Escolha as suas informações

Conta-me como foi da bola. Bob Marley
Desporto 4 min. 28.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Bob Marley

Conta-me como foi da bola. Bob Marley

Desporto 4 min. 28.04.2020 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. Bob Marley

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho, Chico Buarque e Jacob Miller: um inesquecível poema escrito há 40 anos.

Em Abril 1980, Bob Marley (o maior expoente da música jamaicana), Junior Marvin (guitarristas do Wailers), Junior Marvin (vocalista dos Inner Circle), Chris Blackwell (director da Island Records) chegam ao Brasil para participar numa festa da Island, a famosa editora discográfica. Aterram em Manaus para reabastecimento. E não só.

O jacto fica refém durante três horas na pista. A ditadura militar do Brasil não vê com bons olhos aquela comitiva ”esfumaçada”. Só após longas e duras negociações, as autoridades cedem ao desejo da equipa de Bob Marley. Sem dar vistos de trabalho, o que impede a improvisação de um concerto, do agrado do povo brasileiro, louco por reaggae.

De Manaus para Brasília. Daí para o Rio de Janeiro. Com três horas de atraso, os jamaicanos correm atrás do tempo em direcção ao quilómetro 18 da Avenida da Sambaetiba, para um campinho. À sua espera, Chico Buarque, Toquinho, Alceu Valença e outros. As equipas definem-se num instante e escreve-se um dos mais belos poemas com Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho, Chico Buarque e Jacob Miller. As imagens televisivas confirmam: equipa de deuses.

Antes de começar o jogo, Bob Marley ganha uma camisola 10 do Santos e sorriu: “Pelé”. De seguida, avisa todo o mundo que joga em qualquer posição. Um (poli)valente, portanto. No final, claro 3-0 com golos de Bob, Chico e Caju, o tal suplente de luxo do Brasil campeão mundial em 1970, o Brasil de Pelé, Jairzinho, Gérson, Rivellino e Tostão. Outro belo poema, por sinal.

Caju, amante do reggae, é o mais expansivo com Bob Marley. “Sou fã da sua música”, ao que o jamaicano responde: “e eu do seu futebol. Ainda me lembro do Mundial-70.” Pouco mais de um ano depois, em maio 1981, Bob Marley morre vítima de cancro, aos 36 anos. É enterrado com uns cachimbos de cannabis, a sua guitarra Gibson Les Paul, a bíblia do movimento rasta e uma bola de futebol. Que coisa: um homem que não faz uma única menção ao futebol nas suas canções, que nunca passaria por um controlo anti-doping e que nasce num país acima nos rankings da pobreza e abaixo nos rankings da FIFA é um fanático de futebol.

Antes dos concertos, Bob só relaxa com uma bola de futebol (vá, um charrito ou outro…). Nas gravações, idem, idem. O autocarro das digressões tem instalada uma televisão para ver jogos de futebol. Inclusive, o seu manager é uma das estrelas mais gloriosas do futebol jamaicano: Alan Skill Cole, o primeiro homem nascido na ilha que jogou no Brasil, quando assinou pelo Náutico nos anos 70.

Estamos nos anos 70, insistimos. Aquele miúdo negro com uma melena apelativa que cresce em Trechtown, entre jogos de futebol do Boys Town FC e corridas desenfreadas para fugir à polícia, já pertence ao passado. Converte-se. E nem é daqueles rockstar egocêntrico cheio de álcool e droga. É antes um mestiço terceiro-mundista a falar de paz e liberdade. Os rapazes da CIA acham-lhe zero de graça e incluem-no na sua lista de má fé, com muita vigilância e perseguição à mistura. A dois dias de dar um recital pela paz, declaram-lhe guerra e sofre um atentado na sua casa da Jamaica. No pasa nada. Bob Marley discursa na mesma, mostra as feridas de guerra a rir e é aplaudido por 80 mil entusiastas.

Entre viagens e concertos pelo mundo fora, Bob Marley finta quem lhe aparece à frente. Inclusive a morte. Em Abril de 1977, durante um jogo em Inglaterra, pisam-lhe o dedo gordo do pé direito. Os médicos detectam-lhe uma forma de melanoma maligno. Aconselham-no a amputar o dedo. Marley diz que não. Três anos depois, a 20 de Setembro de 1980, visita Nova Iorque. Sai do Hotel Essex House, a sul do Central Park, e cai desamparado. O cancro avança. Cérebro, pulmões, fígado. Dão-lhe um mês de vida. Tenta uma tentativa desesperada. Viaja para a Alemanha e é atendido por um ex-médico das SS. Melhora. Get Up, Stand Up. O cabelo cresce-lhe e até volta a jogar futebol (one love). Mas cai novamente. Irrecuperável. Só um desejo: morrer na Jamaica. Apanha um avião. Faz escala em Miami. Daí não passa. Entra no Hospital Cedar Sinai de urgência e morre. Jamaica chora, o mundo também. A obra-mestra do reggae deixa-nos a 11 de Maio de 1981. É enterrado com uma bola de futebol. Um poema. Belo.Como este, que nos tranquiliza a todos: “don’t you worry about a thing, cause every little thing is gonna be alright”.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.