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Conta-me como foi da bola. Os amigos Conceição e Jesus
Desporto 4 min. 15.01.2021

Conta-me como foi da bola. Os amigos Conceição e Jesus

Conta-me como foi da bola. Os amigos Conceição e Jesus

Foto: Lusa
Desporto 4 min. 15.01.2021

Conta-me como foi da bola. Os amigos Conceição e Jesus

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O clássico de sexta-feira entre Porto e Benfica reúne dois homens com o mesmo carimbo de entrada na 1.ª divisão, através do Felgueiras 1995-96.

Em maio 1995, o Felgueiras acaba a 2ª Divisão de Honra em terceiro lugar, atrás de Leça mais Campomaiorense, e garante o último lugar de acesso ao escalão-maior. Uma proeza assinalável, e única na história do clube. Obra de Jesus, está mais que visto. Para a época 1995/96, o Felgueiras apresenta-se com reforços internacionais (Lewis, Earl, Bozinoski e Baroni) e nacionais – um deles chama-se Sérgio Conceição, emprestado pelo FC Porto. Como, Jesus e Conceição juntos? Ao vivo e a cores, é o fascinante mundo da 1.ª divisão 1995-96, a primeira de sempre com os dois artistas.

Imbatível em casa há 20 meses, o Felgueiras estreia-se entre os grandes com um empate (2-2) frente ao Chaves. O melhor em campo é Sérgio Conceição, que assiste Leal para o 1-1 de Leal (esse mesmo, ex-Sporting) e marca o 2-1. Na jornada seguinte, o Felgueiras surpreende Portugal Continental... e ilhas com o 2-0 ao Marítimo, nos Barreiros. Mais uma vez, a sensação chama-se Sérgio Conceição, autor da assistência para o 1-0 de Earl – vale lembrar aqui e agora que Earl é um rapaz natural de Santa Lúcia, nas Caraíbas, e ex-basquetebolista. Como a sua estatura (1,66 m) não lhe permite alcançar altos voos entre o court e as tabelas, tenta o futebol. O Felgueiras acolhe-o de braços abertos e o resultado é um golo de cabeça que permite a subida do clube ao quarto lugar.

Menos de 24 horas depois, Jorge Jesus é chamado ao programa Dia Seguinte da RTP e começa aí a ser conhecido em todo o país com a frase "de jogar sempre da mesma maneira, independentemente do adversário". A tática de que fala é o 4-3-3, como o Barcelona de Johan Cruijff, com quem Jesus estagia antes de se agarrar ao projeto do Felgueiras. Que joga como o Barça. Em estilo e até na cor das camisolas. Com o arrojo tático de Jesus e a fantasia de Sérgio Conceição, o Felgueiras acaba a primeira volta em 9.º lugar (a meio da tabela), com dez pontos de avanço sobre a zona de despromoção, aí representada pelo Chaves. 

É precisamente na última jornada da primeira volta (0-0 em Leiria) que se dá uma forte discussão entre Jesus e Conceição. "Estava a jogar no lado direito e fui queixar-me ao treinador que tinha dois adversários para marcar no meu flanco. Pelo meio, dei um pontapé numa garrafa de água. No balneário, travámos um aceso duelo verbal e, durante a semana seguinte, fui treinar com os juniores." Questionado sobre o afastamento do jogador, Jesus chuta para canto. "O Sérgio está a descansar, é um período de reflexão sem impacto na carreira, nem a curto nem a longo prazo."

Dito e feito. Na jornada seguinte, Conceição voltaria à equipa com elogios de Jesus. "O Sérgio tem capacidade de explosão, drible, controlo de bola e raça, muita raça. Vai dar que falar." Sem dúvida. Basta ver que quatro anos depois, em pleno Euro-2000, assina um valente hat-trick à Alemanha, com Kahn na baliza. Adiante. Que é como quem diz, de volta a 1996. Conceição ouve Jesus e devolve-lhe o mimo. "É um treinador exigente e taticamente muito bom". Amigos para sempre.

E o Felgueiras? Pois é, o Felgueiras nunca mais se entende com as vitórias e acaba mesmo por descer, em 16º e antepenúltimo lugar, com oito pontos em 34 possíveis. Nem o 3-0 sobre a U. Leiria na última ronda salva a equipa, nem Jesus é poupado aos múltiplos insultos dos adeptos, que também desferem um impiedoso ataque à equipa da SIC enquanto esperam pelos jogadores à saída do estádio. "Deixámos de ser a surpresa", justifica Conceição no final do jogo. "E também acusámos alguma falta de experiência para gerir os bons momentos e ultrapassar os maus. É uma lição para o futuro."

E cá estamos nós no futuro, 15 janeiro 2021, dia do clássico entre Porto e Benfica no Dragão. Empatados em pontos, com o mesmo registo de 10 vitórias, um empate e duas derrotas. Só há diferença em matéria de golos. O Porto marca muito mais (35-28), o Benfica sofre menos (13-16). No banco, Conceição e Jesus. A estreia acontece em Março 2012, por ocasião de um Olhanense-Benfica. Por acaso, Conceição até nem está presente in loco parentesis, a cumprir uma suspensão de 20 dias. Seja, é Conceição vs Jesus.

Na base da diplomacia, o treinador benfiquista elogia-se a ele mesmo e, na passada, a Conceição. "Tenho a certeza que todos os jogadores que trabalharam comigo e que têm vocação vão ser treinadores. A universidade dos treinadores são os anos que tiveram como jogadores. É aí que se define a qualidade. Não são os cinco anos de faculdade, ou seja lá onde aprendem. Isso é só teoria. Os treinadores formam-se onde o Sérgio aprendeu, e eu também. Depois é preciso vocação. E posso estar enganado, mas o Sérgio vai dar treinador." Jesus, enganado? Essa é boa. Conceição vai dar treinador, sim senhor. E está a uma vitória de ser o primeiro de sempre a ganhar cinco vezes seguidas ao Benfica.

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