Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz
Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz
Luz, câmara, acção. Luz, sim. Estádio da Luz, o palco da final europeia desta época. É a quarta vez na história. A primeira nomeação é em 1983, por obra e graça de um Benfica finalista da Taça UEFA. Do outro lado, o Anderlecht. Em Bruxelas, 1:0 para eles. Quinze dias depois, a Luz recebe a decisão. O Benfica tem Eriksson, detentor do troféu, via-IFK Gotemburgo. O treinador sueco surpreende toda a Europa e é o presidente Fernando Martins quem o contrata. Com enorme sucesso, diga-se. O Benfica é campeão à vontade, chega à final da Taça de Portugal (ganha ao Porto, nas Antas, só em Agosto) e também à da Taça UEFA.
O percurso é fantástico. Começa com Betis (dupla vitória), acaba com Universitatea Craiova (duplo empate). Pelo meio, Lokeren, Zurique e Roma. Sim, a Roma de Falcão e Conti. No Olímpico, bis de Filipovic e 2-1. Que tarde gloriosa. A final com o Anderlecht é no dia 18 Maio 1983. Eriksson muda os hábitos, com estágio (só para jogos fora de casa, até então) e palestra de meia-hora (antes, só dez). Como se isso fosse pouco, João Alves volta a falhar o onze. Alguma explicação?
O próprio Alves dribla. “Eu e o Eriksson é uma história antiga. Não joguei a final com o Anderlecht, porquê? Nunca soube. Posso tentar adivinhar. Na meia-final, em Craiova (Roménia), fiz um teste físico e não estava em condições de jogar. O Eriksson colocou então o Strömberg e foi com ele até à final. Ou será que ele pensou que eu estivesse a fazer fita? Num treino, depois disso, eu e ele discutimos mas uma coisa normal, sem história e até própria da tensão da proximidade de uma final europeia. Destas três... Mas tem de ser o Eriksson a escolher porque eu não sei o que passou para não jogar a final de início.”
Adiante. O 1:0 de Shéu, com amortie do capitão Humberto Coelho, dá esperança à Luz. Que se apaga com o 1:1 de Lozano, aos 38 minutos. O golo do espanhol, já feito reforço do Real Madrid para a época seguinte, é um balde de água fria. O Benfica nunca mais recupera do golpe. A festa é do Anderlecht.
Nove anos depois, a UEFA decide Estádio da Luz como palco da Taça das Taças. Há interessados curiosos, como o Porto (eliminado pelo Tottenham nos ¼) e o Atlético Madrid de Futre, autor de cinco golos europeus (também eliminado nos ¼, pelo FC Brugge). A final apresenta um inédito Werder Bremen (Otto Rehhagel) vs Monaco (Arsène Wenger). A Luz está às moscas, é a final menos concorrida de sempre se compararmos o número de adeptos com o da lotação do estádio (16 mil para 120 mil) e a UEFA abana a cabeça em sinal de desalento
Não há mesmo memória de uma final assim tão despida de interesse. Falta ambiente e, já agora, futebol. Que o digam Rui Barros, o nosso Rui Barros, autor de um golo salvador de cabeça nas meias-finais vs Feyenoord, em Roterdão. “O estádio estava tão vazio, aquilo parecia um jogo-treino e não uma final. O Monaco não tem assim muitos adeptos e o Werder Bremen era um clube também novo naquelas andanças e levou pouca gente. Depois a imponência e a grandeza do Estádio da Luz, com 120 mil lugares. Só podia dar aquilo.”
E o que diz o liberiano Weah, número 9 por excelência? “Não funcionou. É assim, o futebol. Embora nós tivéssemos uma equipa talentosa com Ettoti na baliza, Petit no meio-campo, Djorkaeff a começar a aparecer, o Rui a jogar nas minhas costas, também o Werder Bremen era fantástico, com os experientes Allofs, Bratseth, Votava, Rufer. O treinador era Otto Rehhagel, que viria a ganhar o Euro-2004 pela Grécia.” Onde? Na Luz, ora pois. Com golo de Charisteas, então no Werder Bremen. Ele há coincidências.
O amuo da UEFA em relação à Luz dura anos e anos. É preciso construir um novo estádio para injectar capital. De confiança, queremos dizer. Em 2014, alto lá e pára o baile. Lisboa, capital de Portugal desde 1256. Lisboa, capital de Espanha só hoje. É o dia da final da Liga dos Campeões entre Real e Atlético, na Luz. Duas equipas espanholas, ambas de Madrid. Invasão espanhola à vista. Por ar, mar e terra. O Cais Sodré que se cuide. E o Terreiro do Paço. E os Restauradores. E o Rossio. E o Marquês de Pombal. E por aí acima, até chegar à casa do Benfica. Já não lhe basta ser campeão nacional e vencedor das duas Taças, agora é novamente o centro das atenções como palco da final mais improvável dos últimos tempos.
O Atlético de Simeone, que afasta quatro campeões europeus no processo, entre Porto, Milan, Barcelona e Chelsea, arranca melhor: um erro de cálculo de Casillas é o suficiente para o 1:0 do central uruguaio Godín. O Real de Ancelotti reage pouco e mal. O empate só chega nos descontos, minuto 90-e-tal. Ou melhor, 90-e-Ramos. É do central Sergio Ramos o 1:1. Vamos para prolongamento. Nesse período extra, Di María, que conhece muy bien os cantos à casa, toma conta do pedaço e dá um baile histórico. Marcam Bale, Marcelo e Ronaldo (penálti). Acaba 4-1, inglório para o Atlético – e a Décima para o Real Madrid, a primeira desde 2002.
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