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Conta-me como foi da bola. Os melhores discípulos do Pinóquio
Desporto 5 min. 02.04.2021

Conta-me como foi da bola. Os melhores discípulos do Pinóquio

Conta-me como foi da bola. Os melhores discípulos do Pinóquio

Foto: EPA
Desporto 5 min. 02.04.2021

Conta-me como foi da bola. Os melhores discípulos do Pinóquio

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Diego, Lance, Rosie, Joe, Ben e muitos, muitos outros entre os desportistas mentirosos mais fascinantes de sempre.

Carlo Collodi. Quem é este senhor? Não é, simplesmente. É uma invenção, uma mentira, vá. É o pseudónimo de Carlo Lorenzini, nascido na bela Florença em 1826. Faz-se jornalista. E escritor. Em 1881, cria o Pinóquio e escreve as suas aventuras para um jornal da terra. O boneco torna-se atração nacional em fevereiro 1883, com a publicação de um livro.

E quem é Pinóquio (pinocchio)? Um grande mentiroso. É um boneco de madeira cujo nariz cresce durante uma mentira. No 16.º capítulo, o primeiro indício. Ao mentir pela terceira vez, o seu nariz cresce mais e o pobre boneco não pode virar-se para onde seja. A fada olha e ri. ‘Estás a rir-te de quê?’ pergunta ele, a olhar para o nariz. ‘Estou a rir-me das tuas mentiras.’ Como sabes que é mentira? ‘Há dois tipos de mentiras: as de pernas curtas e as de nariz comprido. As tuas são do segundo tipo.’

Caabbbuuuummmmm, rebenta a bolha, a partir daqui o mundo nunca mais será o mesmo. E Pinóquio será conhecido em todo o lado como parte de uma mentira seja ela qual for. Uma mentira é uma mentira e vice-versa. E hoje, 1 de abril, fazemos um apanhado desportivo sobre os mais fascinantes casos da história. Antes disso, porquê o dia 1 de abril como o das mentiras? Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determina o 1 de janeiro como arranque do ano. Como muitos franceses resistem à mudança e continuam a seguir o calendário antigo, em que o 1 de abril é o primeiro dia do ano, são alvo de gozo por parte dos outros que os convidam para plaisanteries. E isso é? Uma festa inexistente.

Daí para a frente é um regabofe. Há mentiras bem curiosas, como aquela de Richard Nixon candidato a presidente dos EUA em 1992. Ou então a da invenção do hambúrguer para canhotos em 1998. No desporto, as mentiras sucedem-se umas atrás das outras. O Pinóquio com o maior nariz é Lance Armstrong. Ou será Carlos Kaiser Raposo. Quem? Durante mais de 20 anos, este “jogador” (ya, entre aspas) cria todo um personagem: engana clubes, cria golos, ilude adeptos e preenche currículos. E tudo da sua imaginação. Chamam-lhe o Forrest Gump.

Ei-lo. ‘nas décadas 80 e 90, ninguém sonhava com a internet. A informação era quase nula. Como era bem relacionado com grandes amigos no mundo do futebol e da comunicação social, eles pintavam um quadro irreal e eu levava o esquema ao máximo do absurdo.’ E como é apanhado? “Uma televisão brasileira apanhou alguns amigos meus e não tive como negar. É tudo verdade. Estive em mais de 20 clubes e nunca fiz um jogo completo. Golos? Não, jamais.’ O nariz é tão tão tão comprido que nem cabe neste texto.

Eis outros exemplos

1906 – Julien Gabory

Na terceira etapa da Volta à França, há quem não tenha muita paciência para pedalar 416 quilómetros entre Nancy e Dijon (o vencedor é Poittier em 15h18m41s). Os mandriões de serviço chamam-se Julien Gabory, Henri Gauban, Gaston Tuvache e Maurice Carrère. Apanham o comboio e tal, saem tranquilamente em Dijon e tal e a organização desqualifica-os e tal.

1919 – Joe Jackson

Imagine lá o cenário: final da liga de basebol em 1919 entre Chicago White Sox e Cincinnati Reds. Às tantas, descobre-se que oito jogadores dos White Sox se deixam perder em troca do pagamento de 80 mil dólares por apostadores. A trama é descoberta pela liga e todos os acusados, inclusive “Shoeless” Joe Jackson, são suspensos para sempre – e conhecidos como Black Sox.

1936 – Dora Ratjen

Quando nasce, o senhor Ratjen ouve da mulher: “Heini, é um rapaz!” Cinco minutos depois, a senhora Ratjen rectifica: “Afinal, é uma rapariga.” Eis Dora Ratjen. Nos Jogos Olímpicos Berlim-1936, a atleta alemã acaba em quarto lugar no salto em altura. Anos mais tarde, descobre-se que Dora é afinal Heinrich. Ou então Heinz, como ele se auto-intitula. Que salganhada.

1980 – Rosie Ruiz

É a primeira mulher a cortar a meta na Maratona de Boston no dia 21 de Abril de 1980, com o tempo de duas horas, 31 minutos e 56 segundos. Uau, bem bom. E estranho ao mesmo tempo. Afinal, nenhuma das outras 448 corredoras a vê durante a corrida. Oito dias depois, a organização descobre a farsa: Ruiz só entra na corrida a um quilómetro da meta.

1986 – Maradona

Valdano domina mal a bola e é um inglês quem a afasta. Para trás. Oh-ho. Shilton sai da baliza e nem acredita no quadradinho seguinte: Maradona eleva-se no ar e, de repente, é golo da Argentina. O 10 festeja eufórico o 1:0 nos quartos-de-final do Mundial do México. Vinte-e-tal minutos depois, ‘Não foi com a mão.’ Vinte-e-tal horas depois, ‘foi a mão de Deus.’ Vinte-e-tal anos depois, ‘sim, foi com a mão’.

1988 – Ben Johnson

A corrida mais esperada dos Jogos Olímpicos Seul-88 é a final dos 100 metros. O canadiano mais parece o filho do vento. Ninguém o vê. Nem mesmo o rival Carl Lewis. O resultado é o ouro com recorde mundial de 9.79 segundos. De repente, cai-lhe a máscara. A do doping. É apanhado e desqualificado. ‘Até aceitava se fosse o único batoteiro, mas há mais como eu na pista.’ Pior a emenda que o soneto.

1991 – Wilt Chamberlain

Basquetebolista norte-americano de inegável categoria e único a marcar mais de 100 pontos num jogo da NBA (março-1962), é um pinga-amor sem papas na língua. Escreve ele na biografia: ‘Tive relações sexuais com mais de 20 mil mulheres.’ Há quem lhe pergunte: se é assim, dá a média de 2,1 mulheres por dia, todos os dias desde os seus quinze anos. ‘Nós, às vezes, exageramos, não é verdade?’

1996 – Ali Dia

Graeme Souness, treinador do Southampton, recebe um telefonema de George Weah a dizer-lhe que um primo seu é bom de bola, da formação do PSG e 13 vezes internacional pela Libéria. É tudo mentira. Chama-se Ali Dia (isto é verdade, vá) e é contratado por um mês. Ao 14.º dia, é posto a andar após 63 minutos vs. Leeds. ‘Parecia um Bambi a correr’, graceja Le Tissier, capitão do Southampton. 

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