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Conta-me como foi da bola. Lúcio, o primeiro luso-brasileiro na seleção portuguesa
Desporto 5 min. 19.04.2021

Conta-me como foi da bola. Lúcio, o primeiro luso-brasileiro na seleção portuguesa

Lúcio Soares, o terceiro (da esquerda para a direita) na foto.

Conta-me como foi da bola. Lúcio, o primeiro luso-brasileiro na seleção portuguesa

Lúcio Soares, o terceiro (da esquerda para a direita) na foto.
Foto: DR
Desporto 5 min. 19.04.2021

Conta-me como foi da bola. Lúcio, o primeiro luso-brasileiro na seleção portuguesa

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
No dia 16 de abril de 1960, o húngaro Bela Guttmann lança o defesa-central do Sporting e inicia uma tradição fortificada por Deco e Pepe.

Portugal descobre o Brasil em abril de 1500. E o Brasil quando chega a Portugal? Qualquer coisa como 460 anos depois. Muito antes de Celso (1976), Deco (2003), Pepe (2007), Liedson (2009) e Dyego Sousa (2017). Mais precisamente, a 16 abril 1960, quando Lúcio, nascido em Belo Horizonte, é convocado para a seleção nacional. E, a partir daí, abre-se o precedente, do qual também fez parte David Julius, um sul-africano de Joanesburgo que viraria David Júlio.

Os dois jogam no Sporting e são chamados pela dupla José Maria Antunes (selecionador) e Bela Guttmann (treinador de campo), numa altura em que o cargo do primeiro era mais pomposo que o segundo, embora este é que desse o treino e a tática, além de falar aos jornalistas, como realmente aconteceu antes e depois deste jogo histórico, na então RFA, em que a seleção joga com nove portugueses, um brasileiro e um sul-africano.

De pai português e mãe brasileira, Lúcio é brasileiro (de Minas Gerais) de nascimento e aterra muito cedo em Portugal. Com duplo passaporte, o que lhe permite jogar pela seleção nacional, embora naquele tempo ainda não houvesse problema em jogar por duas ou mesmo três seleções (Di Stéfano, por exemplo, é internacional por Argentina, Colômbia e Espanha). E é, repetimo-nos, a 16 de abril de 1960, que Lúcio recebe a chamada. Com a alegria que as declarações documentam: "Nem me pergunte se isso me dá prazer. Estou feliz e honrado mas sei que não sou o único. Lá longe, numa casinha em Niterói [arredores do Rio de Janeiro], onde deixei parte do meu coração, um homem e uma mulher devem ter chorado de alegria e de orgulho quando souberam que o seu filho fora chamado para defender as cores de Portugal. Nasci no Brasil, sim, mas sou português de direito e de sangue. Sabe, é que eu não sou estrangeiro, não", exprime-se Lúcio, num português abrasileirado perfeito.

Naquela altura, Lúcio é um dos destaques do Sporting. Porque é baixo e mesmo assim ganha bolas de cabeça a José Águas, o temível capitão/goleador do Benfica. E porque marca golos como se tratasse de um avançado. Na sua época de estreia, que coincide com a primeira internacionalização na seleção nacional, Lúcio marca nada menos nada mais que dez golos (sete no campeonato e três na Taça de Portugal), sete deles de grande penalidade. Aliás, este lance é a sua especialidade, de tão infalível que é (ao que parece, é uma espécie de fura-redes: bola para o meio e fé em Deus). Ao todo, entre 1959 e 1964, Lúcio soma a impressionante marca de 35 golos em 105 partidas.

No tal jogo particular com a RFA, em Ludwigshafen (onde Portugal chegou de autocarro via-Frankfurt, depois de voar Lisboa-Paris-Frankfurt a bordo da TAP), o húngaro Bela Guttmann, convidado pela Federação Portuguesa de Futebol a desempenhar a tal função de treinador de campo depois de ter se ter sagrado campeão nacional pelo FC Porto em 1958-59, alinhou com Acúrcio (FC Porto) na baliza, Virgílio (FC Porto, capitão), Lúcio (Sporting) e Ângelo (Benfica) na defesa, Fernando Mendes e David Júlio (ambos Sporting) no meio-campo, Matateu (Belenenses), José Augusto, José Águas, Coluna e Cavém (todos do Benfica).

Portugal perde 2-1 perante 70 mil espetadores (número recorde para alemães e portugueses), com golos de Uwe Seeler (vice-campeão mundial de seleções em 1966) aos 34’, Helmut Rahn (campeão mundial de selecções em 1954) aos 62’ e Cavém (bicampeão europeu de clubes em 1961 e 1962) aos 70’. Lúcio joga os 90 minutos e não se ficou por aí. Ainda fez mais quatro jogos pela seleção, o último deles curiosamente no Brasil (vitória canarinha por 1-0), em maio de 1962.

Começa aí o declínio de Lúcio. Na epopeia gloriosa do Sporting na Taça das Taças 1963-64, o brasileiro Lúcio é titular fixo para o compatriota Gentil Cardoso. Acontece que Gentil faz jus ao nome e fecha os olhos à falta de profissionalismo do central. Diz João Morais, o do cantinho. "O Lúcio, infelizmente já falecido, não se integrava no nosso espírito lutador: não corria, não dava o máximo, era desregrado nos estágios." O clique dá-se em Old Trafford, onde o Sporting apanha 4-1 do Manchester United, nos quartos-de-final. A equipa reúne-se com o capitão Fernando Mendes e pedem-se decisões mais assertivas relacionadas com o trio de brasileiros: além de Gentil Cardoso e Lúcio, o preparador físico Jair Raposo.

"Quando chegámos de Manchester, estávamos tão irritados que fomos ter com o arquiteto Anselmo Fernandes e com o dirigente Mário Rui e dissemos-lhe: 'deixem-nos ir para casa trocar de roupa e levem-nos já para estágio. Se tirarmos o Lúcio da equipa, de certeza que eliminamos os ingleses daqui a 15 dias.'" E agora? "Falámos com o Fernando Mendes e dissemos-lhes que o Lúcio não podia mais estar entre nós. O departamento de futebol ouviu as nossas razões e aceitou-as. Saiu o Lúcio e o Alexandre Baptista passou a ser o nosso central de referência. No fundo, foi a nossa sorte."

O Sporting ganha a Taça das Taças e Lúcio nunca mais joga em Portugal. De volta para o Brasil, aos 30 anos de idade, ainda coleciona dois clubes (Portuguesa e Flamengo de Varzinha) até se retirar em definitivo. Em 1974, a morte bate-lhe à porta. Como homem dedicado à pesca, anda de barco nas horas vagas do curso de ciências económicas e financeiras no Rio de Janeiro. Numa dessas vezes, o bote vira-se e o corpo aparece a boiar num lago da Varzinha. É a 15 Novembro, precisamente o dia em que o sportinguista Yazalde recebe em Paris a Bota de Ouro como melhor marcador da Europa.

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