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Cristiano Ronaldo às voltas com Van Nistelrooy
Desporto 5 min. 26.07.2022
Futebol

Cristiano Ronaldo às voltas com Van Nistelrooy

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Cristiano Ronaldo às voltas com Van Nistelrooy

Foto: Tiago Petinga/EPA
Desporto 5 min. 26.07.2022
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Cristiano Ronaldo às voltas com Van Nistelrooy

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Tudo o que quis saber sobre o Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Capítulo 10. Às voltas com Van Nistelrooy  

Jardel e Kutuzov é a primeira dupla de avançados na história profissional de Ronaldo, lançado por Bölöni às feras da 1.ª divisão, em Outubro 2003. O Sporting ganha 3:0 com um golo de Kutuzov e dois de Cristiano, um de bola corrida e com o pé direito, outro de cabeça na sequência de um canto de Rui Jorge. A sua habilidade natural para fazer história está bem patente num treino mais à frente, com Jardel e Niculae. Conta o adjunto Rolão Preto. "Estavam os três a treinar movimentos de ataque, Bölöni parou o treino e disse 'Este [Ronaldo] é melhor que vocês os dois juntos'".

Com o passar do tempo, entre United, Real e Juventus, o nome de Ronaldo entra nas bocas do mundo à conta de golos atrás de outros, quase mil. Há infinitos companheiros de ataque e talvez o mais sonante tenha sido o holandês Ruud van Nistelrooy, com quem Cristiano joga em Manchester e Madrid. E se aventura na capital espanhola é de curta duração, tão-só seis meses, a epopeia em Inglaterra é mais duradoura e, claro, goleadora.

Para início de conversa, Ronaldo faz 21 assistências de golo para Van Nistelrooy – e o holandês só quatro para o português. O que, atenção, é normalíssimo naqueles tempos em que Ruud é 9 fixo na área e Ronaldo é o 7 mais ala que nunca, encostado à linha e agarrado aos seus dribles desconcertantes, mais preocupado em contribuir para a glória dos outros.

A ideia de amizade entre os dois nota-se em campo e é transportada para fora dele, através das próprias palavras de Ronaldo a respeito (imagine-se) da desistência do ensino por ocasião do 8.º ano, no Crisfal, ali na Avenida da República, de frente para a praça de touros no Campo Pequeno.

Estamos em Fevereiro 2002 e Ronaldo começa a faltar às aulas sem dar qualquer justificação. "Tornou-se incompatível a conciliação entre futebol e estudos ao longo dessa época 2001-02, entre treinos no Sporting e na selecção, cada vez mais exigentes e frequentes. Apoiado pela minha mãe, que sempre me incentivou a lutar por aquilo que eu gostava, abandonei a escola. Não é decisão que aconselhe aos mais novos. Errei. Não por ter optado pela carreira de futebolista, mas por ter desvalorizado o ensino, sobretudo o inglês. Sempre que ia às aulas, perguntava-me porque é que queria saber daquela língua."


Cristiano Ronaldo, celebra um golo contra a seleção da Holanda. EPA/OLIVER BERG
Tudo o que sempre quis saber sobre Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar
Histórias sobre o lado menos conhecido do jogador português. Por Rui Miguel Tovar.

Quando chega a Manchester, um ano e meio depois dessa desistência no Crisfal, um dos primeiros a falar com Ronaldo é precisamente Van Nistelrooy. "Fez-me uma pergunta básica 'how are you?' e fiquei a olhar para ele, sem perceber nada do que dizia. Lembrei-me então de todas as aulas de inglês a que tinha faltado. Afinal, sempre precisava do inglês."

A química entre Ronaldo e Nistelrooy ultrapassa a barreira linguística e os dois entendem-se de olhos fechados. Na final da Taça da Liga 2004, o primeiro título da dupla (3:0 vs Milwall, com um golo do português e dois do holandês), há uma caterva de fotografias de Ronaldo e Nistelrooy abraçados, sempre sorridentes. No mês seguinte, há a ½ do Europeu no José Alvalade entre Portugal e Holanda. Quando acaba o jogo, 2:1 para Portugal com golo de cabeça de Ronaldo, os dois abraçam-se e brincam um com o outro.

Dois anos volvidos, agora para o Mundial-2006, a famosa Batalha de Nuremberga com 20 cartões (16 amarelos e quatro vermelhos) para 25 faltas, mais do mesmo: é ver Nistelrooy a sorrir para Ronaldo – que se lesionara bem cedo e fora substituído ainda na primeira parte por culpa de uma entrada mais desenfreada de Boulahrouz.

Pelo meio, uma confusão xxl dá uma bronca descomunal. Estamos em Maio 2006 e Ronaldo entusiasma-se pela enésima vez com a bola. Nistelrooy passa-se dos carretos e insulta-o futebolisticamente. Ronaldo responde-lhe na mesma moeda e Nistelrooy exagera no tom. "Vai mas é falar com o teu pai". A boca é para Carlos Queiroz, o pai futebolístico de Cristiano em Manchester. Só que o pai de Ronaldo, o senhor José Dinis, o tal de "o meu filho é uma força da natureza" em entrevista ao Record em Outubro 2003, morrera em Setembro do ano anterior.


"O meu filho é uma força da natureza"
Tudo o que quis saber sobre o Cristiano Ronaldo mas nunca ousou perguntar. Por Rui Miguel Tovar.

Todo o plantel entra em silêncio absoluto, melindrado com a resposta mais-que-torta de Nistelrooy. Quando o treinador Alex Ferguson toma conta da ocorrência, Nistelrooy nunca mais calça. Só falta um jogo, é verdade, mas é um jogo importante para as contas do holandês em relação ao título de melhor marcador da Premier League (21 vs 23 de Henry, do Arsenal). Nessa tarde, o United goleia o Charlton por 4:0 com um golo de Cristiano.

Três dias depois, a 10 Maio, Roy Keane organiza a despedida do United, em Old Trafford, vs Celtic. Adivinhe qual é o único jogador fora dos convocados? Certo, Nistelrooy. O jogo, esse, acaba 1:0 por obra e graça de Cristiano. Por essa altura, Nistelrooy já está em casa, a preparar o Mundial-2006, na Alemanha, onde é eliminado por Portugal, nos 1/8 final. Nesse dia, o holandês troca de camisola com o português – mas não de insultos.

Mais à frente, o próprio Ferguson contra uma história humana. “Estava em casa numa noite de neve em Janeiro de 2010 quando o meu telemóvel apitou com uma mensagem. "Não sei se se lembra de mim", começava, "mas precisava de falar consigo." Ruud van Nistelrooy. Respondi-lhe okay e ele ligou. Primeiro, conversa de chacha, blá blá blá. Depois saiu-se com esta: "Quero pedir desculpa pelo meu comportamento no meu último ano no United. Gosto de pessoas que conseguem pedir desculpa. Sempre admirei isso. Nesta cultura moderna de auto-absorção, esquecemo-nos que existe a palavra 'desculpa'. É bom encontrar um que seja capaz de pegar no telefone mais tarde e dizer: 'Estava errado, peço desculpa.'"

Van the Man. A desculpa de Nistelrooy é também para Ronaldo. Quando o português marca aquele golo do outro mundo em Turim, de bicicleta perfeita, à Pelé no 'Fuga para a Vitória', ainda com a camisola do Real Madrid, uma das reacções mais imediatas é de Nistelrooy. "Os recordes, mesmo que sejam os teus, foram feitos para serem batidos. Muito bem, Cristiano".

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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