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Conta-me como foi da bola. Gordon Ramsay, o mentiroso do Rangers
Desporto 5 min. 23.04.2021

Conta-me como foi da bola. Gordon Ramsay, o mentiroso do Rangers

Conta-me como foi da bola. Gordon Ramsay, o mentiroso do Rangers

Foto: AFP
Desporto 5 min. 23.04.2021

Conta-me como foi da bola. Gordon Ramsay, o mentiroso do Rangers

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O seu bife Wellington é do melhor que há, já o passado como futebolista é inexistente. A crónica do comentador desportivo do Contacto, Rui Miguel Tovar.

Abril, ainda Abril. O mês do dia das mentiras. Vai daí, lembramo-nos de Gordon Ramsay. Quem, o do mediático programa televisivo Hell’s Kitchen. Oh yeah. A personagem é fascinante, entra-nos pelos olhos dentro e há a ideia fixa de conhecer o famoso bife de Wellington, a pièce de resistance.

Vai daí (parte 2), entramos no hotel cinco estrelas Claridge’s e aparece-nos logo a primeira pessoa. Dizemos o nosso nome, hora de reserva e quase nos sentimos no dever de dizer o número de cartão de contribuinte, nacionalidade e registo civil. Passamos o lobby do restaurante e aparece-nos um segundo “adversário”. Damos-lhe os casacos e livramo-nos dele com uma finta de corpo que envolve mãos, costas, anca.

Entramos na sala com uma alcatifa mais uns cortinados de fugir e lá vem o terceiro “opositor”. Fujo por um lado, depois pelo outro. Jogo de cintura é o que é. O intuito é confundir. Em vão – ao jeito de ‘querias, batatas com enguias’. Aquela equipa do Claridge’s está preparada para tudo e aparecem dois assistentes que nos sentam e encostam à mesa como se fôssemos os últimos parafusos a atarraxar. A marcação cerrada prossegue e vem um quinto “waiter” a perguntar o que se quer beber. Water, please. Sparkling, please please. E venha de lá o bife. Quando chega, todas as pessoas olham para trás e esticam a cabeça a cobiçar o nosso bife, envolto em massa folhada. O empregado – a este, já o conheço de ginjeira – pega no garfo com a mão direita e a faca com a esquerda.

A expectativa é imensa.

A multidão acomoda-se na cadeira.

A faca vai entrar no centro do bife.

E já está tudo comido. O bife é daqui, e estou com a mão esquerda a puxar a orelha esquerda, em sinal de aprovação. Tenro, delicious. É tudo aquilo com que sonhamos quando o vemos na televisão. Melhor ainda, até. Porque temos a ajuda de uma faca com um apoio no indicador para o corte sair perfeito. E porque nos foi servido com um puré a condizer.

E então, o Gordon Ramsay? Natural de Johnstone, nas terras baixas escocesas, Ramsay cozinha bem a sua história de um passado futebolístico ligado ao clube do seu coração, o Rangers (deitem fora o Glasgow, o clube é Rangers FC desde sempre). Ao longo dos anos, o chef fala, fala, fala – e mente descaradamente. Ouçamo-lo: “O meu tio Roland foi quem me levou ao meu primeiro jogo em Ibrox [verdade]. Tinha sete anos [verdade] e assisti a todo o jogo em cima dos seus ombros [quem sabe? mas por esta passa]. O público foi simplesmente fenomenal [no kidding?]. O Rangers ganhou 1-0 ao Hearts num campo impróprio para jogar futebol, atendendo às fortes chuvadas que caíram nas noites anteriores.’

‘Aos 10, mudei de casa [verdade, 3-0] para Stratford-upon-Avon e comecei a jogar futebol na escola [uau]. Eu era um defesa-esquerdo tenaz, muito agressivo. Os adversários podiam passar por mim à primeira vez, mas à segunda nunca, nunca, mas nunca mesmo [ok, damos o benefício da dúvida]. Eu era rapidíssimo, um verdadeiro sprinter nos 100 metros [reeeeemate, ao ladooooo]. Se me comparasse com alguém, diria que seria um Stuart Pearce [titular da selecção inglesa no Mundial-90]. É então que se dá um volte-face inesperado porque os meus pais voltam para Glasgow e aí estava mais perto do Rangers. O meu pai era um adepto do Rangers e o meu desejo era jogar lá para o deixar orgulhoso. E deixei-o petrificado quando fiz dois jogos pelo Rangers, ambos fora, com o St. Johnstone e o Morton, embora só tenha jogado 20 e 10 minutos. E uma vez joguei pela equipa de reservas. Aquilo era duro, muito duro. E violento. Nada a ver com os tempos de hoje. Só tinha 18 anos mas a minha força de vontade era enorme. Entrei para a primeira equipa. Foi então que me lesionei. Ainda hoje me lembro perfeitamente de trabalhar contra o tempo para recuperar da lesão mas Jock Wallace, o treinador do Rangers que era a versão escocesa do Mike Tyson, chamou-me ao gabinete dele, onde estava acompanhado pelo adjunto Archie Knox, e dispensou-me. As pessoas perguntam-me porque sou tão rude com os outros, mas se trabalhassem com o Jock Wallace aí é que eram elas... Quando soube da notícia, fiquei devastado e quis chorar, mas ninguém chora ao lado de Wallace. E também não queria dar-lhe o prazer de me ver chorar à sua frente e à frente do meu pai.”

Bem, vamos agora aos factos propriamente ditos.

Liar: “Só tinha 18 anos mas a minha força de vontade era enorme. Entrei para a primeira equipa.”

Truth: O porta-voz do Rangers afirma que Ramsay treinou (atenção, nunca jogou) uns meses com a equipa, sempre à experiência, mas depois lesionou-se e kaput.

Liar II: “Jock Wallace, o treinador do Rangers que era a versão escocesa do Mike Tyson, chamou-me ao gabinete dele, onde estava acompanhado pelo adjunto Archie Knox, e dispensou-me”

Truth: Archie Knox desmonta esta versão, argumentando que nunca foi adjunto de Jock Wallace, apenas de Alex Ferguson no Manchester United, e que a primeira vez que viu Ramsay foi aquando do lançamento do seu primeiro livro, em 1996. John Haggart, esse sim o adjunto de Jock Wallace nesses tempos, também não se lembra minimamente de Ramsay. Está o caldo entornado.

Liar III: “Fiz dois jogos pelo Rangers, ambos fora, vs St. Johnstone e Morton, embora só tenha jogado 20 e 10 minutos.”

Truth: O historiador do Rangers, um tal Robert McElroy, tem as fichas de todos os jogos do Rangers, incluindo particulares e garante: “Ramsay nunca jogou na primeira equipa, seja em particulares ou na pré-época.”

Liar IV: “E uma vez joguei pela equipa de reservas”

Truth: De novo, a palavra passa para McElroy. “A equipa de reservas era realmente boa, e Ramsay não estava lá!”

Acaba a partida (no duplo sentido).

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