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Conta-me como foi da bola. O primeiro título de sempre de Abel
Desporto 4 min. 04.02.2021

Conta-me como foi da bola. O primeiro título de sempre de Abel

Conta-me como foi da bola. O primeiro título de sempre de Abel

Foto: AFP
Desporto 4 min. 04.02.2021

Conta-me como foi da bola. O primeiro título de sempre de Abel

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O fabuloso destino do treinador português do Palmeiras, campeão sul-americano no Maracanã e de olho no Mundial de clubes.

Primeiro aquela música inimitável, a Marcha Fúnebre de Uma Marioneta, de Gounod. Depois meia dúzia de rabiscos, rapidamente transformados na silhueta bolachuda de Hitchcock. Só então entrava o anfitrião, Hitch himself, quase grávido, de fato e gravata a dizer em tom desafiante goooood eveeeeeening. É o ‘Alfred Hitchcock Apresenta’, programa da CBS em que o realizador exibe 268 episódios de meia-hora e 93 de uma hora, entre 1955 e 1965

Passam-se uns anos, vira-se o século e, voilà, anos 20 aí estamos nós. Hitchcock continua bem presente. O guião sempre incerto, o estilo da surpresa de última hora e um final de cortar a respiração. Acontece no maior palco do mundo, o do Maracanã (estádio carioca), na final da Libertadores entre dois clubes paulistas. De um lado, Santos. Do outro, Palmeiras. Jogam pouco, e mal. Muitos nervos, pouco discernimento. Escassez de remates, exagero de faltas. E um número apreciável de adeptos, todos metidos na mesma bancada, um contra senso para a época pandémica em curso. Adiante. De um lado, Cuca. Do outro, Abel. De um lado, um treinador brasileiro já campeão sul-americano em 2013, pelo Atlético Mineiro. Do outro, um português sem nada. Zero tituli, como diria Mourinho. Zero, nada, nicles batatóide. Abel cai de pára-quedas no Palmeiras, no futebol brasileiro. Sim senhor, a sua carreira inclui Sporting (juniores) e Braga (seniores) antes de emigrar para o PAOK, em Salónica, na Grécia, onde tem a arte de eliminar o Benfica de Jesus na pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

Nascido e criado em Penafiel, a carreira futebolística de Abel é sempre a subir. No Vitória SC, convive com os goleadores Palatasi (único guarda-redes a marcar em jornadas seguidas na 1.ª divisão) e Bruno Alves (central com mais golos na seleção portuguesa). No Sporting, ganha duas Taças de Portugal e duas Supertaças portuguesas em anos seguidos, sempre vs FC Porto de Jesualdo Ferreira, o homem que (ironia das ironias), começa a época desportiva do Santos.

É isso aí cara, Cuca só entra no Santos em outubro. Quase quase ao mesmo tempo de Abel, uma contratação out of the blue. Daí para cá, o seu currículo ganha peso. Primeiro, a qualificação para a final da Taça do Brasil, a decidir na ressaca do Carnaval (17 fevereiro). Depois, aquele 3:0 vs River Plate em pleno Monumental para primeira mão da ½ final da Libertadores. Finalmente, a Libertadores.

True story, a primeira alegria de sempre de Abel é um título continental. É a Libertadores, caraca. Veja-se bem a viagem meteórica. O golo aparece aos 90’+9. Através de um suplente. Contratado em novembro. É tudo altamente improvável. Como se fosse um guião de Hitchcock. Inacreditável, de facto. De um momento para o outro, o Palmeiras salta para a ribalta, é o seu segundo título da Libertadores – o primeiro é de 1999, obra de Scolari.

Coincidência das coincidências, Scolari é o único selecionador de Portugal a chamar Abel. É uma dupla jornada de qualificação para o Euro-2008, vs Arménia (1:0 por Hugo Almeida) e Finlândia (0:0). Abel convive com os outros, tão-só. Nem vai ao banco. Paciência, é um daqueles sonhos adiados. Portugal, esse, apura-se para o Euro com o nulo no Dragão em dia de estreia de Pepe. No final, Scolari enfurece-se com os jornalistas e saca o monólogo ‘e o burro sou eu? E o burro sou eu? E o burro sou eu? Ahhhhhhhh’.

Isto tudo para dizer o quê? Scolari faz-se campeão da Libertadores e decide o título mundial, em Tóquio, vs United. Um golo de cabeça de Keane a aproveitar uma saída em falso do guarda-redes Marcos deita tudo a perder (há coisas do arco da velha, três anos depois, em 2002, tanto Scolari e Marcos festejam naquele estádio o penta do Brasil).

Abel ainda sonha com a consagração mundial. Agora é no Qatar. O primeiro jogo (½ final) é domingo, a final é quinta, dia 11. Se tudo correr como (quase) sempre, a decisão é entre o representante sul-americano e o europeu. Por isso, o grande rival é o Bayern. Curiosidade, o Bayern dá-se mal, muito mal, em finais vs treinadores portugueses.

Veja-se o caso de 1987, na final da Taça dos Campeões com Artur Jorge. O Bayern de Udo Lattek é favorito no papel. E até no campo, até ao intervalo (1:0 de Kögl]. Na segunda parte, em menos de três minutos, Madjer parte a loiça toda como autor do espectacular empate de calcanhar e do mirabolante drible para o cruzamento à medida do suplente Juary.

Muuuuitos anos depois, em 2010, é a vez de Mourinho. No Santiago Bernabéu, em Madrid, o avançado argentino Milito marca dois golos ao Bayern de Van Gaal e coloca um ponto final da longa espera de 45 anos do Inter pelo título europeu mais cobiçado. Para Mourinho, é simplesmente a melhor época de sempre, com três títulos xxl (Serie A, Coppa e Champions). Hat-trick perfeito, nunca visto e jamais repetido em Itália.

Agora a bola é de Abel. Será ele o terceiro português? Tudo em aberto, tudo em suspenso. De Penafiel até Doha. Entra o som da Marcha Fúnebre de Uma Marioneta, de Gounod. 

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