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Conta-me como foi da bola. A última entrevista de Garrincha
Desporto 7 min. 28.03.2021 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. A última entrevista de Garrincha

Conta-me como foi da bola. A última entrevista de Garrincha

Foto: DR
Desporto 7 min. 28.03.2021 Do nosso arquivo online

Conta-me como foi da bola. A última entrevista de Garrincha

Rui Miguel Tovar
Rui Miguel Tovar
A propósito dos 51 anos da visita inédita do brasileiro ao Estádio José Alvalade, eis uma maravilha da natureza.

Ainda hoje sabe-se pouco sobre a quantidade de filhos. São-lhe atribuídos 14. Será do guaraná? Ou são apenas rumores misturados com má-língua e salpicados com especulação? Seja como for, um aspecto há a salvaguardar: ele diverte e diverte-se com o futebol. Em forma, o relvado transforma-se num circo e a bola torna-se um animal obediente, enquanto os adversários esbarram uns nos outros, vezes sem conta. O Anjo das Pernas Tortas, numa alusão à perna direita ser seis centímetros mais curta que a esquerda e ambas arqueadas, ou o Chaplin do futebol, é o verdadeiro herói do povo brasileiro. Ei-lo, Manuel Francisco dos Santos, mais conhecido por Mané (diminutivo de Manuel) Garrincha (é uma das irmãs que lhe mete a alcunha, nome de um pássaro que ele gosta de caçar com uma fisga, muito comum na região serrana de Petrópolis, onde mora esta extensa família de 17 representantes).

Um dos melhores jogadores de todos os tempos. Os seus dribles desconcertantes enchem estádios, levantam multidões. De tão abusado que é, com fintas incríveis, muitas vezes repetidas frente ao mesmo opositor, o seu futebol é conhecido como Alegria do Povo e disso se aproveita o Brasil para ganhar uma hegemonia internacional, até então nunca alcançada. Com Pelé e Garrincha, a seleção brasileira nunca perde um único dos 59 jogos entre 1955 e 1966. Pelo meio, dois Mundiais conquistados. Pois bem, Garrincha apresenta-se no Estádio José Alvalade num insuspeito Sporting 2 Académica 1, na tarde de 29 março 1970. A presença é notada nas bancadas pelos jornalistas. “Gostava de jogar aqui. Senti-me em casa e vocês são um povo caloroso”. Em vão, Garrincha já é um caso perdido e só voltaria a jogar dois anos depois, em 1972, pelo modesto Olaria.

A esse propósito, o dos 51 anos da inédita visita ao José Alvalade, recuperámos a última entrevista de Garrincha, em 1975, ao jornal argentino Clarín.

Garrincha, como vai?

Tudo tranquilo, levo uma vida calma e descontraída.

E futebol?

Não vou aos estádios, há muito barulho e sou pela paz.

Mas...

Mudámo-nos [Garrincha e a cantora Elza Soares, sua mulher] há um ano e aqui há ar puro, árvores e pássaros. Passo o dia a cuidar deles. Acordo às seis da manhã para os ver um a um. É muito mais tranquilo cuidar de pássaros do que jogar futebol, não há comparação.

Insisto sobre o futebol, nem na televisão?

Aí sim, vejo. Mas não sou homem de recordar isto ou aquilo. Não sei... não gosto de viver no passado, dá-me vergonha. Sou uma pessoa simples. Muito bem.

O seu nome é Manoel Francisco dos Santos, profissional é Mané Garrincha. Quem lhe pôs o Mané?

O Nilson Santos [defesa-direito da selecção brasileira], Mané é diminutivo de Manoel.

E o Garrincha?

Isso foi obra de um dos meus 14 irmãos. É o nome de um pássaro muito comum no estado do Rio de Janeiro, que está em permanente movimento com gritos imprevisíveis.

Não dá mesmo para falar de futebol. Faça um esforço, viemos de tão longe...

Muito bem, diga.

Qual a jogada mais bonita de que se lembra?

Essa é fácil, 1958 em Itália, antes de irmos para o Mundial da Suécia. Acho que foi com a Juventus. Peguei na bola ali no meio-campo e comecei a fintar todos, inclusive o guarda-redes, até chegar à linha de golo. Então peguei a bola com as mãos, já não tinha graça continuar a jogar [há jogadores desse particular que contam outra história, a de que Garrincha volta ao meio-campo para fazer a mesma jogada]. Agora nunca faria isso.

Então?

Sou mais médio e não extremo. Agora só jogo de primeira. Em 1958 era muito jovem e tinha uma velocidade bárbara. As pernas corriam mais do que eu queria e as jogadas saíam-me quase sempre bem.

As marcações eram muito duras?

Quanto mais duras melhor. Adorava esses defesas que entravam em campo com o único propósito de me acertar, porque são aqueles que menos sabem jogar futebol e pior defendem. Havia exceções, claro, e esses eram os mais difíceis de ultrapassar. Como Jordán, do Flamengo. Nunca me fez uma única falta, se bem que às vezes perdia comigo no confronto direto.

Estamos em 1975. Como vê o futebol?

Feio. Todos defendem. E muito. Vi o Mundial-74 pela televisão e não havia nenhuma equipa grande de verdade. Holanda não me convenceu nada. Se tivesse toda aquela equipa de que se falava, não perdia a final [vs. RFA, em Munique]. E essa versão de que o futebol atual é mais rápido é pura mentira. Antes chegávamos à baliza com dois toques, agora são precisos 20. Como o Brasil, que passava, passava e passava mas nunca passava do mesmo sítio.

Voltando à Holanda, sou mais apologista do futebol com posições definidas. Num dia, o extremo era avançado e o central era lateral. Vamos simplificar o futebol: o extremo é extremo, o avançado é avançado, o central é central e o lateral é lateral. Cada posição tem o seu segredo, não se pode jogar de memória numa posição que não é a tua. Claro que há jogadores que acertam rapidamente na nova posição mas é sorte. Não comparto esse novo estilo de improvisar. Tem uns quantos poucos fenómenos que conseguem jogar em qualquer posição, mas eles são isso mesmo, fenómenos.

O que aconselha então?

Há que jogar para a frente. O treinador que manda jogar à defesa é porque tem medo de perder o emprego. O futebol é tão simples: ataca-se e defende-se. Se montares uma boa equipa lá atrás, os da frente podem estar tranquilos e até ser mais ofensivos. Se tens um Pelé e um Zico, podes encostar mais dois avançados. Agora se não tens um Pelé nem um Zico, de que vale continuar com dois avançados? Se forem burros, pior ainda. Daí que o futebol esteja cheio de zero-zeros.

Quer fazer carreira de treinador?

Sim, claro que quero. Eu aprendi muito a ver futebol. Dentro do campo, como jogador, e também fora, como adepto ou suplente. Se me contratarem, não vou pedir grandes contratações. Não me parece muito engraçado ser nomeado treinador e apresentar uma lista infindável de jogadores caros. Com os grandes jogadores basta desejar-lhes sorte no túnel de acesso ao relvado. Quanto aos mais novos, o segredo é prepará-los decentemente para que não tenham medo de falhar. Ou seja, é lançá-los uma, duas vezes na 1.ª divisão. Depois voltam à base [juniores ou reservas]. Mais tarde regressam à equipa principal e aí já será para ficar com os maiores.

Isso...

O meu esquema era jogar sempre para ganhar, futebol ofensivo. Jogaria também com dois experientes com mais de 30 anos, necessários para impor um ritmo apropriado num jogo mais complicado. Claro que podia perder rapidamente o emprego, daí que prefira começar com os mais novos. Na 1.a divisão, os dirigentes perdem a paciência muito depressa e ainda não perceberam que o futebol é um desporto de paciência. Quando era jogador, tinha jogadas na minha cabeça mas elas só saíam bem durante o jogo com a prática.

Teve algum ídolo?

Zizinho, um jogador excecional. Pareceu-me um sonho estar a jogar ao seu lado naquela vez pela seleção carioca. Antes do jogo falámos um com o outro e foi curioso. Ele já era um veterano e disse-me “tu és o meu ídolo” quase ao mesmo tempo que eu.

E qual foi o teu melhor companheiro em campo?

Paulo Valentim. Eu podia cruzar de olhos fechados para trás que ele estava lá sempre, pronto para rematar à baliza de forma certeira. Foi uma figura no Boca Juniors e isso já diz muito. Tenho pena que esteja a passar momentos tão difíceis no México. Ele fez muito dinheiro, não percebo.

Mas o Garrincha fez dinheiro na carreira?

Não, nunca lhe dei importância. Quando comecei no Botafogo, em 1953, a minha grande alegria era jogar futebol. Depois foi sempre assim. Assinei sempre em branco para que o clube pagasse o que considerasse apropriado. Se fossem 10 mil cruzeiros, tudo bem. Se fossem 12 mil também. Uma vez, a Juventus de Itália ofereceu 700 mil dólares pelo meu passe mas o Botafogo pedia um milhão. O negócio não avançou e eu não fiquei nem um pouco aborrecido. A mim nunca me interessou o dinheiro. E continuo igual. Com o plano de ser treinador principal, é a mesma coisa. Quero trabalhar, o dinheiro é secundário. Não vou para um clube por dinheiro, mas sim para ensinar o que aprendi. 

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