Escolha as suas informações

Da próxima será mesmo perigoso
Opinião Desporto 3 min. 27.04.2021

Da próxima será mesmo perigoso

Adeptos ingleses do Manchester United, um dos seis clubes ingleses que abandonou o projeto da superliga (mesmo antes de ver a luz do dia) após protestos inflamados dos fãs.

Da próxima será mesmo perigoso

Adeptos ingleses do Manchester United, um dos seis clubes ingleses que abandonou o projeto da superliga (mesmo antes de ver a luz do dia) após protestos inflamados dos fãs.
Foto: AFP
Opinião Desporto 3 min. 27.04.2021

Da próxima será mesmo perigoso

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Livrando-nos da Superliga e de mais 4 anos de Trump, desviámo-nos de balas. Mas a segunda vaga será muito mais insidiosa.

Nunca tínhamos visto nada assim. Chegou domingo e o futebol partiu-se em dois, com os clubes-empresa mais ricos a desertarem da velha estrutura para criarem a sua própria competição. A notícia bombástica mostrava que já existiam contratos assinados, empresa criada (em Madrid), sítio web em várias línguas e data para começar (Agosto). Em dois dias tudo implodiu de forma espectacular, com os insurrectos a voltarem atrás, humilhados e com o rabo entre as pernas arqueadas. Em vez de uma superliga, vimos uma supernova.

O "desastre sem atenuantes" (palavras de um dos principais intervenientes) foi causado por milionários cegos pela ganância, tão habituados a impor a sua vontade e obter tudo o que querem que nunca lhes passou pela cabeça poder encontrar resistência; até porque estes "homens providenciais" (e são sempre homens) julgam saber mais sobre o que querem as pessoas que elas próprias. 

Esta arrogância conduziu directamente a uma estratégia de comunicação que cometeu todos os erros possíveis: demonstrar a traição, ao fingir colaborar com a UEFA ao mesmo tempo que conspiravam em segredo; lançar um comunicado pela calada da meia-noite, hora no mínimo suspeita; não aparecer ninguém a dar a cara para tentar vender os pontos positivos da ideia (assumindo que havia algum), deixando que se instalasse uma narrativa de condenação, um repúdio furioso e unânime. Para não falar de vender um castelo no ar, pois nem sequer existia o que realmente interessava – um contrato televisivo. Tanta incompetência!


Força dos adeptos deixa Superliga moribunda antes de nascer
Nas últimas horas, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea, Tottenham, Liverpool, Atlético Madrid e Inter abandonaram o projeto.

Nunca tínhamos visto nada assim. Chegou o dia da transição de poder e a democracia partiu-se em duas, com uma multidão armada a invadir pela violência o parlamento e senado norte-americanos para impedir que o eleito pelo voto fosse formalmente declarado vencedor. Foi o candidato perdedor quem atiçou as suas milícias contra as instituições da República e em seguida foi para casa ver o espectáculo a desenrolar-se na tv.

O parágrafo anterior só faz sentido porque falamos de Trump, o "homem providencial" (sempre homens) que destruiu a confiança nos media, normalizou a extrema-direita e ridicularizou a democracia, o egomaníaco que fez o mundo regredir durante quatro longos anos de política-covfefe. Trump era tão gloriosamente ridículo que provocava reacções entre o assombro e a gargalhada, e tão absolutamente incompetente para a função que conseguiu ser impugnado duas vezes (um recorde) e perder a reeleição. E no entanto...

Livrando-nos da Superliga e de mais 4 anos de Trump, desviámo-nos de balas. Mas a segunda vaga será muito mais insidiosa. Os milionários do futebol vão fazer-se de humildes por alguns meses, e logo voltarão à carga com a sua liga dos privilegiados, armados de novos aliados e novos argumentos para convencer os incautos. E o próximo Trump será mais inteligente, mais bem-parecido, mais jovem, mais falso; um embrulho melhorado que, partindo de uma base de 74 milhões de votantes e uma sociedade fracturada, explorará sentimentos básicos dos eleitores para atingir os mesmos objectivos neofascistas. Celebremos hoje as vitórias recentes, que amanhã começa a preparação para as nossas lutas futuras.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.