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Conta-me como foi da bola. Vem aí o Braga, a maior dor de cabeça do Benfica
Desporto 6 min. 05.11.2021 Do nosso arquivo online
Futebol

Conta-me como foi da bola. Vem aí o Braga, a maior dor de cabeça do Benfica

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Conta-me como foi da bola. Vem aí o Braga, a maior dor de cabeça do Benfica

Foto: Lusa
Desporto 6 min. 05.11.2021 Do nosso arquivo online
Futebol

Conta-me como foi da bola. Vem aí o Braga, a maior dor de cabeça do Benfica

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Quatro vitórias bracarenses nos últimos cinco jogos entre eles traduzem uma superioridade inaudita a romper com o passado feito de golos inesquecíveis por Águas, Poborsky e Eusébio.

O momento é delicado, uma só vitória nos últimos cinco jogos. O Benfica de Jesus, candidato ao título de campeão 2021-22 por estatuto, reforços, orçamento e recursos humanos, entra em crise. Aos nove golos sofridos pelo Bayern em 180 minutos acumulam-se os empates consentidos no Estoril e em Guimarães (consentidos porque o Benfica começa a ganhar cedo e deixa-se apanhar) mais a perda da liderança na 1.ª divisão. Como se isso fosse pouco, as imagens televisivas mostram alguns jogadores, sobretudo os da defesa, sem paciência para as constantes injúrias do treinador. Está o caldo entornado? Famos fer, como diria Eriksson.

Nas cenas do próximo capítulo, há Benfica-Braga no domingo à noite para fechar a 11.ª jornada. Na história recente do Benfica, o Braga é a equipa mais incómoda de que há memória. Mais que Sporting e Porto? Mais, mais até os dois juntos. Veja lá bem isto, o Braga ganha os dois últimos jogos na Luz para a 1.ª divisão (1:0 + 3:2), o Braga ganha 2:1 na ½ final da Taça da Liga, em Leiria, e o Braga ganha 2:0 na final da Taça de Portugal, em Coimbra.

A história entre os dois clubes é generosa, domingo é o 66.º capítulo de uma saga na 1.ª divisão. A vantagem é claramente benfiquista e há jogos memoráveis, como aquele no dia 15 Novembro 1998. Oito pontos separam o Braga do Benfica antes do jogo da Luz para a 11.ª jornada do campeonato nacional (ups, 11.ª jornada como agora). O início do clássico é marcado pelo golo de Kandaurov, aos 3'. Dez minutos depois, Odair engana Preud'homme e agoniza a relação do treinador escocês Graeme Souness com os adeptos do Terceiro Anel. É preciso esperar pelo 33 para dar um golpe de autoridade. Com classe.

Curiosamente, é canto para o Braga. Marcado à maneira curta, com cruzamento de Bruno para a pequena área. O capitão João Vieira Pinto corta de cabeça, cheio de estilo, e a bola vai parar aos pés de Poborsky. Preparem-se, daqui a 16 segundos, o checo vai marcar um dos golos mais icónicos desse campeonato. O número 7 liberta-se de Castanheira com um nó cego, em que a bola lhe passa por entre as pernas, passa o meio-campo, acelera fundo, ultrapassa José Nuno Azevedo à entrada da área e dribla Bruno antes de acertar um remate com o pé direito, sem hipótese para Quim, apanhado em contra-pé. Tudo tudo tudo sozinho, sem ajuda. Um golo monumental, de levantar o estádio. Karel é assim mesmo.

Vinte anos depois, em Dezembro 2018, há um 6:2. É um tratado. André Almeida, o lateral-direito, marca um golo com o pé esquerdo. Alex Grimaldo, o lateral-esquerdo, marca com o direito. Se fosse só isso, já seria um duplo fenómeno. Só que há mais, olá se há. É a sétima vitória consecutiva de Rui Vitória e, ainda por cima, frente a um Braga cheio de saúde, que começa a jornada à frente do Benfica.

Acontece o impensável, a goleada por números expressivos, dignos de um desequilíbrio pré-datado dos 80’s. Pizzi dá o mote, Jardel amplia. Muito bem, 2-0 ao intervalo é normal. Na segunda parte, cada tiro, cada melro por Grimaldo, Jonas, Cervi e André Almeida. Há também esta curiosidade: seis golos, seis autores. É um filme. Na baliza, Tiago Sá é um passador sem qualquer culpa, excepção feita ao tal 2-0 de Jardel. No outro lado, Vlachodimos sofre com alguma displicência defensiva, aproveitada por Dyego Sousa e João Novais para encurtar distâncias.

Tempos há também em que o Braga é o clube do conforto. Em 1986, por exemplo. O dérbi dos 7:1 já lá vai e continua a fazer mossa. Nas bancadas do José Alvalade, os adeptos do Benfica rasgam os cartões de sócios e queimam bandeiras. A revolta é imensa e pede-se a Fernando Martins a cabeça de John Mortimore. O presidente, ao contrário do povo, é sereno e o treinador inglês é quem mais ordena. Afinal de contas, o Benfica ainda é líder isolado, com um ponto de avanço sobre o Porto. Passa-se uma semana (a da Taça de Portugal) e regressa o campeonato, entre o Natal e o Ano Novo.

O Benfica tem um teste chamado Braga, na Luz. De um jogo para o outro, saem cinco jogadores, capitão Shéu e sub-capitão Carlos Manuel incluídos. Um autogolo de Abreu faz descansar o Terceiro Anel, só que um livre directo de Vítor Santos silencia a Luz. Ao intervalo, 1-1. Nervos à flor da pele e o Braga de Humberto Coelho nas sete quintas. Até que o insuspeito Nunes desempata aos 71 minutos e desanuvia o ambiente para os próximos cinco meses em que o Benfica sagra-se campeão nacional e ainda vencedor da Taça de Portugal.

Já agora, e porque fala-se de Jesus no início do texto, quando é o primeiro Benfica-Braga com Jorge no banco da equipa da casa? Março 2010, altura em que o Braga de Domingos dá trabalho aos grandes. Na altura, um golo de Luisão pertíssimo do intervalo garante o magro 1:0 e a vantagem definitiva até à conquista do título de campeão como ataque mais concretizador (78 golos), defesa menos batida (20), mais vitórias (24) e menos derrotas (duas). O Benfica não é assim tão arrebatador desde a era Eriksson.


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

Em matéria de proezas individuais, dois nomes saltam à vista com quatro golos cada ao Braga em tão-só 90 minutos. Primeiro é José Águas no primeiro dia de Outubro em 1950. Acaba 8:2 e é a estreia do homem a marcar em Portugal. Dos 15 jogos previstos pelo Benfica em Angola, o oitavo é no Lobito, onde mora um jovem de 19 anos com queda para o jogo de cabeça. A selecção local ganha 3-1 e José Águas marca dois golos. A capacidade de elevação do jovem avançado vale-lhe um convite do treinador inglês Ted Smith para aparecer no hotel do Benfica. No dia seguinte, o FCP intromete-se e convida-o por telefone para umas férias no Porto e uns treinos na Constituição. “Amanhã respondo”, diz Águas, timidamente.

O amanhã nunca chega. Para o Porto, pelo menos. Para o Benfica, o amanhã é a descoberta de mais um fenómeno da África colonial. A 9 Setembro 1950, o Benfica aterra em Lisboa com um reforço na bagagem. Que demora duas horas a adaptar-se ao nosso futebol. Nada habituado a um campo relvado e a jogar com pitons, Águas quase nem toca na bola no 2-2 com o Atlético, na Tapadinha, e é posto em causa pela imprensa desportiva. Uma semana depois da estreia oficial, Águas desfaz equívocos e marca quatro golos num 8:2 ao Braga. A partir daí, o céu é o limite. E ele quem levanta as duas Taças dos Campeões, como capitão.

Na ressaca dos Magriços, o Braga visita a Luz como vencedor da Taça de Portugal em título e apanha 4:0 de Eusébio. Ya, Eusébio enche o campo e faz todos os golos. O primeiro é de penálti, a castigar mão de Coimbra para evitar o golo certo de Coluna. O segundo é um remate cruzado, após driblar um defesa, a passe de Simões. O terceiro é um hino ao futebol, um livre directo memorável pela curva da bola na direcção ao ângulo superior esquerdo de Armando. Para fechar a conta, o 4-0 é uma jogada individual em que recebe a bola, pica-a sobre Ribeiro e dispara forte, à malha lateral, sem hipótese de defesa.

Jornada 11

Sexta-feira

Gil Vicente-Arouca

Boavista-Famalicão

Sábado

Vizela-Estoril

Portimonense-Belenenses SAD

Vitória SC-Moreirense

Domingo

Tondela-Marítimo

Santa Clara-FC Porto

Paços-Sporting

Benfica-Braga

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)  

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