Escolha as suas informações

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões mundiais, desde 1958 até 2002
Desporto 17 min. 01.04.2020

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões mundiais, desde 1958 até 2002

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões mundiais, desde 1958 até 2002

AFP
Desporto 17 min. 01.04.2020

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões mundiais, desde 1958 até 2002

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Inicia-se hoje o mês de abril. Até maio, uma série semanal de cinco entrevistas futebolísticas. Eis a primeira remessa, só com campeões mundiais do tempo da televisão a cores.
Foto: DR

KEMPES, 1978

Camisola 10 da Argentina, o avançado Mario Kempes junta os títulos de melhor marcador e melhor jogador do Mundial-78, ganho em casa numa final com a Holanda, após prolongamento.

Señor Kempes, o Mundial é como...

Um íman. E olha que no meu tempo isso só significava ficar colado ao rádio. Lembro-me perfeitamente dos relatos de José Maria Muñoz [famoso radialista argentino] no Mundial-66. Tinha 12 anos e estava a ajudar os meus pais a construir a casa. No horário dos jogos, e como não tínhamos televisão, interrompia a minha atividade profissional não-remunerada [risos] para escutar o Mundial. Quem gosta de futebol e, sobretudo, quem quer ser futebolista, a selecção é o sonho máximo. O Mundial vem a seguir.

Então, cumpriu esse sonho bem cedo, em 1974, na RFA.

Sim, mas era tão verde, tão inexperiente. Quando conheci os jogadores argentinos que atuavam na Europa [Yazalde, do Sporting, por exemplo], fiquei boquiaberto. Nem dizia coisa com coisa. Para mim, eles eram uns deuses da bola e, ao mesmo tempo, uns estranhos. Nunca os tinha visto, nem na televisão. Mas, pronto, eu estava num Mundial.

Mas só marcou em 1978.

Em 1974, fiquei a zeros. Quatro anos depois, já com a experiência internacional acumulada [Kempes sagrara-se melhor marcador da liga espanhola, pelo Valencia], marquei seis golos e obviamente foi diferente. A própria situação do futebol argentino era distinta da de 1974. A federação manteve o mesmo selecionador [Luis Cesar Menotti] durante quatro anos e a filosofia era mais abrangente, com jogadores de todas as províncias argentinas: Cordoba, Rosario, Santa Fé, Buenos Aires. Depois, era um plantel fantástico, sem egoísmos nem falsos colegas, sem queixinhas nem reacionários. Lá dentro, havia uma liberdade que se respeitava, para quem quisesse dormir às oito da noite ou para quem visse televisão pela madrugada adentro. Não havia regras, porque elas só são necessárias para estabelecer ordem e nós já éramos ordenados.

E a história do bigode?

Na primeira fase do Mundial-78, não marquei qualquer golo. Cheguei à Argentina via-Valencia no dia 8 de maio e só começámos a jogar a 2 de junho. Nesse periodo, ficámos enclausurados no centro de estágio e nem me dei ao trabalho de fazer a barba. Como não marquei, o Menotti propôs 'olha lá ò Mario, e se tirasses esse bigode para ver se a tua sorte muda?' Coincidência ou não, a verdade é que marquei no jogo seguinte, com a Polónia. E logo dois de uma vez. A partir daí, o Menotti inspecionava-me a cara antes da palestra do jogo, dentro do balneário.

Na final que começou meia-hora mais tarde porque alguém se lembrou de fazer queixinhas

Quem? Eu? Nááááá. Foi o Passarella. Juro. Ele era o capitão.

Sim, mas tu estavas lá metido no meio.

Pronto, ok, culpado. Eu e o Passarella víamos os outros jogos da selecção na televisão e detectámos que o Van Kerkhof [médio da Holanda] jogava com uma proteção de gesso no cotovelo. Na final, durante a moeda ao ar, o Passarella e eu fomos falar com o árbitro a alertar para o perigo daquele gesso poder partir o nariz de alguém numa disputa de bola. Os holandeses diziam que não, nós que sim e os árbitros tomaram o nosso partido. Tudo isso demorou meia-hora.

O tempo de um prolongamento. O dessa final, por exemplo. E se aquela bola do Rensenbrink no último minuto tivesse entrado?

Nem quero pensar nisso. Alguém centrou a bola para a área, o Rensenbrink atirou ao poste e o Gallego afastou para longe dali. Naquele instante, todo o estádio calou-se. Era possível ouvir-se um papel a cair no chão. Meio segundo depois, o estádio delirou com o alívio do Gallego. Como se tivesse sido um golo.

Imagino a festa com a taça na mão.

Isso é que era bom! Só toquei nessa taça 28 anos depois, em 2008, através de uma iniciativa da FIFA. O Passarella [capitão de equipa], Larrosa, Bertoni e mais uns quantos ficaram com a taça e não a partilharam com ninguém. Eu nem fiz a volta de honra, porque simplesmente havia tanta gente no relvado a atrapalhar tudo e todos. Depois nunca mais vi a taça: nem no balneário nem no jantar da festa.

Isso é que é azar

Sinceramente, tocar nela ou não nunca me fez diferença. Ganhámos o jogo e pronto. Mas houve um episódio curioso: pouco depois desse dia, recebi em casa uma taça do mundo feita de chocolate. Era enorme e não a pude comer toda. Porque simplesmente não dava e porque fui ao pátio do meu prédio e dividi-a por todas as crianças, que, claro está, não deixaram nem um bocadinho para mim.

Foto: DR

MATTHÄUS, 1990

Nationalmannschaft (selecção nacional). Deutscher Fussball Bund (federação alemã de futebol). Os alemães e a sua capacidade ilimitada de meter medo a qualquer um com os seus dizeres. Se a isto juntarmos um nome como Lothar Matthäus, aí o caso é mais assustador ainda. Porque ele é um monstro. No sentido figurado, claro. Com 25 jogos (recorde) em cinco Mundiais (recorde para um jogador de campo), Lothar é campeão uma vez, em 1990, frente à Argentina.

Foste campeão europeu em 1980 e mundial em 1990. Vocês estavam em todas. Tens a noção que ainda hoje são uma selecção non grata para o resto do mundo.

Sim, normalmente ninguém gosta dos bons. Só mesmo nos filmes.

E a RFA/Alemanha era um filme interminável.

Ahhhh, bolas, vocês não perdoam.

De 1982 a 1990, foram às três finais do Mundial. E tu estiveste nas três.

Em 1982, só estar lá, no meio dos outros, já era uma satisfação. Só tinha 21 anos e com apenas duas internacionalizações, uma delas precisamente no Euro-80 que ganhámos à Bélgica. Não tinha, portanto, voz activa na equipa. Estava na parte mais baixa da hierarquia. Costumo dizer que havia a máfia do Colónia [Schumacher e Littbarski], a máfia do Bayern [Breitner e K. H. Rummenigge] e a máfia do Hamburgo [Hrubesch, Magath e Kaltz]. Eu era apenas um miúdo do Borussia Mönchengladbach. Há leis que não estão escritas e aceitamo-las com naturalidade.

Mas tudo mudou em 1986.

Sim, aí já era diferente. Já era titular assumido e marquei um golo importante com Marrocos [que eliminara Portugal na fase de grupos] no último minuto que valeu a qualificação para os quartos-de-final. Chegámos à final desse Mundial com uma equipa de nível médio em termos de qualidade técnica individual. Porque K. H. Rummenigge estava lesionado e jogou a conta-gotas, sempre como suplente utilizado, excetuando a final. Porque os outros dois avançados, Klaus Allofs e Rudi Völler, também começaram e acabaram esse Mundial com problemas físicos. Na final, tivemos a sorte de empatar um jogo perdido [de 0-2 para 2-2], mas fomos nós quem perdemos esse jogo, não querendo tirar mérito à justiça da vitória de Maradona e Cª. Se fôssemos a prolongamento, ganharíamos nós. Mas não vale a pena estar aqui a imaginar isso.

Até porque ganharam em 1990.

Pois, claro. Mas aí merecemos nós a vitória. Fomos mais consistentes, do princípio ao fim. Só para veres a nossa força: mal ganhámos na estreia [4-1 à Jugoslávia], nem a imprensa se deu ao trabalho de encontrar defeitos naquela selecção. Éramos os mais fortes e ponto.

Mas porque é que tu não marcaste o penálti da final? Pergunto isto porque foste tu o marcador do penálti frente á Checoslováquia, nos quartos-de-final, com o Brehme em campo?

É legítima, a pergunta. Acontece que rompi a sola de uma das chuteiras na primeira parte. Como sou distraído, não levei mais nenhum par para o estádio. Ao intervalo, um homem da Adidas deu-me o único par de botas disponível. Calcei-as mas elas não se adaptaram bem aos meus pés. Quando chegou a altura do penálti, confiei no Andi [Brehme]. Fomos companheiros de quarto durante todo o Mundial, pelo que eu e ele já tínhamos falado sobre isso. O Beckenbauer [seleccionador] aceitou sem problema. E pronto, está desvendado o mistério. Satisfeito?

Sim. E tu ficaste satisfeito em 1994 e 1998?

Nos EUA-94, partimos como favoritos. A nossa equipa era ligeiramente mais forte que em 1990, porque acrescentámos dois panzers: Stefan Effenberg e Matthias Sammer. Só que o espírito de grupo não era o ideal. Se os titulares e os suplentes de 1990 tinham estas posições bem definidas, já não era bem assim em 1994. Perdemos com a Bulgária mas tínhamos futebol para lhes ganhar. Em 1998, a mesma coisa, com a agravante de não haver um líder a quem os outros seguissem de olhos fechados. O espírito de grupo sofreu com isso e o resultado ficou à vista com a Croácia [0-3 nos quartos-de-final].

Foto: DR

TAFFAREL, 1994

 Treinador de guarda-redes no Galatasaray e na seleção brasileira, Cláudio André Mergen Taffarel é um homem cheio de fé. Vai daí, pendura as luvas no dia em que vê Deus numa autoestrada em Itália, a caminho de Empoli para assinar contrato.

Ainda tem o BMW que lhe fez acabar a carreira?

Pfff. Esse já era. Agora tenho outro.

Trocou-o por vingança?

Não, não. Ele deixou de funcionar. Pura e simplesmente. Estava a caminho de Empoli e ele começou a ficar esquisito. Até que parou. Assim, no meio da autoestrada.

Mas porquê deixar o futebol?

Não há coincidências na mecânica. Aquilo foi um sinal de Deus. O carro parou de repente. Esperei uns minutos e tentei outra vez, mas nada. Por isso, saí do carro tranquilamente, telefonei aos dirigentes do Empoli e disse-lhes para anular o acordo. Eles foram gente boa.

Sente saudades das luvas?

Há uma certa nostalgia, mas agora tenho mais tempo para a família [mulher e dois filhos], que é o meu tesouro. Adoro levá-los à Disneylândia. De resto, sou um pescador jeitoso, não tenho boa mão na cozinha, só se for para ovos, gosto de aprender novas línguas - e dou uns toques no italiano e no inglês -, não vejo muita televisão e detesto computadores.

Sonhava ser guarda-redes?

Não, em pequeno queria ser militar por influência dos meus seis tios, irmãos do meu pai. O que não queria era ser agricultor toda a vida.

Porquê agricultor?

Nasci em Santa Rosa, uma pequena vila a 500 quilómetros de Porto Alegre [capital do estado do Rio Grande do Sul]. O meu pai era agricultor e quis, digamos, empurrar-me para esse trabalho. Só a minha mãe é que achou piada e me apoiou para ser jogador de futebol. Mas eu até cresci a jogar voleibol. E bem. Mas o futebol tem um fascínio próprio. Aos 16 anos, jogava em duas equipas do Crissiumal, uma terra perto de Santa Rosa. Numa equipa, era avançado, na outra, guarda-redes.

Quando se decidiu?

Aos 18 anos, o presidente da Câmara de Crissiumal inscreveu-me para fazer testes de três dias no Internacional de Porto Alegre. Logo no primeiro dia disseram-me para ficar na baliza. Cheguei a Santa Rosa e fui recebido como um herói na estação de comboios. Inesquecível.

Tem mais momentos memoráveis gravados?

Muitos.

Chute.

Aquele terramoto na Turquia [17 de Agosto de 1999]. Nunca vi tanta dor e sofrimento em tão poucos dias. Eram três da manhã quando a minha casa abanou. Estava a dormir quando os quadros começaram a cair da parede, as garrafas partiam-se e o chão desfazia-se com uma facilidade impressionante. Temi o pior. Eu, a minha mulher e os meus filhos fomos a correr para um abrigo do Galatasaray, onde encontrei o Popescu [defesa romeno], que morava acima de mim e não estava em casa naquela hora. Nos dias seguintes, eu e a minha família dormimos naqueles colchões insufláveis na piscina. Foi a única coisa que se aguentou de pé depois daquela desgraça.

E outro?

Em Itália, no Parma, quando ainda vigorava a lei dos três estrangeiros e eu era suplente, porque Asprilla [avançado colombiano], Brolin [avançado sueco] e Grun [central belga] é que jogavam sempre. Então recebi um convite para participar num torneio de futebol pela equipa da igreja. Aceitei, fui o avançado e ganhámos o torneio, com a final a dar em directo no canal televisivo de Reggio Emilia.

Reggio Emilia é onde joga a Reggiana...

Sim. Em Maio de 1994, a Reggiana evitou a descida à 2.ª divisão italiana na última jornada [1-0 ao Milan, no Giuseppe Meazza] comigo na baliza. No verão, fui campeão do mundo pelo Brasil, na vitória sobre a Itália. Quando cheguei à Reggiana, passei sete meses no banco, a ver os outros jogar.

Nessa altura, os três estrangeiros variavam entre Futre, Simuntekov, Rui Águas e Oliseh.

Futre. Ehhhh. Grande recordação. Que jogador, que homem! Tenho saudades dele, nunca o vi mal humorado.

Foto: DR

 VIEIRA, 1998

Muito se fala dos 15 minutos de fama. Em 1998, o Vieira joga os últimos 15 minutos da final entre França e Brasil, no Stade de France.

Do que se lembra?

Do Jacquet [seleccionador de França] a olhar para mim e a dizer-me qualquer coisa impercetível. O som ambiente era realmente ensurcedor. A França ganhava 2-0 mas o Desailly acabara de ser expulso. O público gritava a plenos pulmões. Só entendi o Jacquet pela leitura dos lábios, qualquer coisa como 'Patrick, prepara-te, vais entrar'. Um nervoso miudinho percorreu-me a espinha.

Mas já tinhas jogado nesse Mundial?

Sim, com a Dinamarca na fase de grupos.

Então?

Só tinha 22 anos de idade e tudo aquilo era forte, emocionante e demais para mim. Para qualquer um, creio.

Mas tu sempre foste precoce.

Oui, c’est vrai.

Estreaste-te no Cannes aos 17 anos, já eras capitão de equipa aos 19, idade com que assinaste pelo Milan. Como é que foste lá parar?

Uma aventura inexplicável, louca.

Falou-se de rapto?

Beeeem, não está longe da verdade. As pessoas podem ler esta história e pensar 'ah, isto não pode ter acontecido' mas a verdade é que aconteceu. Acabei o treino do Cannes, fui para um avião, um jato privado, cheguei a Milão, de repente estava numa sala e puseram-me um contrato em língua italiana à frente, eu não sabia uma palavra sequer de italiano, assinei e eu que nunca assinara nada. E pronto, estava no Milan. Aos 19 anos, estava no Milan.

E só fizeste dois jogos.

Sim, só dois no campeonato italiano [mais dois na Liga dos Campeões]. Mas o que aprendi naquele curto período de seis meses foi, brrr, todo um curso de educação tática, técnica e profissionalismo ao mais alto nível.

Explica lá isso melhor.

A equipa era um portento físico e técnico. Havia Desailly.

Ele ajudou-te, como compatriota?

Bien sur. Muito, muitíssimo. E outro que me deu tudo foi o George [Weah]. Foi o meu grande irmão. Ensinou-me a dar o nó da gravata.

E Capello?

Um grande homem e um grande treinador. Ele treinava diariamente a equipa titular no esquema 4x4x2 contra zero, sem ninguém à frente, sem balizas. Se a bola fosse para a direita, toda a equipa tinha de defender aquela bola. Se fosse para a esquerda, idem. O simples trabalho de equipa em bloco, a coordenação defensiva, o posicionamento tático. Eu era o 12.º elemento. Estava sempre atrás do Albertini. Nesses treinos, aprendi tudo o que sei. Aprendi a base, com ‘A’ maiúsculo.

Dizia-se que o Savicevic treinava pouco nesse Milan.

Talvez tenha sido o jogador que menos vezes vi nos treinos em toda a carreira. Mas resolvia jogos com um toque de génio, fosse assistência ou golo. Até nisso, Capello geriu o balneário com mestria. Porque, no fim de contas, o grupo era só vedetas da bola, técnica e fisicamente falando, com cinco ou seis estrangeiros [Desailly, Vieira, Boban, Savicevic, Weah e Futre], mas só podiam jogar três e todos andavam de bem com a vida.

Daí foste para o Arsenal.

Estive quase, quase no Ajax, que estava a desfazer-se de alguns jogadores campeões europeus no ano anterior [1995]. Houve ali qualquer problema com empresários e, nesse período, cruzei-me algumas vezes com o Arsène [Wenger] na tribuna VIP do Giuseppe Meazza. Ele estava de férias e de saída do Nagoya Grampus Eight. Falávamos muito e ele convidou-me para ir a Londres, assinar pelo Arsenal. Dito e feito.

E lá, como foi?

Uma aventura sem fim. Cheguei a capitão, fui campeão inglês sem derrotas. Um sonho. Lembro-me dos primeiros tempos a ver o Tony Adams [capitão] no uso da palavra antes dos jogos. Não percebia nada de inglês mas sentia uma emoção diferente na voz dele. E a equipa respondia ao estímulo e tudo ficava alterado. Ele era alcoólico e a equipa confiava cegamente nele. Que coisa.

Ronaldo às cavalitas de Vampeta
Ronaldo às cavalitas de Vampeta
Foto: AP

VAMPETA, 2002

Que acontece quando se perde a primeira dentição de leite (vampiro) e se é feio p’racaramba (capeta = Diabo)? Dá Vampeta, um caso de estudo: é o único bicampeão mundial (Corinthians-2000, Brasil-2002) com três descidas de divisão (Vitória-2004, Brasiliense-2005, Corinthians2007).

Bicampeão mundial e três descidas de divisão. Que carreira bipolar.

A vida é feita de dias festivos e outros difíceis, mas já conquistei muita coisa, fui internacional pela melhor seleção do mundo e joguei lá fora. Fui bom, bonito e com dinheiro. Agora sou bom, bonito e sortudo.

E começaste cedo, aos 17 anos, na Holanda. Foi difícil a adaptação?

Só a língua.

Só?

Cheguei no verão e o clima de lá era quente, parecido com o da Bahia. Além disso, todos os holandeses se chamam Van qualquer coisa e eu sou Vampeta. Portanto, foi bom demais. E melhorou bastante quando chegou o Ronaldo [Fenómeno]

Só se reencontraram em 2002, durante o Mundial, certo?

É, na Copa.

Com o Scolari?

O nosso paizão. Ele é duro e terno ao mesmo tempo. Aquele grupo de 2002 esteve sempre unido. Eu só fiz um jogo [29 minutos com a Turquia] e ficou de bom tamanho.

Valeu uma cambalhota no Palácio do Planalto, à frente do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Imagina ser campeão do mundo! Não há dinheiro no mundo que pague essa satisfação pessoal. Muitos já me perguntaram se estava bêbado, mas não, nada disso. Foi felicidade pura. Até o presidente aplaudiu.

E estavas vestido à Corinthians.

Claro, é o meu time. Quando morrer, quero ser enterrado com a camisola do São Paulo, porque antes um são-paulino morto que um corintiano [risos].

Jogaste em países como Holanda, França, Itália e Kuwait. E se jogasses em Portugal?

Escolheria o Benfica, que é parecido com o Corinthians em dimensão e prestígio. Quando joguei no PSG, convivi de perto com a comunidade portuguesa e eles são todos do Benfica, cara!

E a tua fama de jogador notívago?

Nessa altura, era bom, bonito e ganhava dinheiro para sair à noite. Mas pergunta lá ao Parreira, ao Felipão ou a qualquer outro técnico, se saltei o muro de concentração. Nunca. Só em dias de folga.

Mas és dono de duas casas noturnas.

Uma de música axé e outra de pagode, mas estou mais calmo. Mas há aí jornalistas que dizem que o Vampeta saía todo o santo dia. O pessoal da imprensa sai mais do que todo mundo. Se denunciar os jornalistas que vão para o puteiro, ninguém mais entra em casa. Tenho bar e sei que até repórteres casados vão para lá. É muita hipocrisia falar que só o Vampeta gosta de sair

 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas