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Conta-me como foi da bola. Cinco finalistas da Taça/Liga dos Campeões
Desporto 8 min. 19.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Cinco finalistas da Taça/Liga dos Campeões

Conta-me como foi da bola. Cinco finalistas da Taça/Liga dos Campeões

Foto: DR
Desporto 8 min. 19.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Cinco finalistas da Taça/Liga dos Campeões

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Continuamos a nossa série das entrevistas semanais, agora com ilustres finalistas da prova mais importante da UEFA



Foto: DR

RIVERA

Um milanista convicto sabe de cor e salteado todos os Bolas de Ouro do Milan: Rivera (1969), Gullit (1987), Van Basten (1988, 1989, 1992), Weah (1995), Shevchenko (2004) e Kaká (2007). Um milanista convicto visita o museu do Milan em Milão. E um milanista convicto surpreende-se com a exposição de apenas sete Bolas de Ouro. Mas então falta a de quem? A resposta é Gianni Rivera. E logo ele, o golden boy/il bambinod’oro do futebol italiano nos anos 60.

Duas Taças dos Campeões pelo Milan, um Europeu pela Itália. Repetia tudo novamente?

Essa pergunta tem rasteira?

Como? Acredite que não há nada na manga. A pergunta é legítima: as minhas referências italianas são Paolo Rossi, Bruno Conti, Roberto Baggio e por aí fora.

A sério?

Sim. Depois li o seu currículo e caí em mim. Estreia no campeonato italiano aos 15 anos, duas Taças dos Campeões – a primeira ao Benfica, a segunda ao Ajax.

Pára, já estou a ficar nostálgico.

E eu pergunto, repetia tudo?

A pergunta é curiosa. Em 1967, marquei um golo no dérbi de Milão. Um remate de fora da área em que a bola bateu na trave antes de entrar. Ou melhor, não entrou. A bola bateu na trave e depois na linha de golo. O Burgnich [defesa do Inter] afastou-a mas aí o árbitro já validara o golo. No meio daquela confusão de protestos de uns e abraços de outros, pensei sempre que foi golo.

E?

Nessa noite, no programa Domenica Sportiva, da RAI, inaugurou-se o sistema de moviola [repetição em câmara lenta] a mostrar que a bola não entrara.

Xiiiii.

Pois é, esse foi o primeiro golo-fantasma em Itália. Seria muito melhor que o árbitro não assinalasse golo. Assim, quem sabe, a moviola pudesse ter nascido muito mais tarde. Ou nem tivesse nascido.

A mão de Deus
A mão de Deus
Foto: AP

 SHILTON

Quem se der ao trabalho de ir aos arquivos da federação inglesa procurar fichas entre 1966 e 1997, vai reparar num pormenor entediante, num nome comum: Peter Shilton. Ninguém acumula mais jogos que ele. Quer seja na liga inglesa (1005) ou na selecção (125). Shilton para aqui, Shilton para ali. Shilton, Shilton e mais Shilton. Joga três Mundiais e só começa a ir aos 32 anos, no Espanha-82. Bom, isso agora não é para aqui chamado. Interessa é endeusá-lo pela conquista de duas Taças dos Campeões por um dos clubes mais improváveis de todos, o Nottingham Fortest.

 Jogaste em onze clubes mais a seleção inglesa. Qual o segredo?

A confiança dos treinadores. ‘I mean’, ficar tanto tempo na baliza é obra. Minha, dos defesas e dos treinadores.Tive alguns dias maus e eles continuavam a apostar em mim. Tive sorte. E bons professores.

Quem?

Alf Ramsey, por exemplo. Foi o maior. Campeão do mundo em 1966.

E Brian Clough?

Era aqui que eu queria chegar.

Clough foi o mentor do grande Nottingham Forest, right?

Sem dúvida. ‘I mean’, o que ele fez e o que eu vivi no Nottingham Forest nem sequer dá para um guião de cinema. Ninguém tem assim tanta imaginação. Em 1977, ficámos em 3.º lugar na 2.ª divisão e subimos à 1.ª. Fomos campeões nessa época e qualificámo-nos para a Taça dos Campeões, que acabaríamos por conquistá-la. No ano, repetimos a conquista europeia. I mean.

Ah, e ainda falta a conquista da Supertaça Europeia, ganha ao Barcelona.

Que aventura! Tudo Brian Clough. E também há Bobby Robson. Afinal, confiou-me a baliza da selecção por oito anos ininterruptos, entre os Mundiais 1986 e 1990.

1986 é o ano da mão de Deus.

Goodlord. Hey, fiz grandes jogos. Porque é que toda a gente tem de se lembrar da mão de Deus? Come on. Mão de Deus, Maradona, noooooooo. Next question.

Ok, recuemos um pouco. A estreia da Inglaterra nesse Mundial foi com Portugal. Um-zero, golo de Carlos Manuel.

Goodlord. Pleaseeeee. Vocês foram lá à frente uma vez e marcaram. Carlos Manuel, nooooooo. Next question.

Foto: DR


MOZER

Ganha sempre por onde passa (Flamengo, Benfica, Marselha e Kashima Antlers). É campeão nacional em todos eles, às vezes a dobrar (Brasil e Portugal), outras a triplicar (França). Até ganha uma Libertadores, só lhe falta a Taça dos Campeões. E nem é por falta de oportunidades. O central joga duas finais, em 1988 (Benfica-PSV) e 1991 (Marselha-Estrela Vermelha), e perde ambas nos penáltis. A culpa é dos laterais-direitos Veloso e Amoros. Tanto um como outro vestem o número 2. Que karma.

 Como é que se sente por ter perdido duas finais europeias?

São sempre jogos que nos marcam. Chegamos lá e só pensamos na vitória mas há diferenças entre o Benfica de 1988 e o Marselha de 1991.

Ai é?

O Benfica de 1988 era inferior ao PSV. Era inferior e ainda perdemos um talento como o Diamantino nas vésperas do jogo. De um momento para o outro, ficámos sem um dos estrategas e capitães de equipa. Isso marca muito. Ainda assim, neutralizámos o PSV e empatámos 0-0 até aos 120 minutos. Nos penáltis eles ganharam.

E em 1991?

O Marselha era superior e até dispôs de algumas oportunidades para marcar. Como falhámos, fomos para os penáltis.

O Tapie [presidente do Marselha] estava chateado?

Não, não, nada disso. Quando o vi realmente chateado, irritado, irado, foi depois do Benfica-Marselha, o da mão de Vata. Aí, cuidado com ele.

Duas finais perdidas, ambas nos penáltis, ambos falhados pelos laterais-direitos. 

Dá que pensar?

É coincidência, pura e simples.

Os números 2, né?

Primeiro Veloso, depois Amoros. Nem dá para imaginar o que eles passaram, sobretudo porque foram jogadores que estiveram francamente bem nesses jogos. E há outro detalhe. Quer o Veloso quer o Amoros eram extremamente eficazes com penáltis nos treinos. Mas chegaram ali e falharam. Imagino a dor deles. Também falhei num Flamengo-Palmeiras no Maracanã e isso marca.

Foto: REUTERS

 

VIALLI

Camisola azul, com uma risca branca, outra vermelha, uma preta e mais uma branca na horizontal. Patrocínio da ERG. O símbolo do clube é a silhueta de um homem a fumar um cachimbo. Lindo! É a Sampdoria, vice-campeã europeia em 1992. Na frente, os gémeos do golo Vialli e Mancini.

 Como é que se complementavam?

O Mancini era mais técnico que eu, sem dúvida. Era pelo futebol artístico, estético. Eu era mais determinado, raçudo, vá. Ele era melhor que eu, mas eu era mais forte que ele, entendes?

E mais?

Mais? Olha uma coisa, o Mancini era o jogador que aparecia nas concentrações com folhas de papel numa mão e canetas noutras.

Para quê?

Desenhava equipamentos para a Sampdoria. Era o seu hobby. Ainda bem que ele ficava no quarto do David Platt [risos].

E quem era o teu maior amigo?

Daquela equipa ou do futebol?

Bem, já que perguntas. Do futebol?

O Zenga. Dávamo-nos muito bem. Houve alturas até em que eu pensava que me casaria com o Zenga se ele fosse uma mulher.

E da Sampdoria, quem era o teu melhor amigo?

O Bonetti. Éramos inseparáveis. Fazíamos mil e um planos para quando acabássemos a carreira: ir ao Peru, os vestígios da civilização maia, a Terra Santa, o Deserto, a Índia, a Austrália.

E o Mancini?

Pfffff. Nããããã. Ele era casado e, além disso, somos muito diferentes. Eu durmo uma noite ao relento, ele tem de ser num hotel cinco estrelas. Ou seis.

E o Vialli?

Eu? Na altura, sonhava em aprender inglês, tocar saxofone, jogar golfe. Havia todo um mundo à minha frente.

E?

Passava o tempo a divertir-me com os outros.

Como assim?

Adorava telefonar aos meus amigos e passar-me por outro. Uma vez, telefonei ao director-desportivo da Sampdoria a fazer-me passar por um jogador de futebol de outra equipa. Perguntei-lhe ‘dottore, é verdade que está interessado em mim?’ Ele foi na conversa e contou-me tudo, tintim por tintim. Todos os pormenores do contrato, todos. O mais engraçado é que esse jogador acabou mesmo por assinar pela Sampdoria.

Quem?

Bonomi.

 CARLOS ALBERTO

Foto: DR

hecido como feijão, é seu o primeiro golo do Porto na célebre final de Gelsenkirchen em 2004, vs Monaco.

 26 de Maio de 2004, lembra-se?

Há dias que não se esquecem. Esse é um desses. Mas prefiro recordar os dias anteriores.

Porquê?

Quando o Mourinho me disse que ia jogar a final, nem sei o que se passou comigo. Acho que foi iuuuuuuuuupiiiiiiiii e depois um susto enorme. Só tinha 19 anos de idade. Só o Mourinho mesmo.

Para quê?

Ele fez-me tudo. Escolheu-me o número 19, apoiou-me sempre e disse-me que ia ser titular nessa final, com dez dias de antecedência. Lembro-me de ter entrado no prolongamento da final da Taça de Portugal, com o Benfica, e de ele me dizer, enquanto o Costinha se apercebia que era ele quem ia ser substituído por mim, para ir com calma porque tínhamos a final da Champions pela frente.

E que tal?

Na véspera da final com o Monaco, dividi o quarto com o Deco e eu estava muito acelerado. Imagina só, um miúdo de19 anos na primeira aventura na Europa a jogar uma final daquela importância. Estava em pulgas e disse-lhe que ia marcar o primeiro golo.

Acertou, então?

É, essa sensação não me largava. Por isso agarrei no telefonei e falei com o meu pai, que estava no hospital, com um problema na anca. Prometi-lhe o primeiro golo e assim foi. Daí os meus festejos terem sido com a mão na anca. Também tirei a camisola e vi um cartão amarelo mas isso não era para o meu pai, né?

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