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Conta-me como foi da bola. O taxista Figueiredo, um goleador por excelência
Desporto 4 min. 03.05.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. O taxista Figueiredo, um goleador por excelência

Conta-me como foi da bola. O taxista Figueiredo, um goleador por excelência

Desporto 4 min. 03.05.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. O taxista Figueiredo, um goleador por excelência

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Conhecido como Altafini de Cernache, é uma figura imperdível do mundo sportinguista.

Ernesto Figueiredo anda todos os dias por Lisboa, de um lado para o outro. Ao volante do seu táxi. Com 82 anos de idade, o Altafini de Cernache está aí para as curvas. Quem? O Altafini de Cernache. Para quem não sabe, é a alcunha de Figueiredo, autor de 147 golos em 233 jogos pelo Sporting, entre 1960 e 1968. É um dos heróis da Taça das Taças-64 e um dos Magriços do Mundial-66. Divide a carreira da 1.ª divisão entre Alvalade e Bonfim, mas é do Sporting.

Quando nos atende o telefone, desbobina histórias e mais histórias. “Jogava na 3.ª divisão, pelo Sernache. Em 1959-60, fui o melhor marcador do campeonato, com 75 golos.” Como? “Só num jogo, marquei nove. Ao Sporting Lamego! Eles ganharam-nos 1-0 e fizeram cá uma festa. Em Cernache do Bonjardim, 12-0 e eu marquei nove. O nosso treinador era o Barrigana, ex-guarda-redes do FC Porto e da selecção nacional. Queria levar-me para o FC Porto mas eu cá não queria nada disso. Fazia muito frio lá em cima. Fui de férias para as Caldas da Rainha para casa de um amigo e quando voltei a casa tinha uma carta do Sporting.”

O Sporting espera-o. “Tinham três avançados estrangeiros: o Diego, o Fernando [dois brasileiros] e o Seminário [peruano]. Surpreendentemente, fui eu que joguei na festa de despedida do Juca. Ganhámos 3-1 à CUF e marquei dois golos. Nunca mais saí do onze.” Até 1968, é sempre assim: golos, golos e mais golos. Sobretudo com o Benfica. Nove em 20 jogos. “É verdade! Marcava quase sempre. Dava-me gozo jogar com o Benfica. E na Luz? Aí era engraçado. Os insultos dos adeptos, as gravatas do Coluna. Metia a bola por um lado, ia buscá-la ao outro e tumba, lá estava o braço do Coluna.” Mas então ò Figueiredo, e aquele 2-0, em Junho de 1963?

“O Benfica tinha ganho o campeonato mas perdeu a Taça dos Campeões para o Milan, com dois golos de Altafini. Menos de um mês depois, marquei dois golos ao Benfica e fiquei com a alcunha Altafini de Cernache, de onde sou natural. Aliás, tenho uma rua com o meu nome na minha terra: Rua Altafini Cernache do Bonjardim. Ainda hoje me chamaram por Altafini.” Na final da Taça de Portugal, com o Vitória SC, dois golos nos 4-0. Na campanha vitoriosa da Taça das Taças, mais seis, incluindo o primeiro de todos, à Atalanta (3-1), e dois na final ao MTK Budapeste (3-3).

Como se isso fosse pouco, Figueiredo tem uma história na manga sobre o título de melhor marcador da 1.ª divisão 1965-66. “Acabei a época com 26 jogos e 26 golos mas tiraram-me um golo, com o Lusitano Évora. Os jornais desportivos escreveram que foi autogolo do guarda-redes Vital, mas como se eu rematei à baliza?! [o Diário de Notícias, por exemplo, dá o golo a Figueiredo, ao contrário de A Bola, o jornal que entrega a Bola de Prata ao melhor marcador e esse é Eusébio, com 25 golos em 23 jogos]. Às vezes, encontro o Eusébio por aí, falo-lhe disso e ele diz-me sempre ‘não te metas nisso’. Pois claro que não me meto. Os jornais desportivos queriam dar-lhe a terceira Bota de Prata consecutiva.” E ri-se.

As “quezílias” com o Benfica não se ficam por aqui. “No Mundial-66, o quarteto ofensivo era do Benfica: José Augusto, Torres, Eusébio e Simões. Nada a opor, mas Otto Glória [treinador de campo] estava sempre a dizer-me ‘corre, corre, vai treinando, que vais entrar’. Como na altura não havia substituições, iria entrar num jogo de início. Mas isso nunca aconteceu, porque o Manuel da Luz Afonso [seleccionador] era um benfiquista ferrenho e disse a famosa frase ‘os do Benfica jogam sempre, nem que tenham as pernas partidas’. Foi o que se viu! Depois daquele esforço todo nos 5-3 à Coreia do Norte, as meias-finais com a Inglaterra [1-2] foram para esquecer. O Torres não conseguia saltar e o Simões não tinha pernas.”

E porquê a saída do Sporting para o Vitória? “Já tinha 31 anos e fui moeda de troca do Pedras. Lá fui e passei grandes momentos. Os treinos do Vaz eram descontraídos. A gente nem treinava. Jogava basquetebol, veja lá bem! Ficámos em quarto lugar, cinco pontos à frente do Sporting, e chegámos aos quartos-de-final da Taça UEFA. Na época seguinte, já com o Pedroto, eliminámos o Liverpool. Sabe o que é ele [Pedroto] me dizia? Que se ele e o Pinto da Costa trabalhassem juntos no FC Porto, ele seria oito vezes campeão nacional em dez anos. Veja lá, em 1970. O Pinto da Costa ainda era chefe de departamento do hóquei em patins.”

Em Setúbal, conhece o lendário Vítor Baptista. “O Sporting perguntou-me por ele, mas não batia bem da cabeça. Nos treinos do Vitória, saía a meio para ir subir árvores e apanhar laranjas. Nã. Indiquei o Tomé e também foram o Vagner e o José Mendes.”

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