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Conta-me como foi da bola. O primeiro negro insultado no futebol
Desporto 4 min. 19.03.2021 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. O primeiro negro insultado no futebol

Walter Tull, à esquerda na foto, jogou na liga inglesa e combateu na I Guerra Mundial, numa altura em que as leis eram explícitas e racistas.

Conta-me como foi da bola. O primeiro negro insultado no futebol

Walter Tull, à esquerda na foto, jogou na liga inglesa e combateu na I Guerra Mundial, numa altura em que as leis eram explícitas e racistas.
Foto: Domínio público
Desporto 4 min. 19.03.2021 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. O primeiro negro insultado no futebol

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Avançado do Tottenham e Northampton no início do século XX, Walter Tull morreu como tenente na I Guerra Mundial

Descubra as diferenças: em novembro de 1937, Portugal ganha 2-1 à Espanha em Vigo ao mesmo tempo que estreia Espírito Santo, o primeiro negro a jogar pela seleção nacional. O homem já é uma figura pública do alto, também conhecido como pérola negra. Oriundo de Angola, chegou a Portugal em 1936, com a missão complicada de substituir o goleador Vítor Silva. Felino e ágil, Espírito Santo encaixou no esquema do Benfica e depressa se percebeu a sua vocação para o desporto em geral e não só para o futebol. Em 1940, durante um treino do Benfica, a bola foi parar ao sítio onde outros treinavam atletismo. Despreocupado, saltou um obstáculo no meio do caminho e recuperou a bola perante a estupefação geral. 

Tinha acabado de pular 1,70 metros em altura, algo que ninguém conseguira fazer até essa tarde. Afinal, tratava-se de um atleta de eleição, recordista do salto em altura (1,88, marca batida apenas em 1960, vinte anos depois), campeão nacional de comprimento e triplo-salto. Tudo isto aliado a um comportamento exemplar que sempre o distinguiu. Razões mais que suficientes para ser condecorado pelo Comité Olímpico Internacional em 1999 com o prémio "fair play".

De volta ao futebol, Espírito Santo ficará para sempre ligado como o benfiquista com mais golos num jogo oficial: nove nos 13-1 ao Casa Pia, a 5 de dezembro de 1937. Para não deixar dúvidas, o grande Peyroteo, seu amigo em Angola, escreveu no seu livro de memórias: "Espírito Santo joga futebol muito melhor do que eu".

Dizíamos, descubra as diferenças, a propósito do primeiro negro a estrear-se na seleção portuguesa em 1937. Só 41 anos depois, em 1978, é que a Inglaterra abre as portas a um negro (Viv Anderson). A mesma Inglaterra que no início do século XX, mais precisamente em 1918, chorou a morte do futebolista/tenente Walter Tull, durante a I Guerra Mundial, em França.

A 25 de março, Tull, o primeiro oficial negro no exército britânico numa altura em que as leis eram explícitas e racistas ("nenhum negro ou pessoa de cor"), morreu em Favreuil, com um tiro no pescoço e outro no olho direito, e nunca mais o seu corpo foi resgatado apesar de algumas tentativas por parte dos homens do batalhão por ele liderado.

Nascido em Folkestone a 28 de abril de 1888, Tull era filho de um carpinteiro dos Barbados e de uma empregada inglesa. Aos nove anos, os seus pais morreram e foi recambiado para um orfanato, na companhia do irmão Edward, em Bethnal Green. Se Edward foi adotado por uma família escocesa e mais tarde tornou-se dentista, Walter nunca mais saiu e faz-se com naturalidade jogador/capitão da equipa do orfanato. Em 1908, com 20 anos de idade, ganha um lugar no Clapton FC. Menos de três meses depois, já é titular, ganha três troféus e é o jogador da semana para o jornal Football Star, em março de 1909. É aí que assina pelo Tottenham, onde se consagra como primeiro negro a marcar um golo na liga inglesa. O problema foi o sétimo jogo, em Bristol, onde os adeptos da casa o insultam. Escuro é o impropério mais "simpático" e os jornalistas condenam.

O Tottenham afasta Tull com medo de futuras confusões nos jogos fora, mas Walter não se preocupa em jogar nas reservas. Em outubro de 1911, o Northampton Town contrata Tull e este marca uma época de sucesso, ao lado de Herbert Chapman, o treinador de equipa, mais tarde conhecido como o mestre da tática pelos cinco títulos de campeão inglês obtidos no Arsenal dos anos 20.

Em 1914, o Rangers contacta Tull no sentido de lhe comprar o passe. O avançado número 9 do Northampton aceita a proposta para viver em Glasgow, na mesma cidade que o irmão Edward. Tal nunca chega a acontecer porque rebenta a Guerra e Walter Tull inscreve-se como soldado. O seu pedido é aceite, apesar do racismo vigente no exército inglês, e depressa sobe na hierarquia militar. Entra em seis grandes batalhas como líder do batalhão vencedor. Luta em França, na Escócia e em Itália. É nomeado oficial e volta a França, onde morre em pleno campo de batalha a 25 de março pelas metralhadoras alemãs, em Pas De Calais.

Em Glasgow, três dias depois, o seu irmão Edward recebe uma carta do comandante de Walter: "O batalhão e a companhia perderam um oficial generoso e divertido; eu perdi um amigo." Ao contrário dos adeptos do Bristol City, o exército inglês não distinguia os homens pela cor.

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