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Conta-me como foi da bola. Um Benfica-Sporting sem alma
Desporto 6 min. 25.07.2020

Conta-me como foi da bola. Um Benfica-Sporting sem alma

Conta-me como foi da bola. Um Benfica-Sporting sem alma

Foto: Lusa
Desporto 6 min. 25.07.2020

Conta-me como foi da bola. Um Benfica-Sporting sem alma

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
À falta de emoção, honra e glória, cabe-nos alegrar a malta e relembrar três dérbis cheios de faísca.

 Tristeza pura. Com o título de campeão já entregue (e bem) ao FC Porto, o dérbi do próximo fim-de-semana só serve para cumprir calendário. Quer dizer, o Sporting ainda tem uma palavra a dizer sobre o terceiro lugar, em acesa discussão com o Braga. De resto, é tudo uma pobreza franciscana. Vai daí, enchemo-nos de brio e escolhemos três dérbis do best, daqueles que nos transportam facilmente no tempo.

O primeiro é de 1987, o ano dos 7-1 em Alvalade. Quatro golos de Manuel Fernandes, dois de Mário Jorge e um de Meade controem o resultado mais desnivelado de sempre nos dérbis em Alvalade, ainda na primeira volta. O Benfica, goleado, continua líder. E traumatizado? Trauma? Essa é boa, qual trauma, qual quê! O Benfica pós 7-1 de Alvalade nunca mais perde até ao final da época, num dos mais impressionantes registos de que há memória. Em 23 jogos, a equipa do inglês John Mortimore acumula 16 vitórias, sete empates e um imparável 50-11 em golos.

Como se fosse pouco, sagra-se campeão nacional na penúltima jornada. Adivinhe com quem. Ah pois é, Sporting. A 24 Maio 1987, um FC Porto mais preocupado com a final da Taça dos Campeões (2-1 ao Bayern em Viena) perde em Portimão com o Farense, golo do espanhol Paco Fortes, e disso se aproveita o Benfica para festejar condignamente o título, com uma vitória a condizer. Não é 7-1, basta 2-1. Golos de Chiquinho Carlos (17’) e Nunes (25’) contra o de Mário Jorge (70’). “A gente não tem a melhor equipa, nem o melhor plantel, mas somos os campeões. Bem feita!”, brindam Carlos Manuel e Diamantino, entre algumas garrafas de cerveja e copos de champanhe.

Como se fosse pouco (parte 2), o Benfica consegue ainda melhorar o final de época com uma dobradinha. À conquista do campeonato, o levantamento do peso com a Taça de Portugal. Adivinhe com quem. Ah pois é, Sporting. O herói desse dia 7 de Junho de 1987 no Jamor é o número 11, Diamantino. Não só marca o 1-0, na transformação exímia de um livre directo (Damas dá ares de Schmeichel e coloca-se atrás da barreira), como também assinala o 2-0, numa brilhante jogada individual em que passa por Venâncio e Virgílio antes de bater Damas. Sim, Marlon ainda desconta mas de nada vale, o 2-1 é o resultado final. Ganha o Benfica, celebra o Benfica. No Jamor, onde a festa tem mais cor. Na entrega do troféu, ainda é costume o capitão dos vencidos acompanhar o dos vencedores. Vai daí, Manuel Fernandes sobe as escadas ao lado de Shéu.

Viajamos até 1995. À velocidade da Luz. É dia de dérbi. Segunda volta do campeonato. Preud’homme erra aos 10’ (e só um artista como Balakov o apanha desprevenido). Marco Aurélio e João Vieira Pinto saem lesionados aos 21’ – atenção, o Benfica esgota aí as substituições (que, na altura, são só duas) porque Artur Jorge já tirara Abel Xavier por opção (entra Edilson aos 18’), numa altura em que já há 2-0 na Luz, com golos búlgaros – além do chapéu de Bala, um tiraço de Iordanov de fora da área. Mas que raio?!

Pois, é mesmo uma noite especial. Que não fica célebre por isso. Nem pelo goflo de Dimas. Nem pelo resultado final (2-1 para o Sporting). Para a história desse dérbi, só mesmo a expulsão de Caniggia, por ordem do árbitro Jorge Coroado. Aos 80 minutos. Tudo começa com uma falta duríssima de Sá Pinto sobre Tavares, perto da área do Sporting. Coroado assinala falta e gera-se o enésimo sururu. Às tantas Caniggia mete-se com Sá Pinto e é aí que Coroado intervém. “A ideia é dar um amarelo a cada, mas o Caniggia insulta-me. Chama-me ‘filho da p*t*’ e manda-me para a ‘p*t* que te pariu’. Dei-lhe o amarelo. Depois ouvi isso e dei-lhe vermelho directo. O que as pessoas pensaram foi que eu me tinha enganado. Que eu julgava que ele já tinha amarelo e portanto foi segundo amarelo. Nada disso. Foi amarelo, o primeiro dele naquele jogo, e depois o vermelho directo, porque não aceito insultos de ninguém. Em português ou em castelhano.”

Há pessoas a discordar. Pessoas pseudo-poderosas. E isso até motiva um inquérito a Coroado mais um jogo de repetição (2-0 para o Benfica, bis de Edilson, no Restelo, a 14 Junho), promovido pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e anulado pela FIFA. “É como lhe digo: já se passaram tantos anos que ainda nem sei se hei-de rir ou de chorar. Que processo kafkiano”, recorda Coroado. Mantém-se então o 2-1 para o Sporting de Carlos Queiroz. E qual o resultado do dérbi anterior? Um-zero em Alvalade, golo de Amunike. Duas vitórias seguidas do Sporting ao Benfica? Uau. Eternamente recordado como o treinador da substituição Paulo Torres-Pacheco na tarde dos 6-3, Carlos Queiroz tem afinal o seu lugar na história de Benfica-Sporting.

Acabamos em 2000. A ressaca é enorme. O Sporting de Inácio é campeão in extremis, em Vidal Pinheiro (4-0 vs Salgueiros), e ao fim de 18 anos. A seca é intensamente regada com cerveja, champanhe e tudo o mais. Na época seguinte, já depois de um Verão intenso (Euro 2000, Jogos Olímpicos, Figo e JVP), o Sporting quer o bis. Só que não. À terceira jornada, tauuuu, 2-1 em Braga. À oitava, tauuuu, 1-0 do Porto em Alvalade. Dá Pena.

E o Benfica? Pior está. Ou melhor, pior estará. A época 2000-01 é a pior de sempre, com três treinadores (começa Jupp Heynckes, prossegue José Mourinho e conclui Toni). É uma intranquilidade constante, do princípio ao fim, a resultar num desprestigiante sexto lugar, que lhe tira a possibilidade de participar nas competições europeias pela primeira vez desde 1959-60. A confusão estala na quarta jornada. Heynckes ganha 2-1 ao Estrela e mesmo assim vê lenços brancos.

Irritado com a atitude dos adeptos, o alemão bate com a porta e provoca uma minicrise. O presidente procura um sucessor e lembra-se de Toni. A reunião é inconclusiva. Vale e Azevedo não espera pelo dia seguinte e informa o assessor Eládio Paramés da necessidade de acelerar o assunto. Trim triiiim, o telefone toca. O de Mourinho, de férias em Setúbal. Dali à casa de Álvaro Braga Júnior é um instante. Já de madrugada, Mourinho encontra-se com o presidente do Benfica, no escritório deste, para selar o acordo. Toni já está fora da jogada e o entendimento é obra de segundos.

A forte empatia entre presidente e técnico faz milagres e Mourinho regressa a casa, altas horas da manhã, como treinador do Benfica. Três meses depois, o dérbi na Luz com Mourinho de um lado e Inácio do outro. A separá-los, cinco pontos. Na altura (3 Dezembro 2000), Sporting em 2.º com 26, Benfica em 6.º com 21. Acaba 3-0. Van Hooijdonk, de penálti, e bis de João Tomás. Acredite se quiser, nem Mourinho é treinador do Benfica nem Inácio do Sporting no dia seguinte. Que loucura. 

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