Escolha as suas informações

De campeão a operário. O ex-atleta que voltou a sorrir no Luxemburgo
Desporto 9 min. 18.03.2020

De campeão a operário. O ex-atleta que voltou a sorrir no Luxemburgo

Manuel Silva faz um balanço positivo dos nove anos que reside no Luxemburgo.

De campeão a operário. O ex-atleta que voltou a sorrir no Luxemburgo

Manuel Silva faz um balanço positivo dos nove anos que reside no Luxemburgo.
Foto: Álvaro Cruz
Desporto 9 min. 18.03.2020

De campeão a operário. O ex-atleta que voltou a sorrir no Luxemburgo

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Manuel Silva esteve nos Jogos Olímpicos de Sydney e Atenas e representou Sporting e Benfica. Terminou a carreira e passou dificuldades, mas o sobrinho deu-lhe a mão e trocou Portugal pelo Grão-Ducado onde refez a vida e é feliz.

Tinha 32 anos quando em 2011 chegou ao Luxemburgo à procura de emprego. Que balanço faz destes nove anos?

Cheguei com uma mão à frente e oura atrás. No início, como é normal, não foi nada fácil. Mas, apesar de alguns altos e baixos, considero que estes nove anos foram bons para mim e para a minha família. Estamos bastante satisfeitos por viver aqui.

Como correu a adaptação a um país que desconheciam?

Como qualquer imigrante que chega a outro país, necessitámos de um tempo de adaptação. Era tudo novo e muito diferente. Foi uma mudança radical nas nossas vidas. A minha mulher trabalhava em Portugal e aqui teve de começar do zero. Eu, tinha sido sempre atleta de alta competência e possuia pouca experiência como trabalhador. Também estava preocupado com a escola para os miúdos e o facto de se depararem com línguas novas, mas as coisas correram bem. Como eram pequenos, aprenderam facilmente o luxemburguês e adaptaram-se muito bem. Neste momento a nossa vida é boa e muito mais estável.

O que mais lhe custou?

Além de ter que deixar Portugal, foi abandonar o atletismo, a grande paixão da minha vida. Mas a sobrevivência e o bem-estar da família falaram mais alto. Não podia deixar passar esta oportunidade, tive de a agarrar com unhas e dentes. Era o meu futuro e o dos meus que estava em jogo. Agora, reconheço que tomei a melhor opção porque ficámos todos a ganhar.

O seu irmão e sobrinho acolheram-no no país e deram-lhe uma ajuda preciosa para recomeçar uma vida nova. Como é que se deu a sua vinda para o Luxemburgo?

Devo-lhes muito, em especial ao meu sobrinho. Ele fez tudo por nós. Preparou tudo ao pormenor. Trabalho, casa, carro, dinheiro, enfim... tudo. Se não fosse ele, não estávamos cá. Não tenho palavras para lhe agradecer tudo o que fez por nós. Foi o nosso anjo da guarda (comove-se).

Manuel Silva na prova dos 3.000 metros obstáculos nos Jogos Olímpicos de Sydney.
Manuel Silva na prova dos 3.000 metros obstáculos nos Jogos Olímpicos de Sydney.
Foto: M. Silva

Quando chegou vinha com a intenção de relançar a sua carreira no Grão-Ducado, mas nunca mais correu numa competição oficial. Porquê?


A minha situação laboral não o permitia. Estive os dois primeiros anos numa firma de limpezas e muitas vezes tinha que fazer horas suplementares. Em Portugal, fui sempre atleta profissional e aqui a minha prioridade era o trabalho. As mentalidades e prioridades são diferentes. Embora muita gente pratique desporto no país, o profissionalismo praticamente não existe. Os responsáveis do Mamer ainda me contactaram para ir dar uma ajuda aos miúdos e à equipa de duatlo. Com grande esforço ainda fiz uns treinos que entusiasmaram os atletas, mas umas semanas depois, por incompatibilidade com o meu trabalho, tive que deixar tudo, para grande desilusão minha.

Tem aqui tudo o que lhe faltava em Portugal quando decidiu arriscar e vir para o Luxemburgo?

Neste momento, posso dizer que sou feliz a 90%. Trabalho numa empresa de biogás relativamente perto de casa. A minha mulher abriu o seu gabinete de estética, os miúdos estão bem integrados na escola e têm vários amigos. Em Portugal morava num apartamento, aqui estou numa localidade tranquila e numa casa grande e confortável. Na verdade, não me posso queixar. Dou graças a Deus por isso e a quem me tem ajudado.

Como atleta teve uma ascenção rápida. Venceu provas internacionais, bateu recordes e participou em duas olimpíadas. Aos 26 anos, quando normalmente se começa a atingir o auge de uma carreira, começa o seu declínio. Não sente que passou ao lado de uma grande carreira? Como explica essa situação?

Quando fui de Guimarães para o Sporting, trabalhei muito. Vinha de uma família pobre para o melhor clube português de atletismo e um dos melhores da Europa. Naquela altura, ou vingava ou regressava a casa. Cheguei rapidamente aos Jogos Olímpicos de Sydney e fui construindo um nome na modalidade. Apresentei-me no auge da forma nas olimpíadas de Atenas, mas as coisas não me correram bem e aí cometi alguns erros que me foram fatais. A prova não me correu como desejava e no final, a quente e mediante a pressão, caí nas rasteiras que alguns jornalistas me colocaram e ’atirei-me’ a pessoas que não tiveram culpa nenhuma. Sofri as consequências e acabei por sair do Sporting e da seleção. Passei pela equipa de atletismo dos irmãos Castro, meus familiares, e depois fui para o Benfica, também um grande clube, mas com condições inferiores para relançar a minha carreira. Mas, infelizmente, nunca mais fui o mesmo atleta. Psicologicamente, nunca mais voltei a encontrar o meu equilíbrio.

Enquanto atleta profissional foi pago a recibos verdes e quando deixou o atletismo trabalhou como rececionista num pavilhão, em Lisboa. Como foi deixar o mundo profissional e passar a ser um trabalhador comum?

Ui, foi um período muito complicado da minha vida. Houve uma completa rutura com um mundo a que eu estava habituado e que me afetou bastante. Os rendimentos diminuiram drasticamente, o modo de vida também mudou e, de um momento para o outro, dei comigo a contar os tostões, sem direito a subsídio de desemprego... psicologicamente fiquei bastante abalado, sobretudo porque tinha uma família para sustentar.

Manuel Silva é ainda recordista nacional dos 3.000 metros obstáculos obtido em Estocolmo, em 2004.
Manuel Silva é ainda recordista nacional dos 3.000 metros obstáculos obtido em Estocolmo, em 2004.
Foto: M. Silva

Em 2004 bateu o recorde nacional dos 3.000 metros obstáculos, numa prova em Estocolmo, marca que vigora até hoje em Portugal. O que representa pra si?

Constitui um grande motivo de orgulho para mim e para a família. É um recorde que se mantém em vigor há 16 anos. Por vezes vejo no Youtube a corrida com os meus filhos que na altura eram pequeninos. É um marco que fica na história e nas estatísticas dos campeões portugueses de atletismo.

Quando se passa por clubes como Sporting e Benfica não se sonha com um futuro melhor?

Completamente. Estive nos dois melhores clubes portugueses, é um facto. Essa era também a minha esperança. Sonhava com uma vida melhor quando iniciei a minha carreira, mas infelizmente as coisas acabaram por me sair ao contrário.

Em Portugal deixou mais amigos ou inimigos no atletismo?

Mais amigos, creio. Aqueles que o são mesmo, os verdadeiros, esses ficam sempre, são os que ainda me ligam à modalidade. Outros, quando estás no auge, aparecem e estão contigo, mas depois, acabam por afastar-se quando as coisas não correm bem. Mas também tenho a noção de que deixei alguns inimigos, sobretudo após os Jogos Olímpicos em Atenas...

O que é que fez na altura que não voltaria a fazer hoje?

Se pudesse, passava uma borracha por cima de tudo o que se passou depois da minha corrida nos Jogos Olímpicos em Atenas. Sobretudo as críticas que emiti contra algumas dirigentes da federação que não tiveram culpa das coisas me terem corrido mal. Apesar do sistema de apoio aos atletas olímpicos na altura ser deficiente e provocar desigualdades, eles não mereciam que eu tivesse desabafado daquela forma imprudente.

Continua a acompanhar o atletismo em Portugal e no mundo?

Sim. E lamento que o atletismo português se tenha desvalorizado em termos de ranking europeu e mundial, apesar de possuirmos, ainda, alguns bons valores. Há uns anos ganhávamos títulos internacionais em várias categorias e agora escasseiam, infelizmente. Hoje, o espírito de sacrifício está cada vez mais distante e não é encarado como um valor seguro. Antes, eramos um por todos e todos por um. Hoje não. Há mais dinheiro, melhores condições, mas o desporto em si – e não falo só do atletismo – tornou-se individualista. É cada um por si. Lamento, mas é um facto.

Nunca desejou ficar ligado à modalidade como treinador ou em outro cargo na estrutura diretiva de um clube?

Sim, ainda hoje tenho essa esperança. Estou com 41 anos e espero a breve prazo poder integrar um projeto interessante. Infelizmente não conheço muita gente no atletismo, que é onde tenho maior ’know-how’ para proporcionar um incremento válido na carreira de alguns miúdos. Nem que seja para ajudar o meu filho que joga futebol. Mas como o futuro a Deus pertence, acredito que tenho experiência e conhecimentos suficientes para ajudar alguns clubes no Luxemburgo que se mostrem interessados.

É da família dos irmãos Castro, ex-atletas do Sporting. Eles nunca o ajudaram?

Bastante, em vários aspetos da minha vida. Quando estava no Sporting apoiavam-me muito, nunca me faltou nada. Fosse em matéria de treinos ou qualquer outra necessidade. O Domingos Castro até foi meu fiador quando comprei a minha casa. São duas pessoas excecionais, ficarão para sempre no meu coração.

Que momentos o marcaram mais pela positiva e pela negativa ao longo da sua carreira?

Pela positiva, os Jogos Olímpicos em Sydney, nos quais fui finalista, sem esquecer as vitórias em várias provas internacionais. Pela negativa, também nas olimpíadas, mas desta vez em Atenas, onde nada me correu bem.

Pode dizer que agora tem a vida que sempre desejou ter?

Sim, em grande parte, e devo-o muito ao país que tão bem me acolheu. Se não fosse o Luxemburgo e quem me trouxe para cá, a minha vida não era o que é hoje. Felizmente, este país abre muitas portas e dá oportunidades a quem as quer e sabe aproveitar.

Manuel Silva, em casa, com os filhos Leonor, Afonso e a esposa.
Manuel Silva, em casa, com os filhos Leonor, Afonso e a esposa.
Foto: Álvaro Cruz

O que gosta mais e menos no Luxemburgo?

Gosto essencialmente da conjetura harmoniosa do país que é muito bem organizado. Proporciona, na generalidade, uma vida boa e digna às pessoas, apesar de existirem, também, alguns casos de pobreza. O que gosto menos é do clima (uma questão de hábito) e da falta de um ou outro prato da nossa tão rica e saborosa gastronomia.

Que planos tem para o futuro?

Pessoalmente, ter saúde, continuar a manter a minha vida aqui e que os meus filhos possam completar as respetivas formações universitárias para ficarem bem encaminhados na vida. Quanto ao desporto, gostava de ajudar o país a criar melhores estruturas e a progredir no atletismo. Existem provas bem organizadas e competitivas, mas acredito que se pode chegar mais longe com trabalho e dedicação. Se eu puder ajudar nesse sentido, sentir-me-ia bastante honrado.

Deseja regressar a Portugal?

Sinceramente, já desejei mais. Acho que vai ser muito difícil regressar... 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas