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Conta-me como foi da bola. Porto campeão em ano bissexto sem Europeu
Desporto 5 min. 18.07.2020

Conta-me como foi da bola. Porto campeão em ano bissexto sem Europeu

Dorival Yustrich treinou o FC Porto na década de 50 com assinalável sucesso.

Conta-me como foi da bola. Porto campeão em ano bissexto sem Europeu

Dorival Yustrich treinou o FC Porto na década de 50 com assinalável sucesso.
Foto: Arquivo
Desporto 5 min. 18.07.2020

Conta-me como foi da bola. Porto campeão em ano bissexto sem Europeu

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Coincidências da vida, o Porto 1955-56 de Dorival Yustrich encontra paralelismos com o Porto 2019-20 de Sérgio Conceição.

É sempre a mesma coisa: em ano de Europeu, há Jogos Olímpicos. E em ano de Europeu e Jogos Olímpicos, o calendário estica um dia. Diz-se bissexto. Os dois (Europeu e Jogos Olímpicos) juntam-se em 1960 e convivem alegremente de braço dado até 2016. Então e 2020? Errrrrrrr, é o fungagá da bicharada.

Mesmo. O bicho ataca e o mundo fecha-se em copas. A UEFA adia o Euro por um ano, o COI faz o mesmo. Por isso, as perguntas impõem-se: qual é o último ano bissexto sem Euro nem Jogos Olímpicos? Mil-nove-e-cinquenta-e-seis. E o campeão nacional é? FC Porto. Como agora em 2020. Mais, o Porto de 1956 faz dobradinha (a primeira da sua história) e o Porto de 2020 também está envolvido na final da Taça de Portugal.

Campeão em título, o Benfica é convidado para o Mundialito em Caracas (Venezuela), juntamente com São Paulo, Valencia e o anfitrião La Salle. Duas vitórias, dois empates e um empate valem-lhe o insosso terceiro lugar. Insosso, essa é boa. Quando chega a Lisboa, há mais de 10 mil pessoas à espera do Benfica no aeroporto. O caminho até à sede do clube demora três horas, tal a desmedida euforia popular. Acto contínuo, o clube recebe um louvor do ministro da Educação e ainda uma taça do jornal ‘O Século’ pela participação digna.

Adiante, o Benfica de Otto Glória sonha com a repetição da época anterior: campeonato e Taça. Só que não. Culpa do Porto de Homão. Quem? Dorival Yustrich, um brasileiro mais conhecido por Homão pela figura hérculea (mais de 1,90 metros de altura) e pelo feitio irascível. Na verdade, chama-se Dorival Knipel. Só é Yustrich pelas semelhanças físicas com o guarda-redes argentino Juan Elias Yustrich, do Boca Juniors, nos anos 30/40.

A alcunha pega e Yustrich é o homem de quem se fala no Porto. Para começar, é contra jogadores fumadores e/ou cabeludos (um pré-Passarella, está bom de ver). Carvalho e Porcel, mui apreciados pela exigente massa associativa, dizem assim adeus à titularidade. Entram outros, de igual quilate. Como Jaburu, um brasileiro bom de bola e goleador até mais não, à conta de 22 golos em 23 jogos. Neste aspecto meramente estatístico, o benfiquista José Águas sai-se um pouco melhor, com 28 em 26.

Benfica Porto, Porto Benfica, então e o Sporting? Acredite se quiser, o Sporting acaba em quarto lugar, ultrapassado pelo Belenenses na última jornada do campeonato, com um golo de Matateu nas Salésias (2:1). À falta de títulos pelo segundo ano seguido, o Sporting passa por cima da seca com duas notícias estrondosas e amplamente aplaudidas pela imprensa nacional: a convocatória de Travassos para a Selecção da Europa e o convite da UEFA para marcar presença na edição inaugural da Taça dos Campeões Europeus.

A sucessão dos acontecimentos é até bastante rápida e começa em agosto, mais precisamente no dia 4. Está Travassos já de férias, de partida para as praias da Costa da Caparica, quando um telegrama lhe chega a casa. É a convocatória para o Inglaterra vs Europa em Belfast, a propósito das comemorações do Centenário da introdução oficial do futebol nas ilhas britânicas. Pela primeira vez, um jogador de Portugal faz parte de uma selecção europeia. Numa altura em que grandes equipas nacionais, como as da Hungria, Alemanha, França e Áustria, imperam na modalidade, a escolha de Travassos constitui tão inesperado quanto justo prémio para a perseverança do grande jogador do Sporting. No dia 13 agosto, após muito treino individual, Travassos entra com a camisola 10, a de interior-esquerdo, ao lado de tantas estrelas como Buffon (Itália), Van Brandt (Bélgica), Jonquet, Kopa, Vincent (França), Boskov e Vukas (Jugoslávia), Puskas (Hungria), Ocwirck (Áustria). A equipa europeia ganha por confortável 4:1 e Travassos é alcunhado de Zé da Europa. Para sempre.

Poucos dias depois, o jornal parisiense “L’Équipe” lança finalmente a ideia de uma prova continental e trata de escolher os 16 estreantes. O Sporting é um deles, apesar de ter sido o Benfica o campeão nacional. Como a história e o currículo do Sporting é ainda superior, o convite justifica-se. Coincidência das coincidências, o primeiro jogo da competição até envolve o Sporting, no Jamor. E se o resultado é um 3:3 vs Partizan Belgrado, o Sporting escreve o seu nome na lista de honra como autor do primeiro golo, através de João Martins, o sexto violino.

Portanto, Sporting em quarto e Belenenses em terceiro. Em segundo, Benfica. Em primeiro, Porto. Qual a diferença? Zero. Zero? Isso mesmo, zero pontos. Os dois acabam com 43. Uauuuuuuu. É decidido ao milímetro. Ou quase. Na altura, a primeira regra de desempate é o confronto directo. Nas Antas, 3:0 por Gastão, Jaburu e Teixeira. Na Luz, 1:1 por Teixeira e Águas. Esse 1:1 é à 21.ª jornada e o Porto mantém dois pontos de avanço sobre o Benfica. Uma semana depois, três pontos. O Porto goleia o Barreirense por 10:1 (e Jaburu ainda falha um penálti), o Benfica empata 2:2 nas Salésias. Uma semana depois, voltam aos dois pontos de distância. O Porto tropeça nas Caldas (3:3) e o Benfica aproveita, vs CUF (3:2). Tudo normal na 24.ª jornada, os dois ganham. Na 25.ª, a invencibilidade do Porto é interrompida. Um golo de Walter (Sporting) é o suficiente para animar o ambiente.

Faltam 90 minutos para o fim da 1.ª divisão e a expetativa é imensa. O Porto joga vs Académica, o Benfica vs Atlético. Ao intervalo, o Benfica é campeão (0:0 nas Antas, 0:3 na Tapadinha). No final, é o Porto. Um penálti de Hernâni e, depois, o bis de Teixeira tornam infrutífero o 1:4 em Alcântara. Por vantagem no confronto direto, o Porto sagra-se campeão nacional. Seguir-se-á a Taça de Portugal, conquistada um mês depois, a 27 Maio. No Jamor, 2:0 ao Torreense, 7.º classificado da 1.ª divisão. Bis de Hernâni. E bis de Yustrich. Que é demitido das suas funções. Precisamente pelos anticorpos criados durante uma época tensa. E duplamente vitoriosa.

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