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Antevisão do jogo. O registo negativo em Dublin
Desporto 7 min. 08.11.2021
Irlanda-Portugal

Antevisão do jogo. O registo negativo em Dublin

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Antevisão do jogo. O registo negativo em Dublin

Foto: AFP
Desporto 7 min. 08.11.2021
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Antevisão do jogo. O registo negativo em Dublin

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Na hora agá no apuramento para o Mundial-2022, Portugal tem de repetir as vitórias de 1947 e 1996 (contra três derrotas e dois empates) para receber mais tranquilamente a Sérvia.

Dublin é uma cidade poderosa, casa dos U2 e da final 100% portuguesa da Liga Europa 2011 entre Porto e Braga. Dublin é também a casa da selecção irlandesa, de boa memória nos Mundiais 1990 e 1994 mais Europeus 1988 e, vá, 2012 (com Trapattoni). O balanço de Portugal em Dublin é negativo, veja lá bem. Dos sete jogos, só duas vitórias (nenhuma delas em jogos oficiais, só particulares). De resto, três derrotas e dois empates. É um registo francamente pobre se atendermos aos valores históricos das selecções,

Bem vistas as coisas, está na hora de dar uma sapatada na crise de resultados na Irlanda e equilibrar as contas. E o curioso é que a epopeia em Dublin até começa bem, com uma vitória clara por 2:0. É até a segunda vitória fora de Portugal na sua história, após o trabalhoso 2:1 à Espanha em Vigo 1937. Dez anos depois, toma lá um 2:0. O goleador Peyroteo inverte os papéis e faz as assistências primorosas para os golos de Jesus Correia mais Araújo, ambos na primeira parte. A Irlanda, que ganhara à Espanha naquele estádio há menos de dois meses (3:2), ataca a baliza de Azevedo com inusitada frequência e apanham o guarda-redes sportinguista em tarde de magia indiscutível. É que não passa uma. Os irmãos Walsh bem tentam, através de remates fortes, a sua imagem de marca, só que Azevedo fecha a baliza com uma categoria ímpar. 

A defesa mais artística acontece aos 55', num duplo remate de D. Walsh e Eglinton. O público aplaude com energia e prazer, a lenda de Azevedo agiganta-se. Nesse 4 Maio 1947, o onze português inclui Azevedo (Sp); Cardoso (Sp) (cap) e Francisco Ferreira (Bf); Amaro (Bel), Feliciano (Bel) e Moreira (Bf); Jesus Correia (Sp), Araújo (FCP), Peyroteo (Sp), Travaços (Sp) e Rogério (Bf).

Pouco mais de dois anos depois, a 22 Maio 1949, começa o calvário com derrota por 1:0. Armando Sampaio despede-se da selecção com a segunda derrota em quatro jogos, aos pés de uma Irlanda mais forte fisicamente e escandalosamente ajudada pelo árbitro francês. Entre muitas faltas assinaladas ao contrário, um penálti caído do céu. Walsh, um pinheiro número 9, cai por tudo e por nada. Aos 42', a cena repete-se pela enésima vez e Le Foll vai na cantiga. Chamado a bater, o interior-direito Coad engana Barrigana com um remate colocado e fixa o resultado. 

Sem argumentos por aí além para contrariar o ascendente básico dos irlandeses, num jogo francamente desinspirado, Portugal só tem uma única ocasião clara de golo, falhada pelo extremo-direito Armando Ferreira, ao minuto 60. Mal soa o apito final, os adeptos irlandeses invadem o relvado e festejam com os jogadores a vitória, a primeira sobre Portugal em quatro encontros. O onze reúne Barrigana (FCP); Virgílio (FCP) e Serafim (Bel); Canário (Sp), Félix (Bf) e Francisco Ferreira (Bf) (cap); Armando Ferreira (Sp), Vasques (Sp), Mota (Est), Travaços (Sp) e Rogério (Bf)

Portugal só volta a Dublin a 26 Abril 1995. E perde. É aliás a única derrota na qualificação para o Euro-96. Num ritmo constante, a Irlanda joga a mil e atrapalha o toque de bola de Portugal. As oportunidades sucedem-se umas atrás das outras, de cortar a respiração. Basta ver os últimos 90 segundos da primeira parte: aos 43', Houghton atira ao poste direito de Baía e, aos 44', Staunton ganha uma bola pela esquerda e o seu cruzamento rasteiro para Aldridge é interceptado com infelicidade por Baía para dentro da baliza. 

É um lance caricato, digno de um sketch dos Monty Python. É um golo manhoso, pronto. Daí em diante, Portugal até importuna Kelly, sobretudo Rui Costa e Domingos. Em vão. É até é da Irlanda o lance mais perigoso, com um cabeceamento de Quinn a raspar o poste. De positivo, só o minuto de aplausos dos adeptos irlandeses na direcção de Eusébio, antes do jogo. Nessa tarde, Oliveira alinha com Baía (FCP); João Pinto (FCP) (cap), F. Couto (Parma), Jorge Costa (FCP), Hélder (Bf) e Paulinho Santos (FCP); Paulo Sousa (Juve); Figo (Sp), Rui Costa (Fiorentina) e JVP (Bf); Domingos (FCP).

Um ano passa e Portugal volta a Dublin para curtir o último ensaio antes do Euro-96. A vitória no último minuto dá mais alento que nunca rumo a Inglaterra. O mérito vai todo para Folha, num golo fortuito após jogada do estreante Porfírio. Nos festejos, o portista corre para o banco de suplentes e beija uma mini-bandeira portuguesa, exibida por António Oliveira. A páginas tantas, diz Folha: ‘Antes do jogo, combinámos que quem fizesse um golo tinha esse gesto. Eu fui o primeiro, estou radiante.’ 


Conta-me como foi da bola
Efemérides e histórias caricatas do futebol pelo jornalista Rui Miguel Tovar.

No outro lado, o seleccionador irlandês Mick McCarthy elogia Portugal sem parar. ‘Gostava que jogássemos como Portugal, com a mesma capacidade para fazer circular a bola, com a mesma técnica superior e com a mesma magia no passe.’ Portugal e o bom futebol, unidos para sempre. E a angariar mais adeptos por esse mundo fora. Eis o onze, com Baía (FCP) (cap); P. Santos (FCP), F. Couto (Parma), Hélder (Bf) e Dimas (Bf); Oceano (Sp) e Tavares (Boav); V. Paneira (Vitória SC), João V. Pinto (Bf) e Folha (FCP); Cadete (Celtic).

Passam-se uns anos, vira-se o século. Já estamos em Junho 2001. No mesmo dia em que os sub20 conquistam o conceituado Torneio de Toulon (2:1 vs Colômbia, golos de Postiga e Ricardo Costa), a selecção principal empata em Dublin no último duelo com um candidato à qualificação para o Mundial-2002. Com quatro boavisteiros num onze conhecido como o "esquadrão do Bessa" (nada mais natural, afinal o Boavista sagrara-se campeão nacional há menos de duas semanas), Portugal empurra os irlandeses para a sua área na primeira parte e dispôs de oportunidades claras para marcar, como o remate ao poste de Rui Costa (29'). 

No segundo tempo, a fogosa Irlanda inaugura o marcador pelo capitão Roy Keane, na sequência de um lançamento lateral marcado às três pancadas a aproveitar a desorganização da defesa portuguesa, e só o talento natural de Figo permite-nos chegar ao mais-que-justo empate. O capitão assina o 1:1 e faz o seu 22.º golo por Portugal, facto que lhe permite igualar Nené no segundo lugar dos melhores marcadores. Mais uma vez, Oliveira no banco. Agora com Ricardo (Boav); Frechaut (Boav), Litos (Boav), Beto (Sp), Jorge Costa (FCP) e Rui Jorge (Sp); Petit (Boav); Figo (Real Madrid) (cap), Rui Costa (Fior) e Pedro Barbosa (Sp); Pauleta (Bordéus)

A última visita a Dublin é em Fevereiro 2005 e Portugal apresenta-se de preto e branco em acção de protesto contra o racismo. O resultado é negativo, 1:0. Piada fácil, já sabemos, falta cor à exibição da equipa de Scolari, que aproveita a ocasião para lançar mais dois jogadores: o defesa portista Ricardo Costa, campeão europeu sub-18 em 1999, e o médio benfiquista Manuel Fernandes, internacional pela selecção B há menos de um mês. Sempre presentes, os slaloms de Ronaldo ainda causam calafrios à defesa irlandesa nos minutos iniciais, só que o golo de Andy O'Brien, na sequência de um pontapé de canto da direita, dá a vantagem nunca mais perdida à Irlanda. 

Nos restantes 70 minutos, Portugal arrisca o empate umas quantas vezes, sobretudo através de Tiago, Jorge Andrade e Petit, sem que Given faça uma defsa digna desse registo, e é a Irlanda quem dispõe da melhor oportunidade com uma bola à barra por Robbie Keane, aos 73'. Eis os actores principais: Ricardo (Sp); Paulo Ferreira (Chelsea), Caneira (Valencia), Jorge Andrade (Depor) e Rogério Matias (Vitória SC); Tiago (Chelsea) e Petit (Bf); Ronaldo (United), Deco (Barcelona) e Simão (Bf); Pauleta (PSG).

 E agora, qual é o onze de Santos? E, já agora, qual é o resultado?

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