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Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz
Desporto 4 min. 17.08.2020

Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz

Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz

Foto: AFP
Desporto 4 min. 17.08.2020

Conta-me como foi da bola. As finais europeias na Luz

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
Uma Taça UEFA (1983), uma Taça das Taças (1992) e, agora, duas Liga dos Campeões (2014, 2020).

Luz, câmara, acção. Luz, sim. Estádio da Luz, o palco da final europeia desta época. É a quarta vez na história. A primeira nomeação é em 1983, por obra e graça de um Benfica finalista da Taça UEFA. Do outro lado, o Anderlecht. Em Bruxelas, 1:0 para eles. Quinze dias depois, a Luz recebe a decisão. O Benfica tem Eriksson, detentor do troféu, via-IFK Gotemburgo. O treinador sueco surpreende toda a Europa e é o presidente Fernando Martins quem o contrata. Com enorme sucesso, diga-se. O Benfica é campeão à vontade, chega à final da Taça de Portugal (ganha ao Porto, nas Antas, só em Agosto) e também à da Taça UEFA.

 O percurso é fantástico. Começa com Betis (dupla vitória), acaba com Universitatea Craiova (duplo empate). Pelo meio, Lokeren, Zurique e Roma. Sim, a Roma de Falcão e Conti. No Olímpico, bis de Filipovic e 2-1. Que tarde gloriosa. A final com o Anderlecht é no dia 18 Maio 1983. Eriksson muda os hábitos, com estágio (só para jogos fora de casa, até então) e palestra de meia-hora (antes, só dez). Como se isso fosse pouco, João Alves volta a falhar o onze. Alguma explicação?

 

O próprio Alves dribla. “Eu e o Eriksson é uma história antiga. Não joguei a final com o Anderlecht, porquê? Nunca soube. Posso tentar adivinhar. Na meia-final, em Craiova (Roménia), fiz um teste físico e não estava em condições de jogar. O Eriksson colocou então o Strömberg e foi com ele até à final. Ou será que ele pensou que eu estivesse a fazer fita? Num treino, depois disso, eu e ele discutimos mas uma coisa normal, sem história e até própria da tensão da proximidade de uma final europeia. Destas três... Mas tem de ser o Eriksson a escolher porque eu não sei o que passou para não jogar a final de início.”

 Adiante. O 1:0 de Shéu, com amortie do capitão Humberto Coelho, dá esperança à Luz. Que se apaga com o 1:1 de Lozano, aos 38 minutos. O golo do espanhol, já feito reforço do Real Madrid para a época seguinte, é um balde de água fria. O Benfica nunca mais recupera do golpe. A festa é do Anderlecht.

 Nove anos depois, a UEFA decide Estádio da Luz como palco da Taça das Taças. Há interessados curiosos, como o Porto (eliminado pelo Tottenham nos ¼) e o Atlético Madrid de Futre, autor de cinco golos europeus (também eliminado nos ¼, pelo FC Brugge). A final apresenta um inédito Werder Bremen (Otto Rehhagel) vs Monaco (Arsène Wenger). A Luz está às moscas, é a final menos concorrida de sempre se compararmos o número de adeptos com o da lotação do estádio (16 mil para 120 mil) e a UEFA abana a cabeça em sinal de desalento

 Não há mesmo memória de uma final assim tão despida de interesse. Falta ambiente e, já agora, futebol. Que o digam Rui Barros, o nosso Rui Barros, autor de um golo salvador de cabeça nas meias-finais vs Feyenoord, em Roterdão. “O estádio estava tão vazio, aquilo parecia um jogo-treino e não uma final. O Monaco não tem assim muitos adeptos e o Werder Bremen era um clube também novo naquelas andanças e levou pouca gente. Depois a imponência e a grandeza do Estádio da Luz, com 120 mil lugares. Só podia dar aquilo.”

 E o que diz o liberiano Weah, número 9 por excelência? “Não funcionou. É assim, o futebol. Embora nós tivéssemos uma equipa talentosa com Ettoti na baliza, Petit no meio-campo, Djorkaeff a começar a aparecer, o Rui a jogar nas minhas costas, também o Werder Bremen era fantástico, com os experientes Allofs, Bratseth, Votava, Rufer. O treinador era Otto Rehhagel, que viria a ganhar o Euro-2004 pela Grécia.” Onde? Na Luz, ora pois. Com golo de Charisteas, então no Werder Bremen. Ele há coincidências.

 O amuo da UEFA em relação à Luz dura anos e anos. É preciso construir um novo estádio para injectar capital. De confiança, queremos dizer. Em 2014, alto lá e pára o baile. Lisboa, capital de Portugal desde 1256. Lisboa, capital de Espanha só hoje. É o dia da final da Liga dos Campeões entre Real e Atlético, na Luz. Duas equipas espanholas, ambas de Madrid. Invasão espanhola à vista. Por ar, mar e terra. O Cais Sodré que se cuide. E o Terreiro do Paço. E os Restauradores. E o Rossio. E o Marquês de Pombal. E por aí acima, até chegar à casa do Benfica. Já não lhe basta ser campeão nacional e vencedor das duas Taças, agora é novamente o centro das atenções como palco da final mais improvável dos últimos tempos.

 O Atlético de Simeone, que afasta quatro campeões europeus no processo, entre Porto, Milan, Barcelona e Chelsea, arranca melhor: um erro de cálculo de Casillas é o suficiente para o 1:0 do central uruguaio Godín. O Real de Ancelotti reage pouco e mal. O empate só chega nos descontos, minuto 90-e-tal. Ou melhor, 90-e-Ramos. É do central Sergio Ramos o 1:1. Vamos para prolongamento. Nesse período extra, Di María, que conhece muy bien os cantos à casa, toma conta do pedaço e dá um baile histórico. Marcam Bale, Marcelo e Ronaldo (penálti). Acaba 4-1, inglório para o Atlético – e a Décima para o Real Madrid, a primeira desde 2002.  

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