenas mais um esforço na privatização do futebol por outros meios, que os organismos corruptos deste desporto há muito empreenderam.

Mas como cantam, a plenos pulmões, os adeptos do Liverpool, usando a conhecida frase dos trabalhadores dos portos e estivadores - “Il never walk alone”. “Nunca caminharemos sozinhos, mesmo que os nossos sonhos sejam ameaçados ou sejam soprados pelos ventos”. O futebol popular continua a viver naqueles que gostam dele.

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