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Conta-me como foi da bola. Jorge Mendonça, o português mais espanhol
Desporto 13 min. 05.06.2021

Conta-me como foi da bola. Jorge Mendonça, o português mais espanhol

Conta-me como foi da bola. Jorge Mendonça, o português mais espanhol

Desporto 13 min. 05.06.2021

Conta-me como foi da bola. Jorge Mendonça, o português mais espanhol

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A visita da selecção a Madrid faz-nos recuar ao tempo do glorioso avançado do Atlético, nos anos 60.

Histórias de outros tempos, em que a rigidez geográfica é alicerçada pelas fronteiras: quando o português comum dá o salto a Espanha e tem obrigatoriamente de trazer para a família um de nove presentes entre caramelos e guloseimas várias, fruta enlatada, Coca-Cola, Fanta, roupa da Zara, sapatos de vela, botas Sendra, bonecos da Famobil e jogos de mesa como o Cluedo. Os mais turistas fazem isso e ainda se gabam de ter experimentado os luxos do El Corte Inglés. Os outros, ainda mais aventureiros, instalam-se e fazem pela vida. Como Jorge Mendonça, dono de uma série de marcas como o primeiro português a jogar numa 1.ª divisão europeia, o primeiro português a sagrar-se campeão nacional no estrangeiro, o primeiro português a marcar numa final europeia por uma equipa estrangeira, o primeiro português a ganhar uma Taça nacional no estrangeiro e por aí fora. Já está a ver o filme, não está? Tudo isto antes da chegada do homem à Lua. Que mestre.

Produto da gloriosa África colonial, a vida e obra de Jorge Mendonça começa em Luanda, onde o pai é figura proeminente como jogador e, depois, treinador do Sporting local. O futebol entra-lhe cedo, ora pela mão do pai, ora através dos irmãos mais velhos. “Durante anos, anos e anos, o meu sonho era jogar no Sporting. Primeiro no de Luanda, depois no de Portugal. Se fosse ao lado dos meus irmãos João e Fernando, melhor ainda.” O cenário passa a ser real, a partir do momento em que a família muda-se para Lisboa e o Sporting interessa-se pelos seus serviços. Jorge faz dois anos em Alvalade, o último dos quais pelos juniores. Com uma equipa de arromba, treinada por Anselmo Pisa, o Sporting sagra-se campeão regional e nacional. Em ambas as finais, o destaque é só um: Jorge Mendonça. A sua elegância é descrita pelos jornais da época como um diamante em bruto, cheio de força e técnica, uma mistura pouca vista e, está claro, explosiva. Para se perceber bem o fenómeno desse Sporting 1955-56, a equipa acaba o regional de Lisboa com 16 vitórias em 18 jogos mais 92-3 em golos. No campeonato nacional, a concorrência é ultrapassada com relativa facilidade e nem a final é um obstáculo complicado, como explica o 7-1 à Académica (5-0 ao intervalo, facto que motiva substituição de guarda-redes da Académica). Autor do 1-0 e do 2-0 aos 8 e 11 minutos, Jorge Mendonça é eleito o homem do jogo com a maior naturalidade.

 

A sua categoria dá que falar por esse país fora. Na hora de dar o salto para os seniores, há quem o deseje ainda e sempre no Sporting, há quem fale num empréstimo para rodar. Humilde até mais não e consciente do que lhe rodeia, Jorge Mendonça admite a saída sem drama. “Não havia lugar para mim naquele Sporting, estava tapado por dois craques de craveira internacional: um era Vasques, o outro era Travassos. Tanto um como outro tinham mais experiência e sabiam mais que eu.” Se Vasques já havia sido melhor marcador da 1.ª divisão 1951-52, Travassos é conhecido como Zé da Europa desde Agosto 1955, quando um telegrama o convoca para vestir o número 10 da selecção da Europa vs Inglaterra nos festejos do 75.º aniversário da federação irlandesa de futebol. O Sporting negoceia-o então para Braga, onde Jorge Mendonça tem de esperar um mês até fazer 18 anos e estrear-se finalmente. “Na altura, eram essas as regras. No primeiro ano [56-57], subimos à 1ª divisão como segundos classificados da Zona Norte, atrás do Salgueiros e à frente do Vitória SC por um ponto. No segundo ano, ficámos num honroso quinto lugar, atrás de Sporting, Porto, Benfica e Belenenses. Foram tempos maravilhosos: jogava futebol, na 1ª divisão portuguesa e com os meus irmãos.”

 

Os três entendem-se às mil maravilhas e há jogos memoráveis em que todos eles marcam. “Uma vez, ao FC Porto, para a Taça de Portugal [1ª Eliminatória]. Fomos eliminados, porque perdemos lá 3-0 e ganhámos só 3-1 em Braga, mas a satisfação que nos deu marcar golos no mesmo jogo. Eu fiz o 1-0, o João 2-1, o Fernando 3-1 já muito perto do fim.” Mais à frente, em Novembro 1957, num 7-0 ao Torreense, “o Fernando marca, o João também e eu biso; grandes tempos, divertidos.” Contas feitas, Jorge Mendonça assina 13 golos e, acto contínuo, é convocado para a selecção portuguesa, então liderada por José Maria Antunes. Coincidência das coincidências, é um Espanha-Portugal em Chamartín (nome do bairro onde joga o Real Madrid e designação antiga do actual Santiago Bernabéu).

 

Estamos em Abril 1958. Tanto Portugal como Portugal falham o apuramento rumo ao Mundial-58, na Suécia, e organizam um particular para passar o tempo. De particular nada tem, aquilo redunda num dos maiores festivais de pancadaria de que há memória. As cenas de pugilato e agressões de toda a ordem manifestam-se desde os 30 minutos até ao fim, com a excessiva complacência do árbitro francês Lequesne, completamente ultrapassado pelos acontecimentos. A táctica cerradamente defensiva de Portugal acaba por ruir a escassos minutos do fim, quando um livre directo de Di Stéfano apanha Carlos Gomes desatento. Para se perceber a dureza dos acontecimentos, os dois países viram costas e só reatam relações seis anos depois. Então, e Jorge Mendonça? O homem é convocado, só que não sai do banco, em detrimento de outro estreante, Augusto Rocha (Académica). “Foi um dia triste. Pela confusão que se viu. O Carlos Gomes foi atingido por um isqueiro atirado por alguém das bancadas e gerou-se um sarilho dos grandes. O público assobiava estrondosamente a nossa selecção e para sair de lá foi um problema. Foi também um dia triste porque foi a única vez que estive perto de jogar por Portugal. E nessa tarde estava lá o Matateu. Que prazer teria sido.”

 

Como a 1.ª divisão acaba em Março e só há o tal particular com Espanha em Abril, a vida desportiva de Jorge Mendonça entra de férias. Ou não. Porque o Deportivo inscreve-o, juntamente com o irmão Fernando, para evitar a descida à 3.ª divisão. “Um empresário, amigo da nossa família, convidou-nos a mim e ao Fernando para jogar em Corunha.” A regra dos dois estrangeiros deixa João de fora. A experiência é enriquecedora. “Faltavam cinco jornadas. Ganhámos quatro e empatámos um, em Avilés. Conseguimos o apuramento para o play-off de manutenção e aí jogámos com o Ourense. Éramos tão superiores que vencemos os dois jogos [2-0 fora, 2-1 em casa]. Num deles, lá em Ourense, fomos roubadíssimos e anularam-me um golo do meio-campo.”

 

Os seis jogos no Deportivo abrem os olhos a muito boa gente em Espanha. Um dos clubes mais interessados é o Atlético Madrid e o negócio faz-se num ápice. “Nem pensei duas vezes, era a oportunidade de uma vida.” E que vida. Estamos a falar de Jorge Mendonça, com apenas 19 anos. Todo o futuro pela frente e já no Atlético Madrid, campeão espanhol em 1950 e 1951. A chegada do português é recebida pelos adeptos do Atlético com relativa distância. Afinal, trata-se de um miúdo ainda sem provas dadas. Depressa dará que falar. Na estreia, um golo do Oviedo no Metropolitano (2-0). No segundo jogo, bis ao Drumcondra para a Taa dos Campeões (8-0). No terceiro, mais um golo, em Valencia. No quarto, outro, à Real Sociedad. “A adaptação não me custou nada. Cheguei e marquei logo. O ataque era formado pelos extremos Miguel e Collari mais os interiores Vavá e Peiró. Eu era o avançado-centro, o número 9.” Que fica em branco durante sete jornadas a fio. “Nesse período, apanhámos 5-0 em Chamartín. Esse Real Madrid era um portento. Era a equipa de Di Stéfano, Puskas, Kopa, Gento. Gente que jogava de olhos fechados. O Di Stéfano, então, dominava a bola com todas as partes do corpo: cabeça, coxa, peito, pé direito, pé esquerdo, calcanhar direito, calcanhar esquerdo. Um fenómeno sem igual.” À goleada segue-se a visita a Vigo, onde Jorge Mendonça é expulso aos 24 minutos.

 

“Foi uma pena, porque amigos meu de Braga alugaram quatro autocarros e foram a Vigo para ver-me jogar. Naquele tempo, ainda não havia cartões amarelos nem vermelhos. Como eu jogava com a bola coladas aos pés, os defesas recorriam bastantes vezes à falta. E era normal que houvesse uma tendência para responder a uma ou outra entrada mais cruel. Normalmente, era calmíssimo mas, às vezes... Nessa tarde, o árbitro dirigiu-se a mim e disse-me apenas fuera. Saí obviamente triste. Que injustiça. Então aquela gente toda de Braga estava ali a ver-me e só joguei 24 minutos? Vi o resto do jogo na bancada, ao lado do meu pai, e ganhámos 1-0.” A expulsão é o dínamo para retomar o fio à meada no que à eficácia diz respeito. Um ao Saragoça e outro ao Las Palmas para acabar a primeira volta com uma mão cheia de golos.

 

No arranque da segunda época ao serviço do Atlético Madrid, em 1959-60, o destino prega uma partida a Jorge Mendonça. “Abrimos o campeonato em Las Palmas e fui expulso, de novo. Ouvi um fuera por razões que desconhecia. Não fiz nada. Nada mesmo. No voo para Madrid, o árbitro voou connosco e desculpou-se: ‘se não te expulsasse, não saíamos de lá vivos.’” A verdade é que Jorge só volta a calçar já na segunda volta, quando marca quatro golos, dois deles num 6-1 ao Betis. A partir de 1960-61, o mundo de Jorge dá um inacreditável salto de qualidade com a conquista da Taça Generalíssimo, actual Taça do Rei. “Ganhámos 3-2 no Chamartín. Na altura, as finais da taça eram na capital e era comum serem no estádio do Real Madrid. Marquei o 3-1.A alegria era tanta que saí coxo nos festejos do golo. A malta toda saltou para cima de mim e fui a cambalear para o meio-campo.” A vitória apura o Atlético para a Taça das Taças 1961-62 e é aí que Jorge Mendonça dá espectáculo. É o melhor marcador europeu da sua equipa, com seis golos, um dos quais na finalíssima com o Tottenham, em Estugarda (3-0).

 

Títulos à parte, o melhor ano de Jorge Mendonça é o de 1965. Em Março, é seu o golo solitário a quebrar a invencibilidade do Real Madrid em Chamartín para a 1.ª divisão. “Eles não perdiam há 131 jogos, desde 1957. Garanto-lhe, não fiz nada de jeito nesse jogo mas aquele remate de primeira saiu-me particularmente bem. Os adeptos do Atlético ficaram loucos, como deve imaginar. Foi um golo histórico, numa jogada muito comum entre eu e o Luis.” Quem? “O Luis Zapatones.” Quem? “O Luís Aragonés, seleccionador da campeã europeia Espanha em 2008. Jogava mais recuado que eu e ficava indignado pela forma como eu apanhava pancada dos defesas contrários e não refilava. Então, às vezes, pedia-me para trocar de posição e lá ia ele para a frente, onde se batia com os defesas de forma mais física que eu, batia a mãozinha marota na cara deles ou deixava o pé para trás.” O Zapatones vem de onde? “Tinha uns pés grandes e feios. Para cúmulo, andava às dez para as duas, como Charlot. E isso, veja bem, era-lhe prático para ser tremendamente eficaz na marcação de livres directos, a sua especialidade. Quantos, mas quantos golos, marcou ele de livre? Pfffff, muitos e muitos. Uma vez, na final da Taça dos Campeões-74 entre Atlético e Bayern, já eu nem jogava futebol, ele marcou um livre e mal a bola passa a barreira, ele vira as costas à baliza e levanta o braço a festejar. Já sabia que ia ser golo. E repare que o guarda-redes era o Maier, hein!” Em Setembro de 1965, Jorge Mendonça levanta o estádio com três golos ao Dínamo Zagreb para a Taça das Taças, no Metropolitano.”A loucura foi tal que os adeptos invadiram o campo e levaram-me em ombros até aos balneários. E queriam levar-me a casa, que era ali perto do estádio.”

 

Ao fim de nove épocas no Atlético Madrid, com 91 golos à mistura, Jorge Mendonça muda-se para Barcelona. É uma transferência do best. Mais um feito, o primeiro português no Barça. “O presidente Vicente Calderón chamou-me a casa e estava lá o presidente do Barça [Llaudet]. Eles já tinham negociado e só faltava a minha assinatura. Na altura, estava lesionado e não foi uma negociação muito ética, enfim.” A mágoa tem outro capítulo, com a ajuda do sorteio da 1.ª divisão 1967-68. “Deu Atlético-Barça na primeira jornada. Quando entrei, fui apelidado de tudo e mais alguma coisa. Traidor e essas coisas.” No resto da época, Jorge Mendonça trata-se bem e levanta mais uma Taça de Espanha, novamente à custa do Real Madrid. “Um clássico muito pobre, ainda hoje presente na memória de todos porque ganhámos 1-0 com um autogolo [Zunzunegui] e porque, pura e simplesmente, não se jogou futebol. Os adeptos andavam nervosos e aquilo ficou conhecido como a final dos botellazos, porque o relvado encheu-se de garrafas e mais garrafas. Não se podia andar ali e nem pudemos fazer a festa do título. Um dos nossos [Zazalba] foi atingido por uma garrafa que lhe abriu a cabeça. Uma final triste, com um final feliz. Ganhámos, ainda por cima no Vicente Calderón, casa do Atlético Madrid e espécie de segunda casa para mim.”

 

A conquista vale a entrada na Taça das Taças 1968-69. Jorge Mendonça marca dois golos ao Lugano, na primeira eliminatória, e joga a final como suplente. “Foi uma final raríssima, em que jogámos muito melhor, criámos mais ocasiões de golo mas sofremos o 1-0 aos 30 segundos e isso abalou-nos. Entrei ao intervalo, porque vinha de lesão, e foi o meu último jogo pelo Barça. Daí fui para o Maiorca, onde só fiz cinco jogos até romper o menisco. E abandonei a carreira.” No total, mais de 300 golos. Além dos títulos de campeão espanhol e a Taça das Taças pelo Atlético Madrid. Um português com queda para o golo.

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