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Conta-me como foi da bola. O relógio do árbitro Eduardo Gouveia
Desporto 5 min. 25.02.2020

Conta-me como foi da bola. O relógio do árbitro Eduardo Gouveia

Conta-me como foi da bola. O relógio do árbitro Eduardo Gouveia

Foto: dpa
Desporto 5 min. 25.02.2020

Conta-me como foi da bola. O relógio do árbitro Eduardo Gouveia

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
É possível um jogo das competições europeias correr francamente mal? Pare, escute e leia.

O futebol é 11 contra 11, certo? Errado. Há ali um elemento neutro, o pai de todas as derrotas, o eterno culpado, o filho disto e daquilo. Isso mesmo, o árbitro. Se pensarmos bem, qual o objetivo de seguir essa carreira de alto risco? Rosa Santos, com dois Europeus nas pernas (1988 e 1992) e mais de 200 jogos na 1.ª divisão entre 1975 e 1994, tem a receita. “Qual o objetivo? Ser invisível. Eu explico: os primeiros 15 minutos de todos os jogos são do árbitro, que dá a ideia aos jogadores quem é que manda ali. O árbitro fica com o jogo na mão e depois basta não complicar e estar atento porque os jogadores são manhosos. Andam ali a brincar durante 88/89 minutos, depois correm desalmadamente e ainda querem que o árbitro estique o tempo.”

Então e os insultos etc e tal, entram por um ouvido e saem pelo outro? Um jornal satírico brasileiro tem o remédio. A propósito da Taça das Confederações, a federação brasileira deveria iniciar uma campanha afirmativa para as mães dos árbitros. Nos cartazes, frases amorosas de apoio para os seus filhos, tipo “filho, mamãe é puta e isso não impede de te amar.” Ainda Brasil, agora conversa séria. É lá que vive o único árbitro do mundo a marcar um golo. Chama-se José de Assis Aragão. Em Outubro de 1983, durante o clássico entre Palmeiras e Santos para o campeonato paulista, no Morumbi, um remate (torto) de Jorginho embate no árbitro e a bola entra caprichosamente na baliza do Santos. Pormenor, estamos no minuto 90’+2 e o Palmeiras perdia por 2-1. Ou seja, o golo do juiz-artilheiro é o 2-2. De um lado, os palmeirenses em festa com o central Luis Pereira a comentar: “Nunca vi isso, ainda bem que foi ao nosso favor.” Já os santistas, incrédulos e revoltados. “Não se pode permitir um juiz da FIFA ficar tão mal colocado no campo”. O árbitro, sempre o árbitro. A regra nove do futebol é clara: “a bola está em jogo se permanece em campo após haver tocado no juiz ou num dos juízes de linha.” Ou seja, o juiz é neutro. Okay, e profissional?

Aí é que nasce um problema. Na maior parte dos países, os árbitros são semi-profissionais: têm um trabalho e ainda apitam jogos de futebol. Carlos Velasco Carballo, único representante espanhol no Euro-2012 e árbitro da final da Liga Europa 2011 entre FC Porto e Braga, acha esse termo inapropriado. “O que é ser profissional? Eu deixei o meu trabalho para me dedicar em exclusivo a isto. Treino todos os dias, tenho uma atividade remunerada, e muito bem remunerada, e preparo todos os jogos. Os árbitros são muito mais profissionais que os jogadores porque aglutinamos a figura do jogador e do treinador. Sim, considero- me profissional.” Quem fala assim não é gago.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E eis-nos novamente no meio do furacão da arbitragem. Sempre portuguesa, agora no estrangeiro. Cuidado, é uma história tão hilariante como embaraçosa. Para evitar uma catadupa de nomes, avisamos já que se trata de uma história com mais de meio século de vida, portanto esqueçam todos os Garridos, Valentes, Olegários e afins. Desta vez, o homem de preto na mira dos adeptos foi Eduardo Gouveia. A 2 de Março de 1960, este antigo jogador do Palmense e árbitro de Lisboa foi apitar o Real Madrid-Nice, para a 2.ª mão dos quartos de final da Taça dos Campeões, acompanhado pelos fiscais de linha Joaquim Campos e Hermínio Soares.

Na véspera do jogo no Santiago Bernabéu, o trio de arbitragem português recebeu uma visita no hotel em Madrid de um amigo espanhol, também ele árbitro, de seu nome Vicente José Caballero Camacho. Para Joaquim Campos, o único que ainda está cá para contar a história, “Caballero fazia jus ao nome e era um homem fantástico, que se dava ‘muy bien’ com os portugueses, razão pela qual visitava-nos sempre nestas ocasiões. E nós retribuíamos essa amabilidade e amizade. Aliás, eu, o Eduardo e o Hermínio fomos em romaria até Madrid para entregar uma placa comemorativa à mulher dele, no funeral dele.” Na tal visita ao hotel da capital espanhola, Caballero ofereceu um relógio a Eduardo Gouveia e disse-lhe, perante a inicial recusa deste, que era fácil de usar. Convencido, Eduardo lá usou o relógio no Bernabéu e deu-se mal. Por algum motivo, que ainda hoje Joaquim Campos desconhece, Gouveia esticou a primeira parte até aos 53 minutos e 53 segundos. “O Eduardo Gouveia teve um azar tremendo porque naquele período a bola nunca saiu de campo, pelo que nem eu nem o Hermínio pudemos ir ao seu encontro e dizer-lhe que já passava da hora. Nós bem que gritávamos mas em vão.”

Ainda por cima, nesse período de compensações descontroladas, o Real Madrid marcou um golo, obra de Di Stéfano, aos 50 minutos. E nem assim Gouveia foi avisado. “O público [88 mil espectadores] gritava reloj, reloj, reloj e ele nada. Se calhar, nem sabia castelhano”, desabafa Joaquim Campos. “No balneário, quando eu e o Hermínio dissemos ao Eduardo, coitado do homem. Pôs-se a chorar ali à nossa frente. Ninguém gosta de fazer um mau trabalho e a verdade é que o assunto rapidamente se espalhou pela Europa fora, embora a UEFA não lhe tenha feito nada, como suspendê-lo ou repreendê-lo. O problema é o monte de bocas que ele teve de ouvir até ao final da carreira [em 1964], cá em Portugal. Bastava começar o jogo para os adeptos dizerem-lhe ‘olha o relógio’”.

O Real Madrid ganhou 4-0 ao Nice, com três golos na primeira parte e um na segunda, e qualificou-se para as meias-finais da Taça dos Campeões, que haveria de conquistar numa brilhante final com o Eintracht Frankfurt, em Glasgow (7-3).

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