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Conta-me como foi da bola. As aventuras entre PSV e Benfica
Desporto 6 min. 26.08.2021
Futebol

Conta-me como foi da bola. As aventuras entre PSV e Benfica

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Conta-me como foi da bola. As aventuras entre PSV e Benfica

Foto: AFP
Desporto 6 min. 26.08.2021
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Conta-me como foi da bola. As aventuras entre PSV e Benfica

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
O acesso do Benfica à Liga dos Campeões depende do resultado em Eindhoven, onde há dois espaços baptizados de Romário dentro do estádio

Sporting, campeão. FC Porto, vice. Dois já lá moram, falta o terceiro representante português na fase de grupos da Liga dos Campeões. Falamos do Benfica, à espera do desfecho do play-off em Eindhoven. A primeira visita à Holanda é em 1975, por ocasião da Taça das Taças. Diz-nos Toni. “Em casa de ferreiro, espeto de pau.” Ai é, então? “A dez minutos do fim, no estádio deles que é da Philips, houve um apagão. Não se via nada, eheheh. Ficámos uns vinte e tal minutos ali no campo, até porque não estávamos no Terceiro Mundo. Estávamos na Holanda e eles garantiram logo ao árbitro [o italiano Michlotti] que o reparo não seria demorado. Assim foi. Voltou a luz, retomámos o jogo e acabámo-lo da mesma forma com que começámos: zero a zero.”

Calma, há mais. “Esse jogo também teve um episódio curioso, porque no início da segunda parte [53 minutos] houve uma substituição de guarda-redes: saiu o José Henrique, lesionado pelo René van Kerkhof, cujo irmão Willy também jogava lá e até lhe anularam um golo por outra falta sobre o guarda-redes ainda na primeira parte, e entrou o Bento. E o Bento esteve impecável. Defendeu muito, embora nós tivéssemos atacado com regularidade. Lembro-me perfeitamente de um tiraço do Eusébio e defesa para canto de Van Beveren.”

Na segunda mão, “aconteceu taça, perdemos 2-1. Eles marcaram primeiro pelo tal Wily van Kerkhof [11 minutos]. Esse e o irmão gémeo René eram, de facto, as estrelas da equipa. Tinham estado no Mundial-74 e tudo. Nós empatámos logo a seguir [17’]: cruzamento de Eusébio e golo de Humberto, que ainda atiraria ao poste nessa primeira parte. Depois, estivemos ali como se costuma dizer no vai-não vai, 1-1 a prolongar-se, os golos fora já valiam, eles defendiam-se bem, nós não atinávamos com a baliza e eles fizeram o 2-1 muito perto do fim [aos 85’, por Willy van der Kuijlen, ainda hoje o melhor marcador da história do campeonato holandês, com 311 golos]. Outro pormenor que me lembro desse jogo na Luz, com luz [risos], foi a distribuição de tulipas por parte dos jogadores do PSV aos adeptos antes do apito inicial. Outra cultura”.

Independentemente disso, o então presidente benfiquista Borges Coutinho culpa a Federação Portuguesa de Futebol pela eliminação. Mas como? Entre o jogo em Eindhoven e o da Luz, a Federação Portuguesa de Futebol aceita 30 mil dólares para ir ao Brasil e inaugurar o Estádio Serra Dourada. Para espanto geral, a desconhecida equipa regional do Goiás surge na qualidade de representante do seu país. Para tornar tudo ainda mais cinzento, o jogo é apitado por um brasileiro, o estado do campo é lamentável e está um calor dos ananases. Portugal perde 2-1, acumula já oito jogos sem vitórias e sofre com o pessimismo popular. O seleccionador Pedroto leva os benfiquistas Artur, Humberto Coelho, Toni, Nené, Barros e Vítor Martins. Daí que Borges Coutinho tenha culpado a FPF. “Que viagem inútil!”

É capaz de ter razão. 2 Março, 1:0 vs Vitória SC em Guimarães. Dia 5, 0:0 em Eindhoven, com o PSV. Dia 9, Selecção de Góias vs Portugal, no Brasil. Dia 15, 1:0 vs CUF na Luz. Dia 19, 1-2 com PSV na Luz. Em 17 dias, cinco jogos e ainda uma viagem-relâmpago ao Brasil. E assim, por um punhado de dólares, se estraga o sonho.

Quase 50 anos depois, eis Benfica e PSV a esgrimir novamente argumentos numa eliminatória europeia. Desta vez, o desenlace é em Eindhoven, onde está instalada a sala Romário dentro do estádio. É possível um noctívago danado gostar de viver numa cidade com 200 mil habitantes e sem uma noite palpitante? É possível um clube campeão europeu não ter um museu no seu estádio? Sim e sim. Romário e PSV convivem durante cinco épocas, entre 1988 e 1993, nas quais o baixinho voa alto com 128 golos em 140 jogos mais seis títulos colectivos e quatro vezes o melhor marcador do campeonato.

Com este currículo, é normal que Romário ocupe duas salas no Phillips Stadium? Sim, outra vez. Quando fizer uma visita guiada ao estádio do PSV (seja em holandês ou em inglês), encontra a Casa Romário e a Sala Romário (assim mesmo, em português). A Casa Romário é um luxuoso restaurante de cozinha típica com 330 metros quadrados, na parte superior da bancada central. Ao longo das mesas, um enorme vidro separa[1]nos do relvado e os jogadores parecem estar ali connosco, mesmo à nossa frente. Nas paredes do restaurante, uma dezena de fotografias XXL espalhadas e emolduradas do avançado brasileiro com a camisola do PSV, no tempo em que entortava os defesas contrários com dribles desconcertantes e arrancadas imprevisíveis. A Sala Romário é um espaço VIP, só destinado a quem tem o bilhete de época mais caro. Só abre nos dias de jogo, como na próxima terça vs Benfica.

À entrada, um longo corredor que exibe todas as conquistas do clube, incluindo a tal Taça dos Campeões ganha ao Benfica nos penáltis em Estugarda 1988. É precisamente a seguir a esse triunfo que Romário chega do Brasil, via Vasco da Gama. Com apenas 22 anos, o brasileiro é negociado pessoalmente pelo treinador holandês Guus Hiddink, no Rio de Janeiro. A transferência faz-se por 5 milhões de dólares, na altura a mais cara de sempre de um brasileiro por um clube estrangeiro. Na época de estreia, dobradinha (campeonato e Taça) mais a artilharia dos golos no campeonato. Na Taça dos Campeões, marca dois golos ao Real Madrid numa espécie de aviso para o futuro.

Na época seguinte (89-90), Romário é o primeiro brasileiro convocado para um Mundial em representação de uma equipa holandesa. Mas a fase final do Itália-90 não lhe corre de feição, devido a uma lesão no tornozelo contraída em Fevereiro, ao serviço do PSV. O clube holandês dá-lhe carta branca para fazer a recuperação no Rio de Janeiro e os dirigentes são surpreendidos por fotos do craque a jogar futebol de praia. Em 90-91, Hiddink vai treinar o Fenerbahçe e abre vaga para Robson. À saída do PSV, diz de sua justiça. “O jogador mais interessante com quem trabalhei. Era o tipo de pessoa que marcava golos com facilidade. Antes dos jogos importantes, na Holanda ou na Europa, a maioria estava nervosa e falava pouco comigo. Ele [Romário] não. Aproximava-se de mim e dizia-me ‘coach, tranquilo, Romário vai marcar e nós vamos ganhar’. Não acertava sempre, lógico, mas diria que oito em dez jogos ele fazia o golo da vitória.”

O sonho acaba em 1993, quando o PSV não ganha nada. Romário, esse, sai-se vencedor com o título de melhor marcador da Liga dos Campeões, com sete golos, dois deles ao FC Porto de Vítor Baía, nas Antas (2-2). Por essa altura, já um outro holandês chamado Johan Cruijff está rendido à inegável classe do brasileiro. O Barcelona contrata-o por 4,5 milhões de dólares. O resto é história. Se quiser vê-la, vá ao estádio do PSV. Antes da fase de grupos, claro.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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