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Conta-me como foi da bola. Os 5-1 do Benfica ao Real Madrid
Desporto 5 min. 19.02.2020

Conta-me como foi da bola. Os 5-1 do Benfica ao Real Madrid

Eusébio celebra a vitória do Benfica na Liga dos Campeões, em 1962, onde os encarnados bateram os merengues por 5-3.

Conta-me como foi da bola. Os 5-1 do Benfica ao Real Madrid

Eusébio celebra a vitória do Benfica na Liga dos Campeões, em 1962, onde os encarnados bateram os merengues por 5-3.
Foto: Wikimedia Commons/Domínio público
Desporto 5 min. 19.02.2020

Conta-me como foi da bola. Os 5-1 do Benfica ao Real Madrid

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Em jeito de regresso ao passado a propósito do regresso das noites europeias, eis uma relíquia nada habitual.

Há qualquer coisa de mágico nas noites europeias, sejam aquelas em que jogam cinco equipas portuguesas ao mesmo tempo ou só uma. É um momento sempre único. Qualquer que seja a eliminatória em discussão, o elemento emoção está invariavelmente presente. Desta vez, falamos do 55.º aniversário da memorável exibição do Benfica vs Real Madrid na Luz.

A história dos 5-1 não começa nem acaba nesse 24 de fevereiro de 1965. Antes, muito antes, ainda na pré-época, mais precisamente em agosto de 1964, o Benfica testa um novo Real Madrid, órfão de Di Stéfano pela primeira vez desde 1953. A idade (38 anos) já pesa e o avançado recebe a carta de desobrigação. Sem o génio argentino, de malas aviadas para o Espanyol, em Barcelona, o Real Madrid fica privado do seu maior talento e o jogo da equipa ressente-se naturalmente.

Disso se dá conta nas meias-finais do Torneio Ramón Carranza, em Cádiz, onde o Benfica dá cartas com um espantoso 2-1 sobre o Real Madrid, golos de Eusébio (17’), Puskas (62’) e Torres (90’+3). Depois da vitória sobre o pentacampeão europeu na final da Taça dos Campeões em 1962 (os famosos 5-3 em Amesterdão), o Benfica surpreende novamente o Real Madrid.

Quando o sorteio da UEFA, a 17 de dezembro de 1964, coloca frente a frente as duas potências ibéricas, nos quartos-de-final da Taça dos Campeões, o clamor por vingança desportiva faz-se ouvir pelos quatro cantos da capital espanhola. A expectativa é imensa, até porque o Benfica respira mais saúde que nunca. O sete-zero ao Braga é um exemplo. O seis-zero ao Belenenses no Restelo é outro. O cinco-zero ao Le Chaux-de-Fonds, mais um. Seja como for, o Real Madrid é de outra galáxia. Ou não.

Na véspera do jogo, o treino do Real Madrid em Lisboa é animado. Tudo porque os espanhóis fintam os jornalistas. Confirmam o treino para as 20h00 e apresentam-se no relvado meia-hora antes. Todo bien, todo bien, sin problema. 

A ver os madridistas em acção, numa espécie de rabia, dois espiões muito atentos. Um é Coluna, de pé, com guarda-chuva. O outro é Eusébio, sentado ao fundo de um camarote na tentativa de passar despercebido. Ambos apercebem-se da fragilidade do adversário. Então? Num oito contra oito a meio-campo, os defesas marcam cinco golos aos médios/avançados. A fiesta é imensa e apenas atenuada por um golo de Gento. Acaba 5-1.

No dia seguinte, toma lá outro 5-1. A superior qualidade do Benfica está assente num Eusébio verdadeiramente endiabrado e ainda pouco conhecido por esse mundo fora. O defesa esquerdo Pachín está boquiaberto e passa o tempo a meter-se com o extremo-direito José Augusto com frases sobre o indomável pantera negra. “Quando já estava 3-0, com um golo meu e outros dois do Eusébio, qual deles o mais vistoso, o Pachín só me dizia ‘mira, que este negrito es impresionante’, ‘este negrito es fuerte’, ‘que aparece en todo lado’ e ‘que no para nunca’.”

Eusébio, que por essa altura já leva 19 golos na Taça dos Campeões em apenas 20 jogos, dá um banho de bola, bem acolitado pelos extremos José Augusto e Simões, autores do 1-0 e 4-1, respetivamente, sem esquecer o capitão Coluna, que fixa o resultado.

Nessa noite, toda a Espanha fica rendida a Eusébio e ao Benfica. Ao intervalo, 3-0. No fim, 5-1. A diferença entre os dois clubes é enorme e, desta vez, nem é preciso a leitura dos jornais do dia seguinte para a constatação de tal facto, porque o jogo passa na televisão. Coisa rara em Portugal. E também em Espanha.

A verdade é que o jogo nem está para dar em direto. A prová-lo, a grelha prevista do dia da RTP com abertura às 18h45, Telejornal às 18h47, TV Escola às 19h00, TV Educativa – Educação Física pelo professor João de Moura e Sá às 19h25, TV Educativa – Francês pela professora Yvone Lemoine, Culinária com Maria de Lurdes Modesto às 20h15, Telejornal às 21h00, Boletim meteorológico às 21h25, TV Motor às 21h30, Sétima Arte com o filme “Dois Contra o Mundo” (Clark Gable, Spencer Tracy e Caldette Colbert orientados por George Cukor), Telejornal às 23h45, Meditação às 23h50 e Fecho às 23h55.

Mesmo com o Estádio da Luz a abarrotar com 80 mil adeptos ruidosos (nem o treinador espanhol Miguel Muñoz, que não consegue ouvir a própria voz “naquele espetáculo”), as televisões dos dois países – TVE e RTP – decidem transmitir o jogo em direto à última hora e a distância entre Benfica e Real Madrid é tão grande, tão grande, tão grande que a equipa espanhola apanha um avião sem escala em Madrid e só pára em Barcelona, onde iria jogar no domingo seguinte, para a Liga espanhola, com o eterno rival. Aí, dá-se bem (2-1) só que os jogadores não se livram de uma valente assobiadela no Aeroporto El Prat e no próprio Camp Nou, com dizeres trocistas, do género “o império caiu”.

Sejamos francos, é uma noite inesquecível. Até o presidente Santiago Bernabéu aplaude o Benfica. “Há noites assim: cada tiro, cada perdiz”. Já o húngaro Puskas tem dificuldade em ver a realidade. “A televisão engana bastante e não dá uma imagem exata dos acontecimentos.” Ora aí está um exemplo de quem não acredita que uma imagem não vale mais que mil palavras. Confuso? Não, Confúcio!

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