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Conta-me como foi da bola. Racismo, a palavra maldita (e a acção condenável)
Desporto 11 min. 15.05.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Racismo, a palavra maldita (e a acção condenável)

Conta-me como foi da bola. Racismo, a palavra maldita (e a acção condenável)

Desporto 11 min. 15.05.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Racismo, a palavra maldita (e a acção condenável)

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Desde Branco até Espírito Santo, um rol de histórias indescritíveis sobre a tragédia do absurdo infelizmente comum.

Racismo, aí está uma palavra carregada de sentimento. Ainda e sempre na ordem do dia. Infelizmente. É uma tristeza. Dá dó, na verdade. Dá dó avançar no tempo, e falamos de anos, décadas, até séculos, e perceber a teimosia da palavra racismo. Teimosia em acompanhar-nos numa base diária, racismo para aqui, racismo para ali. Indescritível. Há racismo em todo o lado e há de tudo um pouco.

E vale para tudo. Sobretudo para o mal, embora também existam exemplos graciosos, como o de Cláudio Vaz Ibrahim Leal. Quem? Dito assim ninguém o conhece. Se dissermos Branco, o caso muda de figura. É a sua alcunha, o nome pelo qual se torna famoso em todo o mundo, sobretudo depois de ganhar dois títulos pela selecção brasileira (Copa América-89, Mundial-94). E mais dois no Porto (Campeonato-1990 e Supertaça-1991). Contratado ao Brescia, o lateral-esquerdo chega às Antas no Verão 1988 e é lançado por Quinito, em Guimarães, no mesmo dia de Vítor Baía. Curiosamente (ou não), os dois têm estátuas no museu como parte do onze ideal na centenária história do clube. Branco, porquê? “Comecei a jogar futebol  nas ruas de Bagé, mais precisamente na Rua Valdemar Machado. Como Bagé pertence ao estado do Rio Grande do Sul, fazia constantemente um frio danado. Por isso tinha de entrar num pavilhão. Aí entrei num clube chamado Aimoré, de futebol de salão. Na minha equipa de cinco, tinha eu e mais quatro negros. Ainda hoje todo o mundo me trata por Branco quando me vê na rua.”

Branco, é bem. Toma lá uma lição de boa disposição. Vamos agora para a parte má, a tal indescritível. Nascido em Folkestone em 1888, a 28 Abril, Tull é filho de um carpinteiro dos Barbados e de uma empregada inglesa. Aos nove anos de idade, os seus pais morrem e é recambiado para um orfanato, na companhia do irmão Edward, em Bethnal Green. Se Edward é adoptado por uma família escocesa e mais tarde torna-se dentista, Walter mantém-se órfão até idade adulta. Por isso mesmo, é jogador e capitão da equipa de futebol. Em 1908, com 20 anos de idade, ganha um lugar no Clapton FC. Menos de três meses depois, já é titular, ganha três troféus (a Taça Amadora da Federação Inglesa, a Taça Amadora de Londres e a Taça de Londres) e é o jogador da semana para o jornal Football Star, em março 1909. Assina pelo Tottenham, onde se consagra como primeiro negro a marcar um golo na liga inglesa.

 O problema é ao sétimo jogo, em Bristol, onde os adeptos da casa insultam-no gravemente. Escuro é o impropério mais “simpático” e os jornalistas condenam este acto. Um deles chama o ataque de cobarde. “A linguagem é mais baixa que Billingsgate”, numa alusão ao mercado do peixe em Bristol. Um outro escreve com alma e coração: “Deixem-me dizer-vos, ó hooligans de Bristol City, que Tull é tão limpo de cabeça e de método como qualquer homem branco que vos sirva de modelo no futebol profissional ou amador. Em habilidade, Tull é o melhor avançado da liga.”

 O Tottenham afasta Tull, com medo de futuras confusões nos jogos fora, iguais às de Bristol, e Walter não se preocupa em jogar apenas nas reservas. Afinal, o orfanato dera-lhe uma bagagem para aguentar estes episódios sem sentido. Em outubro 1911, o Northampton Town contrata Tull e este marca uma época de sucesso (nove golos em 111 partidas), ao lado de Herbert Chapman, o treinador de equipa, mais tarde conhecido como o mestre da táctica pelos cinco títulos de campeão inglês no Arsenal dos anos 20.

Em 1914, o Rangers contacta Tull no sentido de lhe comprar passe. O avançado número 9 do Northampton aceita a proposta para viver em Glasgow, na mesma cidade que o irmão Edward. Tal nunca chega a acontecer porque rebenta a 1.ª Guerra Mundial e Walter Tull inscreve-se como soldado. O seu pedido é aceite e é o primeiro oficial negro no exército britânico numa altura em que as leis são explícitas e racistas (“nenhum negro ou pessoa de cor”). Depressa sobe na hierarquia militar. Chega a segundo tenente, admirado por todos, e entra em seis grandes batalhas como líder do batalhão vencedor. Luta em França, na Escócia e em Itália. É nomeado oficial e volta a França, onde morre em pleno campo de batalha a 25 março pelas metralhadoras alemãs, em Pas De Calais, com um tiro no pescoço e outro no olho direito.

Em Glasgow, três dias depois, o seu irmão Edward recebe uma carta do comandante de Walter: “O batalhão e a companhia perderam um oficial generoso e divertido; eu perdi um amigo.” Ao contrário dos adeptos do Bristol City, o exército inglês não distingue os homens pela cor. Por essa razão, e muitas mais, o Comité Olímpico de Inglaterra faz um filme sobre a história de Walter Tull em 2012, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Londres. A cidade onde Tull experimenta a dolorosa indiferença. A dele em relação ao medo do Tottenham e ao racismo dos outros.

Saltamos para a América do Sul. Na Guerra do Paraguai (1865-1870), Argentina e Brasil mais o Uruguai formam a Tríplice Aliança para combater contra o Paraguai de Solano López. Nesses cinco anos, os soldados argentinos e os escravos brasileiros lutam lado a lado, com uma nuance incomodativa: mandatados pelo império, os escravos brasileiros são sistematicamente ofendidos pelos soldados argentinos.

Da guerra para o futebol, o desentendimento entre argentinos e brasileiros é um passo. Estamos a 12 outubro 1920, e o jornal argentino "La Crónica" escreve sobre o particular entre os dois países com uma ilustração provocativa "Monos em Buenos Aires" (Macacos em Buenos Aires). O texto é assinado por Antonio Palacio Zino, enviado especial do mesmo jornal à Copa América 1919, no Brasil, e o responsável por ter pegado fogo a um rastilho que nunca mais se apaga. Diz ele o seguinte: "E cá estão os macaquinhos em terras argentinas [...] No Carnaval, as mulheres abrem-se e os maridos vão para a festa, como lhes dá vontade. É por isso que, cada vez que nasce uma criança, o casal tenta descobrir com qual vizinho se parece [...] A uma hora e meia da [então] bela capital brasileira [Rio de Janeiro], gente inocente é degolada, assaltos sem medo e é latente a escravidão em suas nuances mais selvagens."Horas antes do jogo, o jornalista argentino tem o desplante de visitar o hotel onde está hospedado o Brasil. É agredido pelo capitão Sisson e outros querem seguir-lhe os passos (e sopapos). Em vão. Na hora de entrar em campo, só seis jogadores aceitam participar no jogo. Todos os outros recusam como protesto, o que é naturalmente aceite pelos companheiros. A esses seis, juntam-se quatro argentinos (Balgorri, Rosado, Solari e Castro). Como é lógico, nenhum dos 3 mil espectadores convivem bem com essa situação e há mesmo ameaça de invasão de campo. O jogo é interrompido pelo árbitro por distúrbios nas bancadas. Os adeptos argentinos simplesmente não querem quatro compatriotas a jogar pelos "outros". Então, a Argentina compromete-se a alinhar só com sete jogadores, tantos quanto o Brasil, com o guarda-redes suplente Kuntz a defesa-central. Sem mais incidentes, a Argentina ganha 3-1 naquele que terá sido o último encontro dito amistoso. Desde esse dia diz-se "particulares".

Ainda 1919, ainda Brasil. Chama-se Epitácio Pessoa, é Presidente da República e assina uma lei federal a proibir a convocatória de jogadores negros ou mulatos para a selecção brasileira. Porquê? Para evitar dar uma imagem negativa do país. A curiosidade reside no facto de o Brasil ter ganhado a Copa América desse ano de 1919, com um golo de Friedenreich, um avançado matulão e uma referência incontornável desses tempos. E até os de agora. Como goleador exímio, mais de mil golos oficiosos numa carreira longa. E gloriosa. Na tal final da Copa América 1919, o Brasil conquista a taça aos 125 minutos, vs Uruguai. As botas desse dia viajam para uma loja de joias raras no Rio de Janeiro e imortalizam a lenda, já de si gigante. Pormenor: Friedenreich é mestiço, filho de pai alemão (comerciante) e mãe brasileira (professora).

Por culpa da lei federal de Epitácio, o nome de Friedenreich cai das convocatórias da selecção brasileira até 1922, ano em que o seu clube (Paulistano) faz uma digressão pela Europa e regressa sem qualquer derrota. A epopeia é seguida com entusiasmo por todos os brasileiros, ansiosos por rever o goleador na selecção. O governo lá aceita rever a lei e muda-a, ainda a tempo (ele há coincidências) da Copa América. Ganha por quem? Brasil, lá está.

Passam-se quase 100 anos, aterrámos em 2014. Um século de vida. Evolução? Qual quê. Donald Sterling, dono desde 1991 da equipa de basquetebol Los Angeles Clippers, é apanhado numa gravação divulgada pelo site TMZ a insugir-se ao telefone contra a namorada mexicana Stiviano pela publicação de uma foto com Magic Johnson na sua conta do Instagram.

-- Incomoda-me que querias transmitir a tua ligação aos negros. Precisas de fazer isso?

-- Tu estás associado a muitos negros, vê lá a tua equipa [o cinco base mais o treinador Doc Rivers]

-- Tu não és como eu e eu não sou como tu. É suposto seres uma rapariga branca delicada ou latina delicada.

-- Sou mestiça e tu amas-me. Sou negra e mexicana, quer gostes quer não.

-- Podes dormir com eles, podes fazer o que quiseres. A única coisa que te peço é que não os promovas nem os leves aos meus jogos.

A notícia rebenta por todos os lados e até chega ao Presidente. Esse mesmo, Barack Obama em directo da Malásia. “Quando um ignorante fala para demonstrar a sua ignorância, não podemos fazer nada, só deixá-lo falar.”

No outro lado do Atlântico, outro autogolo do racismo durante o Villarreal-Barcelona. Aos 77 minutos, antes da marcação de um canto, uma banana vai parar aos pés de Daniel Alves. O lateral brasileiro descasca a banana e dá uma trinca. Só depois é que se abalança para o canto. O acto é amplamente apoiado por todos. Lineker, Neymar, Dilma, Hulk, Roberto Carlos, Adebayor, Mertens, Paulinho, Agüero, Marta, Fernandinho, Oscar, David Luiz, Willian e Guardiola. E o Daniel Alves? “Estou há 11 anos em Espanha e há 11 anos que é igual. Tenho de me rir destes atrasados. Não vamos conseguir mudar isto, temos de levar como uma piada e rir-nos destes atrasados.” Stop para respirar e toma lá disto. “O meu pai sempre me disse que as bananas são boas para evitar cãibras.”

Em Portugal, o primeiro grande caso dá-se com Espírito Santo. Chamam-lhe a “pérola negra.” Oriundo de Angola, chega a Portugal em 1936, com a missão (complicada) de substituir o goleador Vítor Silva. Felino e ágil, Espírito Santo encaixa no esquema do Benfica e depressa se percebe a sua vocação para o desporto em geral. Em 1940, por exemplo, durante um treino do Benfica, a bola vai parar à pista de atletismo. Despreocupado, salta um obstáculo no meio do caminho e recupera a bola perante a estupefacção geral. Acabara de pular 1,70 metros em altura, algo que ninguém conseguira fazer até essa tarde. É mesmo um atleta de eleição, recordista do salto em altura (1,88 m, marca batida apenas em 1960, vinte anos depois), campeão nacional de comprimento e triplo salto. Tudo isto aliado a um comportamento exemplar – razão pela qual é condecorado pelo Comité Olímpico Internacional, em 1999, com o prémio fair play.

No plano futebolístico, Espírito Santo ficará para sempre conhecido como o jogador benfiquista com mais golos num jogo oficial: nove nos 13-1 ao Casa Pia, a 5 de Dezembro de 1937. Até o grande Peyroteo, fura-redes do Sporting e seu amigo em Angola, o elogia nas suas memórias: “Espírito Santo joga futebol muito melhor do que eu.” Isto é Espírito Santo, o primeiro negro a jogar pela selecção portuguesa. É já nessa condição de internacional AA que é personagem principal de um episódio infeliz na Madeira, onde o Benfica fora actuar a título particular. A comitiva viaja de barco e hospeda-se num hotel na véspera do jogo com o Marítimo. Qual não é o espanto quando todos os jogadores recebem a chave do quarto menos Espírito Santo. Para ele, a chave do anexo. Os benfiquistas protestam ruidosamente e, conta a história, abdicam dos quartos para passar a noite com Espírito Santo no anexo.


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