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Conta-me como foi da bola. O último verão sem Volta a Portugal
Desporto 4 min. 30.07.2020

Conta-me como foi da bola. O último verão sem Volta a Portugal

Conta-me como foi da bola. O último verão sem Volta a Portugal

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Desporto 4 min. 30.07.2020

Conta-me como foi da bola. O último verão sem Volta a Portugal

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Dita leis o PREC, em ano de título de campeão para o Benfica e da Taça de Portugal para o Boavista de Pedroto.

PREC. Processo Revolucionário Em Curso. Na ressaca do 25 de Abril, Portugal conhece uma outra nova realidade e os acontecimentos precipitam-se à velocidade da luz. Uns continuam como se nada fosse, outros interrompem-se. Como a Volta a Portugal em bicicleta. Estamos em 1975 e nunca mais a Volta deixa de fazer parte do nosso verão. Até 2020. O calendário internacional dita o arranque da Volta esta semana, só que o vírus é tramado e nada de andar sobre rodas. Só em setembro/outubro. Um verão sem Volta, tssss tssss.

Vai daí, justifica-se um recuo até 1975 para percebermos como andam os futebóis sem Volta. É um ano de normalidade, com um título de campeão do Benfica a impedir o bi do Sporting, o primeiro campeão da revolução. Para a época 1974-75, o presidente João Rocha aceita uma sugestão do Bota de Ouro Yazalde e contrata o argentino Alfredo di Stéfano, um histórico jogador com golos em cinco finais europeias seguidas. O acordo (verbal) faz-se a 27 julho, Di Stéfano começa a pré-época em Alvalade e dá-se mal, malíssimo. A digressão ao Brasil é do pior que há e o Sporting é brindado com uma goleada inaudita por 6-0 vs Cruzeiro, em Belo Horizonte. Segue-se outra derrota, agora no Rio de Janeiro, vs Vasco da Gama.

No fim desse jogo, um comentário inapropriado agudiza as distâncias entre Di Stéfano e os jogadores. No balneário do Estádio São Januário, todo o plantel arruma a roupa suja dentro de um saco e o presidente ajuda-os. Mais à parte, Di Stéfano comenta para o compatriota Yazalde. "Este é o único clube do mundo que o presidente também é roupeiro." Já em Portugal, o primeiro jogo do campeonato é em Faro, vs Olhanense (onde Jorge Jesus e Lo Bello). É do avançado argentino o único golo, 1-0 para o campeão da 2.ª divisão, zona sul. É um escândalo. No banco, Di Stéfano. Calma, calma. No banco, Osvaldo Silva. O adjunto de Di Stéfano é quem assume a equipa. Tudo porque Di Stéfano desprende-se do Sporting nessa manhã, durante o pequeno-almoço, por entrar em rota de colisão com João Rocha. Que o apelida de 'turista malcriado'.

Há jogadores aliviados, outros nem tanto. É o caso de Yazalde: "Di Stéfano é melhor do que dez treinadores juntos". Siga a marinha, Yazalde nem sequer amua. E até assina finalmente a renovação, apesar do interesse do Boavista, que lhe oferece 3500 contos por duas épocas, uma barbaridade. Com Osvaldo Silva no comando da equipa, o Sporting acumula a segunda derrota, em Guimarães, e é eliminado da Taça dos Campeões pelo Saint-Étienne. A vida só volta ao normal lá para novembro, só que aí já o Benfica está bem lá à frente.

Benfica, esse, renovado. O treinador é o jugoslavo Milorad Pavic, o capitão é António Simões. A pré-época é agitada e brilhante, com jogos em (quase) todo o lado, como México (Monterrey 4-2, León 4-3), Brasil (Cruzeiro 5-3), EUA (América, do México, 3-2), Bélgica (Racing White, 5-1), Espanha (Sevilha 2-1, Bétis, 0-0) e, novamente, Brasil (Atlético Mineiro 1-0, Cruzeiro 2-1, Atlético Mineiro 1-0). Cansado com tantas viagens, o Benfica inicia a 1.ª divisão sem o fulgor de outros tempos e acaba a primeira volta a três pontos do Porto.

É só um susto. Na 18ª jornada, um triunfo em Olhão aliado à derrota portista em Alvalade dá a liderança isolada ao Benfica. Uma semana depois, aumenta o avanço com vitória sobre Leixões e goleada inédita do Belenenses nas Antas por 4-0. Até final, é um passeio, devidamente festejado em Alvalade, com um empate a um golo que lhe garante o título numa altura em que Sporting e Benfica já haviam reatado as relações de amizade, selado num comunicado oficial datado de 29 de dezembro.

Como contraponto dessa festa, a derrota na final da Taça com o estreante Boavista, precisamente em Alvalade. Já sem Humberto Coelho – os oito golos no campeonato, metade deles nas primeiras quatro jornadas, valem-lhe um contrato com o Paris SG -, com Toni a capitão pela primeira vez e Pavic demissionário, a equipa de Pedroto faz xeque-mate.

Então e o Porto? Com quatro reforços de luxo (Peres do Vasco da Gama, Octávio do Vitória FC, Dinis do Sporting e Ademir do Olhanense) e um novo treinador (o brasileiro Aimoré Moreira, campeão mundial em 1962 pelo Brasil), o FC Porto dá finalmente um ar da sua graça. O segundo lugar na 1.ª divisão, à frente do Sporting, é uma novidade desde 1969. O início de época é memorável, sem qualquer derrota na primeira volta. 

Depois, os problemas. Cinco derrotas (CUF, Sporting, Belenenses, Benfica e Vitória SC) em oito jogos motivam a saída de Aimoré Moreira, substituído pela glória portista Monteiro da Costa. Segue-se um percurso bem interessante, com 12 pontos em 14 possíveis. Para tal, muito contribui a sagacidade e veia goleadora do extremo-esquerdo Peres, que se sagrara campeão brasileiro pelo Vasco da Gama em Agosto 1974 e fora apresentado com pompa e circunstância nas Antas, vs Ourense (4-2), no dia 30 de outubro.

Acaba então Benfica, Porto e Sporting. A Taça vai para o Boavista. E a Volta a Portugal? Tssss tssss. Só volta no ano seguinte, em 1976. E o Benfica volta a ser campeão.

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