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Conta-me como foi da bola. Os heróicos Sócrates e Quaresma
Desporto 5 min. 30.04.2021

Conta-me como foi da bola. Os heróicos Sócrates e Quaresma

Conta-me como foi da bola. Os heróicos Sócrates e Quaresma

Desporto 5 min. 30.04.2021

Conta-me como foi da bola. Os heróicos Sócrates e Quaresma

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Eis duas histórias de como é possível um jogador de futebol fazer a diferença no campo político com uma mensagem forte.

Há jogadores que fazem a diferença dentro do campo, outros fora dele e há Sócrates, o polivalente. Em 1978, Sócrates faz do futebol um curso superior. Estuda e joga ao mesmo tempo. Em Ribeirão Preto e no Botafogo de Ribeirão Preto. Na USP, a terceira melhor faculdade do Estado de São Paulo. Entra com a melhor média de todos os alunos e sai com o curso de Medicina, que hoje exerce. É doutor.

 Em 1981, Sócrates faz do futebol uma política e inicia-se a democracia corintiana. O que é isso? É tão só a materialização de um ideal banal mas pouco em voga, que consiste num diálogo aberto entre jogadores e corpo técnico. Todos participam das decisões do clube: jogadores, roupeiro, técnico, presidente. O voto de cada um possui o mesmo valor. Em plena ditadura militar brasileira, a equipa do povo, com a maior torcida do país (Gaviões da Fiel), começa a discutir política abertamente e a questionar-se sobre o porquê da ditadura. É político. Em 1983, Sócrates faz da vida uma filosofia. Antes de embarcar para Itália (Fiorentina), na despedida oficial do Corinthians com o bicampeonato paulista, entra em campo com uma faixa de 10 metros de comprimento, onde se lê “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.” É filósofo.

 Doutor, político e filósofo. Sócrates é isso mesmo. Separado e tudo junto. Com ou sem barba. Com ou sem fita na cabeça. É Sócrates. O sábio que reconhece os limites da própria ignorância. O jogador que entrava em debates políticos na televisão ou improvisava discursos no parque mais perto de si. Sócrates. O herói do povo. Brasileiro (esclareça-se). A referência da política. Brasileira (insistimos). No campo, o Corinthians conquista dois campeonatos paulistas (1982 e 1983) e chega às fases finais da Taça de Ouro, sempre com golos de Sócrates, que também marca pontos em debates políticos, na televisão ou em palanques no meio da rua, ao lado de outros políticos, como Lula, aquele que governou o Brasil de 2002 a 2010. A conversa de Sócrates junta milhares e milhares de apoiantes, como os influentes Osmar Santos, Juca Kfouri e Rita Lee. Todos eles acabam por vestir a camisola da Democracia Corintiana.

 Com a reabertura ao exterior, a federação brasileira (CBF) autoriza o patrocínio nas camisolas. O Corinthians não faz a coisa por menos e estampa Democracia no peito! É o pontapé na mobilização política. Depois, a ideia de organizar eleições livres, quando o Presidente ainda era um general. Um ano e meio depois, em Novembro 1982, o Corinthians entra em campo com a seguinte inscrição na camisola: “No dia 15, vote.” Votar era algo que os cidadãos brasileiros haviam esquecido e ainda não era uma coisa bem-vinda por alguns. Mas a revolução faz-se, com uma grande influência para o movimento das Diretas Já. As eleições fazem-se e ganham todos. A Democracia Corintiana marca pontos e despede-se em 1983, na noite do bicampeonato paulista, com Sócrates, Casagrande e Wladimir a entrar em campo com uma faixa de dez metros de comprimento onde se lê “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.” E a partir desse dia, o Brasil nunca mais é o mesmo. Felizmente.

 E em Portugal, temos algum Sócrates? Claro que sim. Porque há sempre jogadores que fazem a diferença dentro do campo, outros fora dele e há sempre os outros. O nome dele é Quaresma, o polivalente. Como jogador, é homem de uma só camisola, a do Belenenses, com a qual se sagra campeão nacional em 1945-46 (totalista com 22 jogos, e 14 golos e levanta a Taça de Portugal em 1941-42. Despede-se em Outubro 1948, nas Salésias, com dois golos ao mítico Azevedo num 4-1 ao Sporting dos Cinco Violinos. Como treinador, lança José Augusto no Barreirense, é bicampeão da 2ª divisão zona sul pelo Farense em 1956 e 1957, faz do Vitória de Guimarães o quarto grande no campeonato nacional em 1960-61 e é campeão da 3ª divisão pelo Rio Ave em 1977.

 Independentemente destas marcas sensacionais, Quaresma é conhecido além-fronteiras. Por ter marcado um golo na inauguração do Santiago Bernabéu (Real Madrid-Belenenses, 3-1), por ter-se estreado na selecção nacional aos 20 anos de idade e pela sua irreverência. Sim, a irreverência de um extremo que enfrentava o defesa olhos nos olhos, sem medo, mas também a irreverência de um gesto para a história.

 No dia 28 de Novembro de 1937, duelo ibérico em Vigo. Uma segunda parte de luxo, com golos de Pinga e Valadas, traduz-se na primeira vitória de Portugal sobre a Espanha, e logo em território “inimigo”. O Balaídos serve de talismã e faz esquecer as anteriores 11 derrotas e um empate no confronto. Desta vez, o número 13 dá sorte. Mas o jogo tem a sua história.

Antes do apito inicial, as duas selecções perfilam-se e é obrigatória a saudação fascista – naquele tempo, conhecida como olímpica. Todos a fazem, menos três jogadores barreirenses do Belenenses: José Simões, Amaro e Quaresma. Em vez de estenderem o braço, com os dedos esticados, Simões e Amaro erguem o braço de punho fechado (parece a saudação comunista), enquanto Quaresma fica simplesmente em sentido sem mexer o que quer que seja. A este trio, junta-se ainda o guarda-redes Azevedo. O guarda-redes do Sporting, outro barreirense de gema, encolhe ligeiramente os dedos. Todos eles chamados para interrogatório pela polícia política, então a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado),mais tarde a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa de Estado).

 “Fomos levados para interrogatório mas eu saí de lá rapidamente, e sem qualquer punição”, garante Quaresma. “Justifiquei o meu acto com o esquecimento de levantar o braço e não houve mais nenhum problema. Também é preciso notar que o Belenenses moveu as suas influências e o meu caso foi esquecido mas eu nunca, nunca gostei dessas políticas [fascismo]. O Amaro e o Simões também eram assim e acabaram por ser libertados”, Para a história fica também o episódio da revista desportiva Stadium, que publica uma fotografia retocada da tal saudação, com uns dedos desenhados à má fila nos jogadores que fecharam o punho.

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