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Conta-me como foi da bola. Um Liverpool-Arsenal digno da sétima arte
Desporto 4 min. 15.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Um Liverpool-Arsenal digno da sétima arte

Conta-me como foi da bola. Um Liverpool-Arsenal digno da sétima arte

Desporto 4 min. 15.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Um Liverpool-Arsenal digno da sétima arte

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O livro de Nick Horby resulta no filme de David Evans e imortaliza as duas equipas inglesas numa história em que a realidade supera largamente a ficção.

Está em casa sem nada para ver? Aqui o nada é futebol, óbvio. Pois encontrámos a solução, através do filme 'Fever Pitch'. Na vida real, o caso assume contornos dramáticos. O Arsenal precisa de ganhar ao Liverpool por 2-0 ou por três ou mais golos de diferença para se sagrar campeão inglês, algo que não acontece há 18 anos. E isso é um pau de dois bicos. Ou mesmo três. Pronto, vá, quatro.

É um pau da treta ou um tetra-pau, como queiram: porque o Liverpool joga em casa, ganhara a Taça de Inglaterra na semana anterior, num épico 3-2 sobre o arqui-rival Everton, recuperou 15 pontos de atraso na segunda volta e é a melhor equipa da ilha desde o início dessa década, com Grobbelaar, Nicol, Whelan, Hansen, Aldridge, Rush, Barnes e McMahon.

Na vida ficcional, o caso é mais grave ainda. Na opinião de Paul Ashworth (Colin Firth), um fanático adepto do Arsenal encontrar o amor é menos importante do que a sua equipa ganhar o campeonato ao fim de 18 anos. De repente, Paul encontra Sarah Hughes (Ruth Gemmell) e tudo parece possível. Pelo menos, até que o Arsenal comece a perder pontos. Aí, Sarah percebe que está sozinha a competir com a equipa inteira do Arsenal. Quem vai ganhar? Aqui sim, é um pau de dois bicos. Ela ou o Arsenal?, pergunta-se Paul, visivelmente mais interessado no campeonato do que na relação. Eu ou o Arsenal?, questiona-se Sarah, surpreendida por se ver no meio desta encruzilhada.

Ora surpreendida por ver Paul a usar boxers do Arsenal (“estás a pensar mostrar isso a outro ser humano?”), ora surpreendida pela filosofia do adepto quando diz que “o futebol é só um jogo” (DON’T SAY THAT! Se faz favor! É a pior, a mais estúpida coisa que qualquer pessoa pode dizer! Porque claramente que o futebol não ‘é só um jogo’. Quero dizer, se assim fosse, eu importar-me-ia assim tanto? Hã? 18 anos! De-zoi-to anos! Sabes o que querias há 18 anos? Ou dez? Ou cinco? Querias ser professor na nossa escola? Duvido muito. Eu duvido que queiras uma coisa assim há tanto tempo. E mesmo que quisesses e passasses três meses a pensar que finalmente, FINALMENTE, ias ter o que querias e essa coisa te fosse privada... quero dizer, nem quero saber o que é, um carro, um trabalho, um Oscar, um bebé... aí entenderias como me sinto esta noite. Mas tu não sabes, por isso...)

Tudo depende do tal Liverpool-Arsenal. Ao intervalo, 0-0. “Eu sabia…”, lamenta Paul, ancorado no seu pessimismo, à porta de sua casa, em pé sem tirar os olhos do monitor. “Sabias o quê? Está 0-0 ao intervalo. Ainda há hipótese de ganhar 2-0”, argumenta Steve, o seu inseparável buddie do Arsenal, sentado no sofá, à frente da televisão. “Hey, acorda para o mundo real. Está 0-0”, contra-ataca Paul, às voltas na sala, e na cabeça. “No mundo real, Paul, está 0-0. É melhor assim do que estar a perder.”

Aos 52 minutos, golo de Alan Smith, 0-1. Paul continua de pé, e não muito convencido. “É mesmo típico do Arsenal... Marcar o primeiro golo para dar esperança e depois não chega lá, ao objectivo.” Steve responde sem se chatear por aí além: “O quê? Queres que o Arsenal marque o segundo antes do primeiro?”

Minuto 90. É preciso mais um para o Arsenal mas o Liverpool troca a bola na sua defesa e os atrasos para o guarda-redes ainda valem. Sarah estava numa festa de despedida das suas alunas (ah pois, é verdade, ela é professora, daquelas metódicas e rigorosas, resumindo: pain in the ass) e recebe um presente entregue pela chefe de turma, que a compara a George Graham, treinador do Arsenal, como metódico e rigoroso. Ali, dá-se o primeiro click. Sarah abandona a festa e vai de táxi para casa de Paul. Toca-lhe à porta. Minuto 90, insistimos. Toca-lhe outra vez à porta. Minuto 90 e tal. Toca-lhe novamente à porta. Paul não aguenta a tensão, abre a janela e grita sem ver quem está lá em baixo. “Will you please, please, please, please, please, please just fucking FUCK OFF? Chegaste nos 60 segundos mais importantes da minha vida e não te quero ver” A janela fecha-se, a câmara mostra a desanimada Sarah à porta e Paul vira-se para Steve: “Que retardado faria isto? Só se fosse um alien do plantel Tharg, mas mesmo assim tinha de ser muito retardado...” Apercebe-se de alguma coisa e sai porta fora. É o segundo click, enquanto Steve lhe diz em voz alta: “Onde vais? Podes perder alguma coisa importante”. Quando chega à porta do prédio, já ninguém está lá.

Paul volta então a subir as escadas atabalhoadamente. É quando Lee Dixon lança Alan Smith e este encontra Michael Thomas a correr pelo meio. Ganha o ressalto a Nicol e isola-se, Steve chama desesperadamente Paul, sem desviar os olhos da televisão. Michael Thomas entra na área do Liverpool, Paul entra em casa, Thomas dá um toque na bola, Paul atira-se para o sofá, Thomas passa a bola subtilmente por cima de Grobbelaar, Paul e Steve caem no chão, em delírio. É goooooooooooooal! O mundo cai. O real (jogadores do Arsenal a festejar no chão) e o ficcional. Quem não vibrar, rir, vibrar novamente e dobrar o riso, esqueça. Não gosta de futebol nem é humano. Ou não gosta de futebol nem de cinema. Ou não gosta de futebol... Bem, não gosta de futebol.

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