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Conta-me como foi da bola. O fim da NASL
Desporto 5 min. 01.01.2021

Conta-me como foi da bola. O fim da NASL

Conta-me como foi da bola. O fim da NASL

Foto: DR
Desporto 5 min. 01.01.2021

Conta-me como foi da bola. O fim da NASL

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Na ausência de um faxe do Cosmos no dia 31 dezembro 1984, é o ponto final na liga com mais glamour de todos os tempos.

Robert Redford ficou ali de mãos a abanar, sem nenhum autógrafo para dar, com centenas de fãs ao lado. Muhammad Ali, Henry Kissinger, Steven Spielberg, Barbra Streisand e Mick Jagger acotovelavam-se na bancada VIP. O emblemático Giants Stadium parecia um formigueiro, o clube nocturno Studio 54 também enchia. É a febre de sábado à noite? Também, mas é sobretudo o Cosmos de Nova Iorque, rei da Big Apple, equipa de soccer mais charmosa de sempre, que transforma os EUA num país futebolístico de proporções inimagináveis, com um campeonato próprio (NASL).

 A liderar este projecto ambicioso e bem-sucedido, um senhor chamado Edson Arantes do Nascimento – Pelé. É ele quem arrasta os fãs de Redford, com este boquiaberto a perguntar-lhe o seu nome. É ele quem movimenta a nata da classe alta nova-iorquina para um estádio. É ele a razão do caos dentro da ordem numa cidade dominada pelo punk, pela cocaína e por um assassino (Filho de Sam). Coadjuvado pelo alemão Beckenbauer, pelo holandês Neeskens, pelo italiano Chinaglia e pelo compatriota Carlos Alberto, o brasileiro Pelé cria a primeira superequipa de futebol/marketing, antes dos galácticos do Florentino (Real Madrid) e do Chelski de Abramovich (Chelsea). Viajar com o Cosmos para os jogos fora é como ir em digressão com os Rolling Stones. Pintar os jogadores do Cosmos é arte só ao alcance de Warhol, figura do movimento da pop art.

Naquele tempo, o Cosmos é internacional, europeu, americano, do Bronx. É tudo. É cool. No dia de estreia de Pelé, a 15 junho 1975, no Giants Stadium, o relvado parece uma mistura de lixo e pedras ali deixadas desde a era do Paleolítico. Aos dez minutos de jogo, há um senhor a remarcar com um spray as linhas de fundo, do meio-campo, da grande área. Ao intervalo, Pelé assusta-se quando vê uma enorme mancha verde na coxa direita e pensa tratar-se de um fungo. Nada disso, é só a pintura da relva. Ao todo, 300 jornalistas e 22.500 espectadores.

 O jogo entre Cosmos e Dallas Tornados acabou 2-2, com Pelé a marcar o último golo do jogo, e o primeiro a abrir as portas a um novo mundo, para ele e para um país completamente desligado do futebol, embora a sua selecção amadora tivesse cometido o brilharete de eliminar a poderosa Inglaterra em pleno Mundial-50. De 1975 a 1977, Nova Iorque é diferente e o futebol assume uma preponderância tal que as grandes equipas europeias é que pagam para ir jogar aos States.

 E, com o passar do tempo, já não é só o Cosmos. As outras equipas também ganham protagonismo, à conta de atitudes circenses. Como, por exemplo, os Florida Rowdies, que contratam o rebelde Rodney Marsh. É um George Best em ponto pequeno, que não admite que os jornalistas lhe chamem Pelé branco, à chegada no aeroporto. “O Pelé é que o Marsh preto”, responde o irreverente médio inglês, que, durante a goleada por 5-1 ao Cosmos, agride um adversário à cotovelada, senta-se ao seu lado e agarra-lhe o pescoço como se fosse wrestling.

Calma, há mais palhaçadas. Nos Los Angeles Aztecs, a chegada de George Best, um Rodney Marsh em ponto grande, gera mudança de hábitos. Para começar, nada de treinos matinais. Depois, o dono do clube, um tal de Elton John, pode participar nos treinos, a testar os reflexos do guarda-redes nos penáltis. Nos Vancouver Whitecaps, um reforço inglês chamado Frank Worthington é apanhado em flagrante a roubar garrafas de uísque e vodka na loja do aeroporto. Nos Fort Lauderdale Strikers, a atracção era o guarda-redes Gordon Banks, campeão mundial pela Inglaterra em 1966. Antes dos jogos, nos cartazes afixados pela cidade, pode ler-se: “Venham ver, venham ver, ele é o único guarda-redes com um olho só”, numa alusão ao olho de vidro de Banks, vítima de acidente de viação.

 Nos Dallas Tornado, a equipa entra em campo de maneira diferente. Sempre. A cavalo, num autocarro inglês de dois andares, em Harley Davidsons, em tractores, em carros com buracos de bala, num carro de bombeiros. Os Seattle Sounders investem tempo e dinheiro no treinador. Invariavelmente dá nas vistas no banco, ora vestido de George Washington, ora dentro de um caixão à Conde Drácula. Enfim...

 Em Nova Iorque, é mesmo só futebol. Com Pelé à cabeça. E o Cosmos é campeão em 1977, o que serve de desculpa para o brasileiro sair de cena, já com 37 anos de idade. Sem Pelé, mas com o sérvio Bogicevic no seu lugar de número 10 (treina o Belenenses por três jogos em 2003-04 e é rei das assistências do campeonato norte-americano, com 147 em 212 jogos), a NASL sobrevive mais uns anos, também à custa dos franchises, do entusiasmo do próprio Pelé e dos outros três títulos do Cosmos, em 1978, 1980 e 1982, todos eles com o carimbo português de Seninho, internacional com carreira feita no Porto.

 Em 1984, é o canto do cisne, o fim do sonho americano. Os salários altíssimos dos jogadores, dificilmente comportados pelas empresas que controlam os clubes e o decréscimo de espectadores nos estádios resultam na perda de 5 milhões dólares em 1983, o que obriga a Warner Bros a cortar nalgum lado. Para o campeonato de 1985, só há três equipas. Se o Cosmos respondesse ao apelo, a NASL continua. É estabelecido o prazo da meia-noite do dia 31 dezembro 1984 para a resposta do Cosmos. O clube ainda tenta seduzir Pelé com um megacontrato para regressar aos relvados. Em vão. Sem o contributo do Rei, o faxe do Cosmos não comunica com o da Warner Bros. E a NASL fica ali de mãos a abanar. Como Robert Redford.

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