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Conta-me como foi da bola. Matateu, esse prodígio da natureza
Desporto 4 min. 18.06.2020

Conta-me como foi da bola. Matateu, esse prodígio da natureza

Jogador do futebol português acabou a carreira só aos 55 anos.

Conta-me como foi da bola. Matateu, esse prodígio da natureza

Jogador do futebol português acabou a carreira só aos 55 anos.
Desporto 4 min. 18.06.2020

Conta-me como foi da bola. Matateu, esse prodígio da natureza

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Despreocupado por natureza, o avançado-centro acumula duas Bolas de Prata na 1.ª divisão e conquista a Taça de Portugal 1960 com um golo ao Sporting.

Maputo, bela capital de Moçambique e antigamente conhecida como Lourenço Marques, é a terceira cidade com mais internacionais na selecção portuguesa, atrás de Lisboa e Porto. Ao todo, há 16 jogadores e vê-se de tudo, menos guarda-redes (Costa Pereira nasceu lá perto, em Nacala). Nomes clássicos como Eusébio, Coluna, Hilário, Juca, Vicente, Matine, os gémeos Pedro e Carlos Xavier saltam à vista. Só um é que é apelidado pelos ingleses de oitava maravilha do mundo: Sebastião Lucas da Fonseca, ou Matateu. É mais que justo fazer-lhe a justa homenagem, em jeito de celebração pelos 20 anos da sua morte. Artur Quaresma treina-o no Belenenses. E confirma: "Matateu era uma maravilha".

Para já, a pergunta sacramental: quem é Matateu? "Isso agora, pfff. Bem, vou tentar ser prático. Era um fenómeno que, infelizmente, nunca foi campeão nacional, embora andasse lá perto [em 1954-55, o Sporting empatou 2-2 nas Salésias, na última jornada, com um golo aos 86 minutos, e roubou o título ao Belenenses, em favor do Benfica]. Era grande, musculoso e encorpado. Impunha-se facilmente pelo físico e destoava dos demais pelo arranque, pelas passadas com a bola controlada, pelo remate forte ou em jeito, pelo drible curto. Era uma força da natureza."

E o que faz Matateu? "Para além de marcar golos a torto e a direito [218 em 289 jogos na 1.ª Divisão], muitos deles impossíveis, outros banais, que lhe garantiram o título de melhor marcador da 1.ª Divisão [29 golos em 26 jogos na época 1952-53 e 32 em 26 na de 54-55], era um autêntico quebra-cabeças. Equipas como Sporting, FC Porto e Benfica marcavam-no homem a homem, num tempo em que nem se pensava nessas modernices. Ele chegou a Portugal [4 de setembro de 1951] com um contrato de fazer rir e ao mesmo tempo de corar de vergonha os actuais jogadores [30 contos de luvas e 1.600 escudos de salário por mês], três meses depois de eu abandonar o futebol. Não nos cruzámos por pouco, mas fiquei feliz por presenciar a sua estreia ao vivo, num Belenenses-Sporting para a 1.ª jornada do campeonato. Ganhámos 4-3, com dois golos dele, o último dos quais aos 88 minutos, e ele foi carregado em ombros pelos adeptos até aos balneários. Logo aí ficou conhecido como astro pela imprensa portuguesa."

A alcunha da oitava maravilha do mundo vem mais tarde. Em maio de 1955, a Inglaterra perde pela primeira vez com Portugal (3-1 no Jamor) e os jornalistas britânicos, sobretudo o enviado-especial do Daily Sketch, um tablóide nascido em Manchester nos anos 20 e infelizmente sugado na década de 70 pelo grupo do Daily Mail, descreve Matateu da seguinte forma: "Um negro sempre sorridente, de Moçambique, é, esta noite, o rei do futebol português. Em Moçambique foi-lhe dado o nome de Lucas, mas há muito tempo que já ninguém se preocupa com isso. Passaram-lhe a chamar Matateu – um cognome que significa oitava maravilha do mundo – desde que começou a driblar como um mago e a chutar como um canhão. Fomos derrotados por essa oitava maravilha do futebol que rebaixou e humilhou uma Inglaterra destroçada e inebriada. E não há justificação porque, com exceção do maravilhoso Matateu, o grupo português é uma equipa de passeantes, com apenas uma vitória nos últimos 19 jogos."


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A coisa não se fica por aqui. Nesse mesmo ano, Matateu é eleito pela imprensa presente como o melhor jogador da Taça Latina-55, precursora da Taça dos Campeões, à frente de Di Stéfano e Puskas, ambos do Real Madrid. Como titulava a revista Miroir Sprint, "Di Stéfano perdeu o sorriso frente a Matateu". Em 1957, o Belenenses faz uma digressão pelo Brasil e joga no Maracanã, onde Matateu atira três bolas à barra antes de Pelé marcar os primeiros golos internacionais no misto Vasco-Santos. Só para acabar, em 1959, num RDA-Portugal de qualificação para o Europeu, em Berlim, o nome de Matateu é entoado por militares alemães que o rodeiam no final do jogo, ao ponto de ele perguntar ao jornalista Aurélio Márcio: "Vistes os russos a chamar pelo meu nome?" Tudo em nome do futebol. E sempre com uma cervejinha ao intervalo, a sua imagem de marca.

E lá voltamos ao Artur Quaresma. "Comigo a treiná-lo, ele nunca bebeu. Eu pedi-lhe com bons modos e ele acatou a ordem. Ficava no balneário a ouvir-me e a motivar os mais novos. Naquela altura a gente entendia-se mais facilmente que agora, onde um futebolista ganha mais que um treinador, manda-o passear, faz o que lhe apetece."

Na ressaca da gloriosa aventura no Belenenses, onde ganha a Taça de Portugal-60 ao Sporting (marca um dos golos no 2:1), Matateu ainda joga no Atlético, que ajuda a subir à 1.ª Divisão em 1966. No posterior ping-pong entre Américas (First Portugueses e Sagres da Vitória) e Portugal (Gouveia, Amora e Chaves), só acaba a carreira aos 55 anos. É de homem.

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