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Conta-me como foi da bola. Cinco campeões europeus desde 1972 até 2004
Desporto 6 min. 08.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões europeus desde 1972 até 2004

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões europeus desde 1972 até 2004

Foto: AP
Desporto 6 min. 08.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Cinco campeões europeus desde 1972 até 2004

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Continuamos a nossa série das entrevistas semanais, agora com os campeões europeus de selecções.


BREITNER, 1972

 Europeu? Check. Mundial? Check. Taça dos Campeões? Check. Paul Breitner é homem para isso e muito mais. Golos em duas finais de Mundial (penáltis em 1974 e 1982) mais campeão alemão pelo Bayern e espanhol pelo Real Madrid.

 Campeã europeia em 2008 e mundial em 2010. A Espanha é a RFA dos anos 70?

A RFA 1972 é a melhor selecção desde aquela do Milagre de Berna [Mundial -54 em que a RFA surpreende a invencível Hungria por 3-2]. A de 1972 é o início da geração de ouro. Ganhámos facilmente o Europeu [3-0 à URSS na final] e depois fomos campeões do mundo em 1974. Dois anos depois, perdemos a final do Europeu com a Checoslováquia.

Falou de 1974, quando é campeão europeu pelo Bayern e mundial pela RFA.

É um ano histórico para o futebol alemão e definitivamente especial porque a finalíssima da Taça dos Campeões com o Atlético Madrid acaba quatro-zero. Depois de empatarmos 1-1 no último minuto, ganhar assim de forma tão esclarecedora 48 horas depois dá-te uma bagagem enorme. No mês seguinte, campeões mundiais.

Uns dias mais tarde, assinou pelo Real Madrid. Qual o efeito dessa transferência?

Conhecimento de outra cultura e representação de outro clube histórico. Não há tamanho para um enriquecimento desses, sobretudo porque conheci o senhor Santiago Bernabéu [presidente do Madrid].

 ONDRUS, 1976

 Falam, falam, falam do penálti do Panenka e quem levanta a taça de campeão europeu em 1976 é um tal Anton Ondrus. Capitão da Checoslováquia e o homem mais animado de todos.

 Em 1976, qual a sensação de ser o capitão de uma selecção histórica?

Antes de sermos campeões, já tinha entrado na história.

Como?

Na meia-final, com a Holanda de Cruijff, marquei um golo na baliza certa [1-0] e outro na minha [1-1]. Fui o primeiro. E único até agora. Sou histórico.

Nos penáltis da final com a RFA...

Marquei ao Maier. Quatro anos depois, no Euro-80, jogo de atribuição do 3.º e 4.º lugares, vamos a penáltis e marco ao Zoff. Diz-me outro jogador que tenha marcado a esses monstros do futebol? Histórico.

Okay.

Por alguma razão, sou o melhor jogador de sempre.

De onde?

Do xxxxxx.

Onde?

Xxxxx, uma equipa da 2-ª divisão francesa onde joguei [de 1983 a 1987].

Como é que se soletra?

T-h-o-n-o-n.

Não conheço. Agora está onde?

Ouvi dizer que acabou há uns anos [em 2007, quando é despromovido para a última divisão distrital].

Como é que foste lá parar?

Quis conhecer os Alpes, arrisquei e fui bem-sucedido. Histórico.

 KÖPKE, 1996

Football is coming home. O slogan do Euro-96 é esclarecedor, estamos em Inglaterra. O país está em festa, sobretudo depois do inapelável 4-1 à Holanda na última jornada da fase de grupos. Nas meias-finais, o anfitrião sai de cena. Por culpa da Alemanha, através do desempate por penáltis. Em pleno Wembley. O herói é o guarda-redes Andreas Köpke, autor da defesa do remate de Southgate.

 Como se lida com a pressão numa sequência de penáltis?

É muita pressão, é quase insano. Jogámos 90 minutos, depois mais 30 e ainda temos os penáltis. É muito. Mas, verdade seja dita, o guarda-redes tira vantagem, porque a pressão está do lado do batedor. Sempre.

Nesse desempate com a Inglaterra, lembra-se do remate de Southgate?

É um momento histórico, mas não festejei. Defendi e esperei pelo nosso golo [o 6-5 de Möller]. Só então é que libertei toda a adrenalina, alegria, alívio, tudo junto.

Na final, já não conseguiu defender o penálti de Berger.

Ele atirou para o meio da baliza. Assim é mais difícil.

Como se lida agora com o desempate de penáltis?

É muito diferente do meu tempo. Agora, a Universidade de Colónia faculta-nos os dados de todos os penáltis de todos os potenciais adversários de um Europeu e de um Mundial. A vida é ainda mais fácil para os guarda-redes.

 

Foto: REUTERS

PIRES, 2000

O pai de Pires está prestes a defender as cores de Portugal na Guerra do Ultramar em Angola e escapa-se para França. É lá que nasce o seu filho Robert Pires, com história feita nos grandes palcos. É seu o passe para o primeiro golo de ouro em Mundiais (Blanc vs. Paraguai 1998) e é também sua a assistência para o último golo de ouro em Europeus (Trezeguet vs Itália 2000).

 No dia dessa final, Pires está com um look diferente.

Ahhh, a barbicha do D’Artagnan. Foi uma brincadeira com o Anelka. Não me lembro já muito bem o que era, mas o castigo era deixar crescer a barbicha. Não te conto o sucesso.

Conta lá.

Depois desse Europeu e das férias, regressei ao Arsenal e começaram a tratar-me por D’Artagnan. Ainda por cima, éramos quatro franceses no Arsenal, Wiltord, Titi [Henry], Patrick [Vieira] e eu, por isso dava a conta certa.

Nesse Euro, jogaste com Portugal nas meia-final?

Oui, entrei na segunda parte. Esse Euro foi engraçado porque o roupeiro da França era um português chamado Manu [Diamantino de Faria] e estávamos sempre a gozar um com o outro. Bem, eu comecei a gozar quando estava 2-0 para Inglaterra. Vocês deram a volta, começaram a ganhar e o Manu falava, falava, falava. Nas meias-finais, olha, foi o que foi.

Foto: AP

 CHARISTEAS, 2004

Espanha, França e Portugal. O percurso goleador de Angelos Charisteas no Euro-2004 é de se lhe tirar o chapéu. O avançado é o herói grego na final do Estádio da Luz.

 A Grécia-2004 é sorte ou destino?

Ganhámos cinco jogos em seis. Querem transformar isso em sorte? É um erro. E uma injustiça. Simplesmente, fomos compactos a defender e isso às vezes cansa as pessoas sempre ansiosas por futebol espectáculo. Mas o Rehhagel estava sempre a dizer-nos que não tínhamos nenhum Messi, por isso jogávamos fechados.

Em 2004 já se falava do Messi?

O Rehhagel já. Era um homem sensacional. A melhor frase dele foi: “A Grécia inventou a democracia, eu inventei a ditadura democrática.”

Na final, aquele golo é treino ou acaso?

Como me explico? Nós não ficávamos a treinar aquele lance. Já nos conhecíamos de olhos fechados. Quem fosse marcar aquele canto, saberia que eu entraria ao primeiro poste.

Qual o vosso melhor jogo?

O da França, sem dúvida. Eram os detentores do título e ganhar-lhes deu-nos uma confiança tremenda, além daquela que recebíamos diariamente do Rehhagel.

Na Luz, acusaram minimamente o ambiente?

Ambiente, qual ambiente? Quem acusou isso foi Portugal,não? Era a última oportunidade da geração de ouro e perderam.

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