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Conta-me como foi da bola. Puskás a caminho do Manchester United
Desporto 4 min. 07.08.2020

Conta-me como foi da bola. Puskás a caminho do Manchester United

Conta-me como foi da bola. Puskás a caminho do Manchester United

Foto: AP
Desporto 4 min. 07.08.2020

Conta-me como foi da bola. Puskás a caminho do Manchester United

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O gesto nobre do húngaro na ressaca do acidente aéreo em 1958.

Pequeno e atarracado, gordito e sem estilo. Além de pentear o cabelo com gel para trás, como um cantor de tango, veste-se com uma deselegância tal que mais parece um empregado de bar dos arredores de Budapeste. Dentro de campo, com a bola nos pés, é uma referência mundial, o Major Galopante para os amigos, numa alusão à sua patente no exército. Nasce Ferenc Purczeld em 1927 e muda o nome, de origem alemã, durante a 2.ª Guerra, por ideia do seu pai, então treinador do Honvéd. É também Miklos Kovacs, nome falso para poder jogar futebol em escalões superiores a partir dos 12 anos de idade. E em 1937 acaba por ser Puskás (significa espingarda em húngaro).

 Começa por ser apanha-bolas até se tornar jogador do clube, ao lado ao amigo de infância Bozsik, futuro patrão do meio-campo da Hungria. Aos 16 anos já é titular do Honvéd, aos 18 internacional húngaro. E não é uma Hungria qualquer. Trata-se da Aranycsapat, a Hungria de sonho que encanta a Europa e até a Inglaterra (6-3 em Wembley, 7-1 em Budapeste, na desforra). Vence os Jogos Olímpicos Helsínquia-52 e chega à final do Mundial-54, com o seu jogo inovador e envolvente, baseado no WM, tradicional na defesa e revolucionário no ataque. Puskás é o mais brilhante intérprete. E o mais naif.

 Numa excursão ao Egipto, os companheiros de Puskás do Honvéd vêem-no a olhar para uma banana como se fosse um ET e pregam-lhe uma partida. “Naquela época, não havia bananas na Hungria. No pequeno-almoço, vi aquele fruto esquisito, agarrei nele e não sabia como comê-lo. Então vi o pessoal a comer a banana com casca. Pensava eu... Eles estavam a fingir. Mas eu comi com casca porque julgava que era assim. Soube-me mal.” Pudera... Com casca é menos saboroso. É quatro vezes o melhor marcador do campeonato húngaro e mais quatro na liga espanhola, ao serviço do Real Madrid, a primeira das vezes na época de estreia, aos 31 anos de idade. Aí, em 1959-60, marca 26 golos. Mais nove na Taça do General, 12 na Taça dos Campeões e dois na Taça Intercontinental. Dá os tais 49, um recorde inquebrável até chegar a dupla Ronaldo e Messi.

 A sua vida é um livro. Meeesmo. Diz ele de sua justiça. “Costumávamos ser nove rapazes a jogar futebol na rua. Geralmente, fazíamos cinco contra quatro. A equipa de quatro tinham os dois jogadores mais fortes e os dois mais fracos. Entretíamo-nos a jogar o dia todo, descalços e com uma bola de trapos, feita de meias e roupas interiores. Jogámos ali perto do estádio do Kispset Honved. Um dia, o homem do talho aproximou-se de nós. Ficámos a tremer. Todos, sem excepção. Uma semana antes, tinhamos vendido o gato dele para pagar a entrada num torneio local e ainda lhe tínhamos partido acidentalmente o vidro do talho. O que é que ele quereria falar connosco? E perguntou-nos ‘quem é o vosso capitão?’ Os meus amigos recuaram todos e deixaram-me sozinho. Definido à pressa o meu novo estatuto de líder, o tio Rudi, que era como o chamávamos, lançou-nos o desafio de fazer um jogo à frente dele. ‘O lado vencedor ganha umas salsichas’. Nunca comi tão bem”

 É só rir. Adiante. “O meu primeiro jogo num torneio a sério foi de emoções mistas. Ao intervalo, estávamos a perder e eu soluçava, inconsolável. Não queria acreditar naquilo, estávamos a jogar mal como nunca. Foi também o dia em que calcei as primeiras chuteiras e aquilo atrapalhava-me. Preferia jogar descalço, só que o regulamento não permitia esse tipo de desvarios. Na segunda parte, marcámos cinco golos e ganhámos 6-4. Com o passar do tempo, aprendi o valor da derrota, mas que custou, ai isso custou”

 E a velocidade? “Quando era novo, a velocidade não era o meu forte. Não o sabia, claro. Foi o meu treinador Nandi quem mo disse. Lembro-me bem das suas palavras: ‘Ocsi, rapaz, corres muito devagar. Tão devagar que um engraxador consegue pôr-te as chuteiras a brilhar antes de completares dois passos seguidos’. Isso fez-me acordar para a vida e comecei a correr em qualquer situação. Se estivesse na escola, iria de uma esquina até à outra a tentar bater o recorde da velocidade. Se estivesse na rua, iria de uma árvore até à outra. Comecei a exigir mais e mais de mim.” E de que maneira, Puskás é uma referência incontornável e só esta semana é que me apercebo de uma nuance inacreditável.

 Quando o avião do Manchester United despenha-se em Munique (1958) e colhe a vida de oito jogadores do plantel principal, Puskás candidata-se a jogar por eles. O gesto é sentido, em Manchester, em toda a Inglaterra e em todo o mundo. Só que a barreira do inglês (que banana) impede-o de seguir em frente. Vai para o Real Madrid, onde também faz pela vida. Diz dele o seu fiel companheiro Alfredo di Stéfano. “Ah, Puskas. Irritava-me algumas vezes, e gritava-lhe, porque ele podia ser mais profissional, mas então ele dizia algo ou fazia algo e ficavas enamorado dele outra vez. Tinha uma genialidade que, por vezes, parecia fantasia. Fazia golos impossíveis. Foi um presente para o futebol.” Ainda hoje o único candidato recusado no United. E também o único autor de um hat-trick numa final perdida da Taça dos Campeões (Benfica 5:3 Real Madrid).

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