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Conta-me como foi da bola. Portugal, campeão europeu de juniores em 1961
Desporto 5 min. 09.04.2021

Conta-me como foi da bola. Portugal, campeão europeu de juniores em 1961

Conta-me como foi da bola. Portugal, campeão europeu de juniores em 1961

Foto: Arquivo Lusa
Desporto 5 min. 09.04.2021

Conta-me como foi da bola. Portugal, campeão europeu de juniores em 1961

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
É a primeira grande conquista do nosso país, um mês antes da epopeia do Benfica na Taça dos Campeões.

Há génios, em talento e feitio. Como Pedroto. Futebolista de créditos firmados em Portugal, primeiro pelo Belenenses, onde chega à selecção, depois pelo Porto, onde ganha dois títulos de campeão, José Maria diz adeus aos relvados em 1960 com 30 anos de idade e abraça a carreira de treinador.

Inscreve-se num curso de treinador promovido pela federação francesa de futebol e, no fim das aulas, é considerado o melhor estrangeiro, e com nota máxima. Com o diploma na mão, Pedroto embarca na aventura que só terminará em 1984. O seu primeiro trabalho é a selecção nacional de juniores, apurada para a fase final da 7.ª edição do Europeu, a decorrer em Portugal. Inicialmente há 16 equipas envolvidas. Escrevemos inicialmente, porque três (Jugos- lávia, RDA e Hungria) desistem. Daí que o torneio esteja coxo, com apenas 13 selecções, divididas em quatro grupos. O sorteio da UEFA dita Portugal no grupo A, com Itália, Inglaterra e Jugoslávia. O treinador de campo, José Maria Pedroto, chefiado pelo seleccionador David Sequerra, jornalista do “Mundo Desportivo”, um dos três jornais desportivos portugueses de então, juntamente com “A Bola” e “Record”, convoca 22 jogadores.

Foto: Arquivo Lusa

A lista inclui figuras de muitos clubes, uns até do arco da velha como Leões de Santarém (Tito) e Sanjoanense (Calhau). O Benfica é o mais presente com cinco ilustres: o guarda-redes Melo, os laterais Amândio e Nogueira, o interior Jorge Lopes e o extremo Simões. É precisamente este último o autor do primeiro golo desta campanha e por ter sido aquele com mais carreira, tanto no clube como na selecção. “O nosso estágio foi ali para os lados de Carcavelos, está a ver? Um dia, naquelas brincadeiras de adolescentes, trancaram-me na varanda. Além desse problema, havia outro: eu estava nu, completamente nu. E eles [companheiros de Simões], do lado do quarto, a gozarem com a minha figura. Então eu empurrei a janela e parti-a. Rasguei parcialmente três dedos da mão direita e joguei todo o Europeu com uma ligadura enorme, o que dificultava imenso as quedas no relvado, provocadas por faltas ou escorregadelas. A sorte é que quando se é jovem, a capacidade de reação é maior e esquiva-se mais facilmente aos perigos. Ainda hoje tenho a marca dessas lesões na mão direita. E ainda hoje tenho presente a descompostura do Pedroto. Foi cá um raspanete! Todos ouviram, incluindo eu, a vítima.”

A estreia é vs Itália, nas Antas, a 30 Março 1961. Com arbitragem do holandês Roomer, a equipa nacional alinha com Rui; Amândio e Nogueira; Carriço, Manuel Rodrigues e Oliveira Duarte; Crispim (cap), Nunes, Jorge Lopes, Serafim e Simões. E não se sai do 0-0. Dois dias depois, a 2 Abril 1961, uma lição de alto nível com 4:0 vs Inglaterra sob a arbitragem do alemão Tschenscher. Aqui, Pedroto faz duas alterações em relação ao jogo anterior, com as saídas de Manuel Rodrigues e Jorge Lopes para as entradas de Manuel Moreira e Peres. Este último puxa Simões para interior-esquerdo e é este quem marca o 1-0. “Acho que foi um remate com o pé esquerdo, de fora da área, muito parecido com aquele que marquei ao Real Madrid em 1965, nos 5-1 na Luz.” Segue-se Nunes. E depois o bis de Serafim.

A qualificação para as meias-finais como vencedor do grupo só será carimbada se a Itália não ganhar por mais de quatro à Inglaterra, o que efectivamente acontece (3-2). Assim, há Portugal vs Espanha em Alvalade, no dia 6 Abril. O treinador Pedroto faz regressar Jorge Lopes, para o lugar de Nunes. O teste é ultrapassado com distinção, com um 4:1 sem apelo nem agravo. O capitão dá o exemplo e marca, 1:0 por Crispim. Depois, o alferes Serafim segue-lhe os passos. Uma, duas, três vezes. Já tem cinco golos. Haverá mais de onde veio?

Abril, dia 8. Estádio da Luz, palco da decisão. Pela única vez no torneio, Pedroto não mexe no onze. Está bem assim. E está mesmo, 4:0 vs Polónia. Com quatro golos de Serafim, dois em cada parte. É a primeira grande conquista de Portugal nas selecções. Antes até do Benfica campeão europeu (31 Maio 1961). Parabéns a todos. É a festa do futebol português. Para a história, um retrato do onze base.

Na baliza, Rui nunca chega à selecção AA e só veste a camisola do FC Porto, entre 1961 e 1978. O lateral-direito Amândio ainda joga duas vezes no Benfica e até se estreia no mesmo dia que Eusébio (1 Junho 1961). O lateral-esquerdo Santos Nogueira também só faz dois jogos pelo Benfica, lançado por Bela Guttmann. No centro da defesa, Manuel Carriço (figura do Vitória FC europeu) e Manuel Moreira (figura do primeiro Leixões europeu, o de 1961-62). No meio-campo, Oliveira Duarte (campeão nacional da 1.ª divisão pelo Sporting em 1966 e da 2.ª pela Académica em 1973) e Crispim (como estudante à antiga, passa a vida em Coimbra).

O ataque inclui quatro elementos entre Jorge Lopes (sem espaço no Benfica, joga pouco na Académica e depois no Seixal), Simões (o mais credenciado de todos, com 46 internacionalizações), Peres (o esquerdino pé canhão, campeão português pelo Sporting em 1970 e brasileiro pelo Vasco da Gama em 1974) e, claro, o goleado Serafim. Nove golos em quatro jogos é obra. O fortíssimo ponta-de-lança é do Porto e contabiliza 40 golos em 80 jogos de 1960 até 1963. Transfere-se para o Benfica, onde acumula 19 golos em 44 jogos. Segue-se a Académica e ponto final a uma carreira com cinco internacionalizações AA.

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