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Conta-me como foi da bola. Democracia Corintiana, a revolução futebolística
Desporto 4 min. 29.03.2020

Conta-me como foi da bola. Democracia Corintiana, a revolução futebolística

Conta-me como foi da bola. Democracia Corintiana, a revolução futebolística

Desporto 4 min. 29.03.2020

Conta-me como foi da bola. Democracia Corintiana, a revolução futebolística

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Sócrates é a cabeça pensante de um projecto inovador, em que todos (jogadores, roupeiro, técnico, presidente) votam nas decisões do clube. É golo em todo o Brasil.

O ferrolho de Karl Rappan, o 4-2-4 do Brasil de 1958 que desmonta o famoso WM dos anos 40 e 50, o futebol total de Stefan Kovacs, pai futebolístico de Rinus Michels no Ajax e na Holanda, a pressão alta de Sacchi no Milan dos eighties, a filosofia da posse de bola do Barça de Rijkaard e Guardiola. Ao longo da história, o futebol já passou por tantos movimentos tácticos revolucionários que estes são só os mais significativos. Mas nenhum deles foi tão forte e empreendedor como o do Corinthians.

Em 1981, o Timão inicia uma revolução futebolística que extrapola todas as fronteiras. Agrupa sociologia, ciência, política e antropologia. Faz História com H maiúsculo. Naquele tempo, o Brasil está a ferro e fogo, a viver uma realidade inconcebível para a época, com uma ditadura militar a vigorar desde 1964. Há prisões a todos aqueles que se mexem e até àqueles que nem abrem a boca e há censura à imprensa. Não se pode dizer o que se pensa. Nem sequer pensar. De repente, tudo muda.

O regime anuncia uma amnistia, os exilados voltam às suas casas, a oposição reorganiza os seus partidos. Num campo de futebol, uma série de cabeças pensantes e espírito insubmissos provocam uma reacção química inesperada com a tão famosa Democracia Corintiana. O líder natural é Sócrates, o Doutor natural de Ribeirão Preto que contagia a sua ideologia nos restantes companheiros, como Casagrande (o garotão Casão, como os adeptos lhe chamavam), Wladimir, Zenon, Biro-Biro, Juninho, Zé Maria, Alfinete. O Corinthians alfineta o antigo regime e propõe uma revolução de princípios. À conversa, junta-se o acto. É o arranque do movimento sociopolítico-desportivo. Está em curso a democratização do Brasil. E tudo começa com uma derrota.

Fora dos oito primeiros classificados no Paulista, o Corinthians falha a qualificação para a Taça de Ouro e é relegado para a Taça de Prata, espécie de 2.ª Divisão brasileira. Insatisfeito com os resultados, o novo presidente Waldemar Pires chama o sociólogo Adilson Monteiro para ser director técnico do clube e conta também com a visão financeira prática de Sérgio Scarpelli. Convida o técnico Mário Travaglini, ex-dirigente da selecção brasileira e da Academia do Palmeiras, que estava disposto a participar daquele novo modelo de gestão.

Segue-se a contratação de jogadores e Sócrates é a primeira bola a sair do saco. No dia da assinatura do contrato, afirma com a maior cara de pai que é torcedor do Santos na sua infância. Essa frontalidade assustadora cativava mais adeptos ainda, ao invés de os afastar. A sinceridade nunca fez mal a ninguém. Muito menos a Sócrates, que era um filósofo à sua maneira: jogar pelo Corinthians é respeitar a cultura, o povo, a nação; jogar pelo Corinthians é como ser chamado para uma guerra irracional e nunca duvidar da sua importância; jogar pelo Corinthians é como pensar como Marx, lutar como Napoleão, rezar como Dalai Lama, dar a vida por uma causa como Mandela e chorar como um bebé.

O Doutor entra no Corinthians e lidera o movimento. Faz do futebol uma política e inicia-se a Democracia Corintiana. E o que é isso? É tão só a materialização de um ideal banal mas pouco em voga, que consiste num diálogo aberto entre jogadores e corpo técnico. Todos participavam das decisões do clube: jogadores, roupeiro, técnico, presidente. O voto de cada um possuía o mesmo valor. Em plena Ditadura Militar, a equipa do povo, com a maior torcida do país (Gaviões da Fiel), começa a discutir política abertamente e a questionar-se do porquê da ditadura.

Dentro do campo, o Corinthians faz o pleno e conquista dois campeonatos paulistas seguidos, em 1982 e 1983, ambos vs São Paulo. Nos quatro jogos entre eles, todos no Morumbi, o selo de Sócrates é mais que evidente. O homem fixa o 1-0 nas idas e ainda marca um terceiro golo na volta em 1983, nos descontos. Como se isso fosse pouco, o Corinthians também chega às fases finais da Taça de Ouro (antigo Brasileirão), sempre com golos de Sócrates, que também marcava pontos em debates políticos, na televisão ou em palanques no meio da rua, ao lado de outros políticos, como Lula, aquele que governou o Brasil de 2002 a 2010. A conversa de Sócrates junta milhares e milhares de apoiantes, como os influentes Osmar Santos, Juca Kfouri e Rita Lee. Todos eles acabam por vestir a camisola da Democracia Corintiana.

Com a reabertura ao exterior, a federação brasileira (CBF) autoriza o patrocínio nas camisolas. O Corinthians não faz a coisa por menos e estampa Democracia no peito. É o pontapé na mobilização política. Depois, a ideia de organizar eleições livres, quando o Presidente ainda era um general. Um ano e meio depois, em novembro de 1982, o Corinthians entra em campo com a seguinte inscrição na camisola: “No dia 15, vote”. Votar era algo a que os cidadãos brasileiros haviam esquecido e ainda não era uma coisa bem-vinda por alguns. Mas a revolução faz-se, com uma grande influência para o movimento das Diretas Já.

As eleições fazem-se e ganham todos. A Democracia Corintiana marca pontos e despede-se em 1983, na noite do bicampeonato paulista, com Sócrates, Casagrandes, Wladimir e Cª a entrar em campo com uma faixa de dez metros de comprimento onde se lê “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia.” E a partir desse dia, o Brasil nunca mais foi o mesmo. Felizmente.

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